Por Sarah Furtado

Esse ano finalmente li o clássico infantil O Pequeno Príncipe. Pode até ser que tenha lido na infância, mas minha memória traiçoeira não guardou recordações. Acho que até foi bom. Os livros e as palavras ganham novos sentidos à medida que amadurecemos, e não foi diferente desta vez.

O Pequeno Príncipe é uma criança que não cabe em si. Ele cria uma rosa com todo o carinho, mas tudo que recebe em troca é sarcasmo e espetos. Por isso, decide deixar seu planeta em busca de novidades. Mas, em cada planeta ou asteroide, a criança dourada se depara com realidades tristes e sem sentido.

Aos poucos, ele sente falta de casa, mas lembra da rosa e das dores que ela lhe causa e repensa. No entanto, ao encontrar-se com uma sábia raposa, ele recebe um conselho que muda sua vida: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”.

Spoiler – O Pequeno Príncipe volta ao seu planeta. Não porque ele era mais especial e correto que os outros, mas porque era onde a rosa estava. Ela, a rosa que o feriu e ele amava apesar.

“Apesar…. O amor é apesar”.

Essa frase desencaixou algumas coisas em mim.

Desde pequena sabia que havia um fogo aqui dentro, uma força intensa contra injustiças, um desejo de que todos conhecessem a Jesus. É claro que, à medida que cresci e amadureci, o conceito de “injustiça” mudou. E a verdade é que nesse intento de mudar as coisas me machuquei. Em parte, por quem queria ajudar, em parte por quem eu admirava que ajudasse os outros. E, assim como o Pequeno Príncipe, fui conhecer outros planetas em busca de novas experiências que trouxessem sentido àquilo que eu sentia.

Sim, porque essa queimação na boca do estômago ao ver situações de opressão e violência nunca desapareceu.

Assim como na história, encontrei realidades sem sentido incapazes de trazer significado a mim. Era um profundo sentimento de “não pertencimento”, desconexão. Mas, encontrei também sábias raposas capazes de me fazerem olhar ao meu objeto de amor e repensar tudo.

É por isso que digo que meu lugar no mundo é um “não lugar”. Meu lugar no mundo é um jeito de estar.

Não é raro conversar com amigas e amigos que não se sentem parte dos grandes grupos dominantes. Que discordam desses e daqueles. Que se sentem sozinhos e não sabem como agir para transformar realidades imersas na dor, no pecado, na violência e na opressão.

Nesse “não lugar” há solidão, mas há sabedoria. Há dúvidas, mas há temperança. Há dor, mas há Cristo. Esse “não lugar” nos chama a não nos apegarmos a onde estamos, mas ao que fazemos, quem somos. E mesmo quando feridos, amamos.

Meu ‘não’ lugar no mundo é serviço, doação, sacrifício. Porque meu lugar é aos pés da cruz. É logo atrás de Cristo. Seguindo seus passos e imitando seus movimentos.

Meu ‘não’ lugar no mundo é o “reino aqui agora, mas ainda não”. É essa sensação de estar e não estar. De viver esperançando. Plantando, colhendo, construindo o lar eterno.

Onde será nosso lugar, enfim.

 

  • Sarah Furtado, 28. Jornalista e entusiasta de política. Feita de ideias que cansou de guardar.
  1. Silvana Ribeiro Nobre

    Oi Sarah, adorei o seu texto. Tenho dois filhos, mais velhos que você. Já morei em 13 cidades, já trabalhei em 22 países, vivi 56 anos e dois casamentos. E é bem isso que sinto, apesar de amar tudo que vivi, amar todos os lugares lindos que morei e conheci, ter feito mil amigos e muitos irmãos, e ter sido muitíssimo feliz sempre, não me sinto pertencente a nenhum desses lugares. Vou repetir o que você disse porque compartilho com você o mesmo sentimento: “meu lugar no mundo é um “não lugar”. Meu lugar no mundo é um jeito de estar”. Sempre caminhando em direção a Jesus, vivendo o que Ele nos ensinou, caminhante nessa terra.

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