Por Helen Teixeira

Nossa geração fala muito sobre o amor a si mesmo, né? Quem aí nunca ouviu imperativos midiáticos de “ame a você mesmo”, “cultive amor próprio” ou “melhore sua autoestima”? Tudo nos leva a crer que o melhor que podemos fazer para uma vida plena é nos colocar em primeiro lugar. Criamos uma obsessão pelo eu. 

Essa valorização excessiva de nós mesmos pode nos levar a longas jornadas para dentro do nosso eu. Nesse percurso de introversão, nos acostumamos a fazer autoanálises intermináveis e sem um propósito prático. Entramos em um loop de narcisismo, que se autoalimenta e nos arrasta para as profundezas do nosso ego. E o que encontramos nessas profundezas, geralmente, nos assusta e deprime.

O problema é que lidar com essas questões interiores sozinhos o tempo todo é uma tarefa muito pesada, que nos absorve e nos prende a nós mesmos de um jeito sufocante. Guilherme de Carvalho explica esse tipo de introversão como “a tendência de uma consciência de focalizar seus próprios estados internos, para se proteger do sofrimento e afirmar sua existência”. Essa consciência tende a ficar ocupada com seus sentimentos, suas motivações e suas culpas. 

Nessa obsessão pela nossa vida interior, somos como narcisos, mergulhando no próprio umbigo e nos curvando em nós mesmos em busca de algo que nos preencha. Passamos a ser definidos pelos nossos sentimentos a nosso respeito, ou pelos sentimentos que a opinião dos outros nos causa. A autoestima se torna um tribunal ao qual voltamos todo dia, julgando a nós mesmos para sentenciar se somos aprovados ou não. Na minha experiência pessoal, posso dizer que esse padrão de introversão tem gerado grande ansiedade e um quadro depressivo às vezes insuportável.

Tim Keller nos diz em seu livrinho conciso, mas muito forte, “Ego transformado”, que tendemos a desenvolver um ego superinflado, inchado, sempre prestes a explodir. Nosso ego é vazio, oco, com muito espaço sobrando, o qual tentamos preencher com algo para nos dar um senso de valor e propósito. Ele também é dolorido, vive chamando atenção para si mesmo, se sentindo facilmente ofendido. O ego também é atarefado, frágil e insaciado. Ele faz de tudo para ser notado, se ocupa constantemente em se comparar com os outros para se sentir superior ou, com muita pena de si mesmo, se sentir inferior. Por isso, o autor argumenta, os complexos de superioridade ou de inferioridade são apenas dois lados de uma mesma moeda: o orgulho. 

Já reparou que, quanto mais orgulhosos somos, mais o orgulho dos outros nos incomoda? C. S. Lewis nos explica que nosso orgulho está sempre concorrendo com o das outras pessoas, por isso detestamos quando alguém nos inferioriza, ou se recusa a nos dar atenção, ou é exibido, ou condescendente. Lewis também nos diz que o orgulho é, talvez, o maior dos pecados: é o estado de mente completamente contrário a Deus. O orgulhoso se recusa a reconhecer sua dependência do Ser que o criou.

Qual é, então, a solução? Existe esperança para o coração orgulhoso e para o ego centrado em si mesmo? Qual é a saída para a depressão resultante da mente introvertida de Narciso? Para Lewis e Keller, a resposta é simples: o descanso bendito do autoesquecimento. “A humildade baseada no evangelho significa que não relaciono mais cada experiência e cada conversa à minha pessoa. Na verdade, deixo de pensar em mim mesmo. É a liberdade que vem do autoesquecimento”.

“Evangelho” é o nome que se dá à boa notícia de que o Deus criador de todo o universo, ao ver o estado de autodestruição ao qual nós, seres humanos, nos submetemos em desobediência a Ele, se compadeceu. Ele entrou na história (na pessoa de Jesus), no tempo-espaço que Ele mesmo criou. Jesus inaugurou o seu reino de amor e bondade e se sacrificou por nós, para que pudéssemos ser livres de nossos pecados e da culpa. Livres de nós mesmos. 

