Por Lucas Peterson

Há alguns dias, fui obrigado a parar pra pensar sobre um tema que sempre que possível postergo pra depois: “como pode um Deus de amor mandar alguém para o inferno?”

Sem maiores pretensões, comecei a preparar a aula para a EBD sobre o famigerado tema (EBD é como os crentes costumam chamar os momentos em que Estudam a Bíblia no Domingo).

Confesso, nunca foi um tema que me agradou. Nunca entendi direito a tara que alguns cristãos têm sobre o assunto.

Além disso, penso que é o tipo de indagação que não se responde com algumas sentenças simples, mas que se carrega por toda a vida.

Apesar disso, fiz um pequeno resumo das conclusões que cheguei:

 

1) A Bíblia desde o Antigo Testamento aponta para esta ideia de julgamento final e de retribuição eterna (céu ou inferno).

Vários textos do Antigo Testamento, especialmente os proféticos, parecem apontar para esta ideia de retribuição vindoura. Isaías 66.22–24 e Daniel 12.1–2 (reproduzido abaixo) são exemplos disso.

“Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno.” (Daniel 12.2)

 

2) Jesus e o Novo Testamento confirmam esses apontamentos em muitos textos. Portanto, é difícil alegar que a ideia de céu/inferno não está na Bíblia.

Sempre que conversava com amigos sobre a questão do inferno eu recorria para Jesus, sobre o que ele falou a respeito, etc. Por vezes, aleguei que esse não era o foco de sua mensagem.

Em que pese ainda pense desta forma, não dá pra afirmar que Jesus não trata do tema, com bastante propriedade. Textos como Mateus 13.47–50; 25.31–46; e o próprio Sermão do Monte comprovam que Jesus não deixou de lado as questões do julgamento e da vida eterna (vida/alegria ou desprezo/castigo eterno).

 

3) As conclusões números 1 e 2 não deixam a questão do Inferno mais simples.

Os religiosos em geral têm muitos problemas em lidar com as suas dúvidas.

Acontece que tomar para si uma verdade (mesmo que seja verdade) que não foi devidamente refletida e aterrizada, só piora as coisas.

O convívio com as dúvidas pode ser sadio se levado de forma a construir um pensamento mais consistente.

 

4) O Juízo é feito por Deus.

Independentemente da leitura que se faça dos textos acima destacados e de outros que tratam do “juízo final”, é bastante claro que a Bíblia retrata que esse juízo será realizado exclusivamente por Deus, que se apresenta na figura de um justo juiz.

Assim, não cabe às pessoas (especialmente os religiosos) determinarem julgamento antecipado e incompetente sobre os outros — gastei um pouco o juridiquês aqui, foi mal.

Aos seguidores de Jesus, cabe sempre um olhar de graça para todo mundo.

 

5) Céu e inferno como consequência e não “vontade de Deus”.

Minha impressão é que a realidade eterna é consequência da nossa vida finita.

Pensar dessa forma ameniza um pouco a questão de que seria a “vontade de Deus” as pessoas irem para o inferno.

Nesse modo de encarar o juízo divino, Deus estaria apenas dando o que as pessoas em vida desejaram e buscaram. Assim, o inferno seria reservado aos que são orgulhosos e egoístas.

Deus ao mandá-los para o inferno só estaria cumprindo a sua vontade, o seu verdadeiro desejo.

Essa ideia é apresentada por alguns estudiosos. Sobre o assunto, C. S. Lewis escreveu:

“Existem apenas dois tipos de indivíduos — os que dizem a Deus “seja feita a sua vontade” e aqueles a quem Deus diz no fim “seja feita a sua vontade”. Todos os que estão no inferno escolherem estar lá. Sem esse livre arbítrio não haveria inferno. Uma alma que, com seriedade e constância deseje a alegria jamais deixará de tê-la.” (Lewis, C. S. O problema do sofrimento. Vida Nova. p. 69)

 

6) Os cristãos não devem estar focados no Inferno.

