Por Ioná Nunes

“Live fast, die young” é o que uma música pop diz. Você já deve ter ouvido falar da “maldição dos 27”, sobre artistas que morreram antes dos 30 devido ao estilo de vida boêmio em busca de um sentido para sua existência. A verdade é que fora do espectro literário, musical e jornalístico que abordam, a gente não pensa muito na morte.

Se você é cristão, morrer não é algo pavoroso porque há uma esperança para além da vida terrena. Mas a pandemia deixou evidente que muitos de nós não se sentem assim. Eu fui uma das pessoas que teve crise de ansiedade, síndrome do pensamento acelerado por causa dela. Talvez porque eu odeie fins e lidar com eles seja um martírio, talvez porque eu não confiasse no Senhor e, em vez de fixar os olhos no Deus soberano, concentrei-os no mundo caído.

Quando Salomão escreveu Eclesiastes, percebeu que o sábio e o tolo morriam da mesma forma (Ec 2.16) e iam para o mesmo lugar (Ec 3.20). Eu imagino ele perguntando a si mesmo: “É só isso?”. Quando o pecado entrou no mundo a morte reinou e ceifou vida de milhões ao longo das décadas, séculos e milênios. Mas Jesus sendo o único e verdadeiro Rei, venceu a morte e a colocou em seu devido lugar.

Se Cristo venceu a morte e por causa dele temos vida e esperança para a eternidade, por que pensar sobre o fim do corpo terreno é doloroso? Ou mesmo algo evitado?

A morte não é Thanos, mas é inevitável em mundo dominado pelo pecado, mas Cristo que é poderoso o suficiente para derrotá-la, também é. Não quero de forma alguma romantizá-la, mas apenas enfatizar que com Jesus ela não é um problema.

Em 2019, a minha avó morreu depois de anos internada em virtude de um derrame. Eu quis morrer. Acho que foi a primeira vez que desejei com todos os átomos do meu corpo estar com o meu Salvador. Eu nunca tinha pensado na brevidade da vida até o luto comer as minhas entranhas. Salomão diz que é melhor ir a uma casa onde há luto do que em uma casa em festa porque a morte é o destino de todos e os vivos devem levar isso a sério (Ec 7.2). Foi o que aconteceu comigo e é o que acontece com tantas outras pessoas ao redor do mundo.

Quando Tim Keller descobriu o seu câncer, ele não conseguiu acreditar que a morte era uma possibilidade para ele. Sendo pastor desde 1975, Tim teve muitas conversas sobre esse tema com outros cristãos e não cristãos, mas nunca tinha pensado sobre a própria morte até o diagnóstico de câncer ser dado. Em seu artigo Growing my faith in the face of death, Keller cita o antropologista cultural Ernest Becker e ele diz que a negação da morte é um fator dominante em nossa cultura. A sociedade atual nega a morte. Ela é algo abstrato, algo que intelectualmente sabemos que existe, mas que é inimaginável para nós até bater à nossa porta ou à porta de alguém que amamos.

Apesar de músicas falarem sobre morrer cedo e com isso se tornar uma lenda, apesar de a morte ser inevitável, ela continua sendo vista como algo abstrato. E o mesmo acontece com as nossas crenças em Deus e na vida após a morte. E quando a gente não aceita a realidade pessoal da morte, tais crenças são apenas consentimentos mentais e nunca algo tangível. A morte e a ressurreição de Cristo foram mais reais do que o ar que respiro e a morte e esperança da eternidade são tão concretas quanto a rejeição delas.

Em Cristo, morte e vida eterna se encontram, as duas são tão reais quanto podem ser e a realidade de nenhuma das duas pode ser negada. Mas podem ser enfrentadas com uma cosmovisão bíblica que nos oferece a esperança em forma de cruz.

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