Existe algo fundamental sobre quem nós somos que só pode ser encontrado no interior do nosso relacionamento com Deus. Como Francis Schaeffer nos ensina, só conseguimos nos livrar do fardo pesado de nossa necessidade psicológica quando entendemos a estrutura da realidade no ponto de vista bíblico: somos criados por Deus, somos pecadores e somos alvo da graça e da obra substitutiva de Jesus Cristo na história (o famoso combo criação-queda-redenção, sabe?). Se tirarmos qualquer uma dessas três lentes, nossa visão de mundo e de nós mesmos ficará distorcida. O próprio Deus é o centro da nossa existência e o ponto de integração da nossa realidade.

Por isso, Deus nos diz quem somos: filhos amados que não precisam desempenhar nenhum papel ou entregar algum resultado para que sejam considerados importantes e valiosos. Não há mais nenhuma condenação para nós.  Por causa do que Deus mesmo fez por nós, no Cristo encarnado, já temos aceitação e uma identidade que não precisa de comparação com os outros. Podemos nos alegrar com o que somos e receber bem um elogio. Podemos, também, identificar nossas próprias maldades e pecados, receber críticas e contar com a ajuda de Deus para sermos cada dia melhores. Sabemos, contudo, que nenhuma dessas coisas nos define.

Schaeffer continua dizendo: “Para o cristão, status e confirmação não repousam sobre relacionamentos relativos a outros homens. Como cristão eu não preciso encontrar o meu valor no meu status, ou julgando-me melhor do que outras pessoas. Minha confirmação e meu status se encontram em estar perante o Deus que existe”. Não precisamos nos preocupar com o que os outros dizem, nem com o que nós mesmos dizemos a nosso respeito. Estamos diante de Deus e somos aceitos por Ele. E isso basta. 

Assim, podemos ser arrancados de dentro de nós mesmos, entendendo profundamente aquela verdade básica de que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo. Não nos abalamos por críticas nem somos bajulados por elogios. Temos consciência de nosso valor e de nosso pecado; de nossas virtudes e dos nossos vícios mais sujos, mas não atrelamos nossa identidade a nenhuma dessas coisas. Ao tirar o foco de nós mesmos, conseguimos viver essa extroversão que aponta para a realidade do mundo fora de nós. Conseguimos nos alegrar verdadeiramente com as conquistas dos outros, por exemplo, porque aprendemos a apreciar as coisas como elas são, sem olhá-las sempre em relação a nós.

A cura para a baixa autoestima depressiva, então, não é uma autoestima inflada que oscila entre “se achar” acima dos outros e se frustrar por não atingir as próprias expectativas altas demais. É, sim, um ego saciado, que encontrou propósito e sentido no Deus que é grande o suficiente para preencher seu vazio, e é capaz de ser verdadeiramente esquecido. 

Mas como praticar isso? Bom, como quase todas as lições importantes da vida, não existe um manual ou uma lista de passos fácil de ser feita. Lewis, inclusive, fala que a pessoa humilde de verdade não fica pensando sobre humildade. Na verdade, ela não está sequer pensando nela mesma. Keller fala que, “depois de conversarmos com alguém que tem a humildade do evangelho, o que nos impressiona é quanto essa pessoa se interessou por nós”. 

Ao que parece, o caminho para fora desse labirinto interno passa por não pensar em nós mesmos. Parece até um paradoxo: se pensarmos demais sobre nossa humildade, ficamos orgulhosos! A solução é paramos de olhar o mundo em relação a nós mesmos, mas em relação a Deus. Assim, saímos de padrões de comparação doentios e conseguimos nos interessar de verdade pelo outro. Paramos de ouvir nosso ego carente de atenção e ele para de nos incomodar.

Portanto, a não ser que você tenha um objetivo específico para se aventurar nas profundezas do seu labirinto interno, saia de si mesmo! Vá ouvir um amigo, servir sua comunidade, faça coisas só pela alegria de realizá-las. Ajude pessoas porque quer de fato ajudar – não para se sentir bem, nem para preencher o vazio. Não gaste energia se julgando o tempo todo. Em Cristo, seu julgamento já foi feito e está tudo bem. Deus assegura quem você é, e isso é suficiente.

  • Helen tem 24 anos e ama se conectar com pessoas e lugares. Está aprendendo a viver devagar enquanto percebe o caminho. Mineira morando em Campinas, faz parte da Igreja Presbiteriana Chácara Primavera.

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