O meu sentimento de aversão à verdadeira obsessão de alguns cristãos pelo inferno foi reforçado nesse meu pequeno estudo sobre o assunto.

O foco (inclusive da pregação) dos que seguem ao Deus da Bíblia não deve ser o inferno, mas o céu. Trazer o céu pra perto das pessoas na realidade de hoje e também na realidade futura e eterna.

O medo do inferno não transforma ninguém. Pelo menos não para melhor.

7) Implicações boas em acreditar na existência do Inferno.

Eu não compreender a ideia de inferno (castigo eterno) não significa que ele não exista.

Há inclusive boas implicações em crer em sua existência, como, por exemplo, a de que a injustiça um dia terá fim.

É o que o pastor Tim Keller comenta, que a falta de fé em um Deus que toma para si a vingança alimenta secretamente, em verdade, a violência:

“Se não acreditarmos que existe um Deus que no final vai reparar tudo, haveremos de desembainhar a espada e seremos sugados pelo redomoinho da retaliação. Apenas se tivermos certeza que existe um Deus que reparará todos os erros e acertará com perfeição todas as contas, seremos capazes de refrear esse impulso.” (Keller, Timothy. A fé na era do ceticismo. Vida Nova: 2015. p. 103)

 

8) O Deus da Bíblia se revela como um Deus pessoal e que busca relacionamento.

O Deus da Bíblia se revela como um Deus pessoal e de relacionamento. Ele se mostra como um Deus que anseia por ouvir nossas dúvidas, bem como nossos anseios, medos, angústias e alegrias.

Nesse sentido, os seus seguidores também devem buscar agir da mesma forma.

Mais uma vez: não faz sentido criar espaços de convivência (comunidades de fé) que rejeitem a abertura para as dúvidas e para o debate de temas difíceis, só porque podem criar polêmica e “abalar” a fé.

 

9) Uma postura de diálogo é sempre melhor do que a arrogância.

Como visto nos tópicos acima, a questão do inferno é de difícil trato.

O diálogo é sempre a melhor saída (ou início, nesse caso). Ele proporciona a construção de ideias com muito mais sentido do que a mera apropriação de uma verdade de terceiros.

 

10) “Acredito em um Deus de amor”

Pensar que o inferno existe é cruel, assustador, de difícil compreensão, porém bem bíblico.

Imaginar que ele não exista pode ser ainda mais desolador!

O maior ato de amor de Deus foi “pagar o preço” pelos pecados do mundo (por mundo, leia-se toda a humanidade).

Um dos versículos mais famosos da Bíblia retrata isso:

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16)

Apagar o inferno de nossa teologia pode ter como efeito fazer despropositado o sacrifício na cruz de Jesus por todos os pecadores.

Sem a consequência eterna, não haveria necessidade de sua vinda; encarnação como homem; sofrimento e morte.

Acredito sim em um Deus de amor. Um Deus que escolhe morrer em vez de matar. Ao mesmo tempo em que acredito em um Deus de justiça. Um justo juiz pautado igualmente por misericórdia e graça.

Não me livrei da ideia de que o inferno existe e está reservado aos orgulhosos e egoístas.
Não me livrei graças a Deus.
Não me livrei graças ao que a própria Bíblia ensina.

Por outro lado, a realidade do inferno para os que consideram a Bíblia deve os levar a amar ainda mais a todos, sem distinção, e viver de forma sacrificial seguindo o modelo apresentado por Jesus.

Assim,
Livrei-me do inferno que eu escolho mandar todo aquele que é diferente de mim.
Livrei-me do inferno que é impor as minhas verdades sobre os outros.
Livrei-me desse inferno que eu construí, porque eu mesmo não quero ir pra lá.
Porque como cristão não desejo que ninguém vá para o inferno.

Que Deus nos livre desses infernos.

  • Lucas Peterson Magalhães, 27 anos. Formado em Direito, participa da Comunidade Evangélica em São Bernardo do Campo (SP). Texto publicado originalmente em seu Medium.

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