Por Gabriel Louback

Sabe os 10 mandamentos? Não de cor, claro, mas o conceito, a ideia do que eles transmitem, a história deles? Então.O povo de Israel tinha sido liberto do Egito, estavam a caminho de Canaã, a “terra prometida” e, no meio do caminhada, param no Monte Sinai, onde o Eterno passou os 10 mandamentos ao povo.

Na verdade, Ele passou a Moisés: o povo ficou com medo da voz do Eterno e pediu que Moisés ouvisse o que Ele tinha pra falar, e aí então falasse o que tinha ouvido do Eterno (Êxodo 19 e 20).

Por muito tempo interpretei de forma equivocada os 10 mandamentos. Sempre achei que eram apenas regras que Deus esperava que seguíssemos, mas nos últimos anos fui descobrir (entender?) que Deus sabia que era impossível cumprirmos 1 mandamento daqueles que fosse. Por que, então, Ele deu os mandamentos sabendo que não cumpriríamos nossa parte nessa “aliança”, nesse combinado?

Com os 10 mandamentos, Deus nos deu algo parecido com um espelho. Nele, podemos ver nossa condição e impossibilidade de fazer qualquer coisa, por nossa conta que nos conecte com Ele, que crie uma maneira, um caminho de “voltarmos” para Ele.Mas se observarmos esse espelho por um pouco mais de tempo, começaremos a ver um reflexo; uma centelha de algo que foi feito à imagem e semelhança de Deus; veremos Sua beleza, veremos Sua santidade, veremos Sua grandeza. Os 10 mandamentos revelam nossa condição e, ao mesmo tempo, revelam o caráter do Eterno.

Nessa revelação e nesse reflexo vemos também que Deus deu o passo necessário em nossa direção e fez o que era preciso para que nos reconectássemos com Ele: tornou-se como um de nós, carne, osso e sangue, e sangue derramado na cruz. Pagou o preço para estarmos juntos, de uma vez por todas, para sempre.

Mas antes disso, algo interessante aconteceu. Nos capítulos 5, 6 e 7 do livro de Mateus, vemos que Ele próprio subiu em um monte, assim como fez Moisés.

Ali, Ele sintetizou como vivem aqueles que O seguem. E o contraponto de Jesus, o Deus Encarnado, pregando no monte, em relação a Moisés subindo no monte para receber os mandamentos, não é algo misterioso, é bem explícito na verdade.

Ele diz “Não pensem que vim abolir a lei de Moisés” (Mt 5:17) e logo em seguida “Vocês ouviram o que foi dito a seus antepassados” (Mt 5:21), se referindo à lei recebida por Moisés.

E aí que a coisa começa a ficar interessante.

O profeta Jeremias diz o seguinte em seu livro, no capítulo 31: “‘E esta é a nova aliança que farei com o povo de Israel depois daqueles dias’, diz o Senhor. ‘Porei minhas leis em sua mente e as escreverei em seu coração'” (v.33).

Moisés subiu ao Monte Sinai sozinho. Depois de 40 dias, voltou com as tábuas da Lei, entre elas, os 10 mandamentos. O povo ficou distante, com medo do Eterno; e enquanto esteve esperando, construiu um bezerro de ouro dizendo que ele era o responsável por ter libertado-os do Egito.

Por outro lado, “certo dia, quando Jesus viu que as multidões se ajuntavam, subiu a encosta do monte e ali sentou-se. Seus discípulos se reuniram ao redor, e ele começou a ensiná-los” (Mt 5:1).

Jesus subiu o monte com seus amigos e com uma multidão. Jesus subiu o monte acompanhado e, dessa vez, não para escrever sua lei em tábuas de pedras, mas para ensinar-nos, para escrevê-la em nossos corações, não como regras a serem seguidas, na tentativa de sermos aceitos diante do Eterno, mas como uma Palavra Viva, um Fôlego Divino, uma parte de si mesmo, que nos transforma de dentro para fora; que renova mente e coração, que nos faz novas criaturas.

O bezerro de ouro construído no ermo, na solidão, no isolamento, distante do coração do Eterno, foi substituído pelo Cordeiro Santo de carne e osso, e sangue, que se fez como um de nós, viveu entre nós, chorou como nós, dançou conosco, alegrou-se conosco, que sobe o monte caminhando junto conosco e nos ensina diretamente aos nossos corações.

Essa nova aliança não requer rituais, artefatos, práticas específicas, regras a serem seguidas; essa nova aliança é cumprida pelo próprio Deus.

Quando Jesus diz que não veio abolir a Lei de Moisés, mas cumpri-la, isso é mais profundo do que simplesmente dizer que Ele cumpriu os 613 mandamentos encontrados na Torá; Ele cumpriu o que era exigido para que fôssemos reconciliados com Seu Pai, para que fôssemos novamente um… um com nós mesmos, não mais fragmentados, e um com Ele.

Como Moisés, Ele subiu o monte, mas nos ensinou no coração.
Como Isaque, Ele subiu o monte carregando a madeira de seu sacrifício, mas não encontrou cordeiro substituto para seu sacrifício: Ele foi o Cordeiro Substituto do sacrifício de Isaque, e da nossa própria morte.

Jesus sobe o monte com seus discípulos e nos ensina como é o coração daqueles que O seguem.

Minha oração é que eu não caia na tentação de transformar o Sermão do Monte nos “10 Mandamentos” que por tanto tempo vivi, algo a ser executado para ser aceito diante do Eterno, mas que eu o entenda como um espelho, que mostra minha condição de discípulo, que me leva sempre a subir o monte com o Mestre, para ouvir sua doce voz ensinando ao meu coração; que me leva para junto de Si, não mais distante, não mais com medo, e que me recebe de braços abertos, como um Pai que aguarda ansiosamente pelo retorno de Seu filho para casa.

  • Gabriel Louback é formado em jornalismo, com especialização em Missiologia na escola Gå Ut Senteret (Noruega) e missionário na Itália. Gosta de ouvir histórias e de contar as que não são ouvidas.

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