Por Abraão Filipe

Sou uma pessoa cheia de defeitos, mais defeitos do que gostaria de admitir. Por mais que, algumas vezes, consiga (ou apenas tente) disfarçá-la , a fraqueza permanece sempre lá, expondo minhas incapacidades e me importunando. E, sim, isso é desesperador.

Tem certas leituras que nos dão um soco no estômago e nos colocam em situações bem desconfortáveis: é o caso de “Um novo dia” (Ultimato, 2019). A autora começa já na introdução com uma afirmação muito forte: “Quando me tornei cristã, me disseram que ‘tudo mudaria’. Mudou, mas não exatamente como eu esperava. Era para Jesus salvar minha vida. Era como se ele a tivesse arruinado. Eu ainda sofria”.

A partir daí, a norte-irlandesa Emma Scrivener propõe uma jornada. Como no Gênesis, o começo é de escuridão (são as velhas lutas, os dilemas, as escolhas que nos acorrentam). Depois, à meia-noite, as coisas pioram – é aqui que o Salvador entra em nosso sofrimento e começa a brilhar até as primeiras horas do dia. Após entrar na luz pela manhã, terminamos compartilhando a luz com os outros, unidos em comunidade de amor. Só acompanhar a trajetória desenhada pela autora, como se fosse uma viagem de um dia inteiro, já é libertador. Ela se levanta para mostrar que o leitor não está sozinho. Essa gente imperfeita está em todas as igrejas do mundo – afinal, assim são os cristãos: imperfeitos em santificação.

O título do livro veio do seu blog, “A New name” (Um novo nome, em português), criado para compartilhar os desafios enfrentados com transtornos alimentares e seus dramas na recuperação da anorexia. A leitura é fácil e a linguagem bem próxima de nós. O livro todo é marcado por relatos pessoais da própria autora e de frequentadores do seu blog, humanizando a obra. Todos ali enfrentam dilemas reais e recorrem às misericórdias do Senhor – como eu e você. Alguns depoimentos nos mostram como a cruz e a verdade da graça, sob a direção do Amigo Espírito Santo, podem ter o poder transformador de nos encorajar a buscar ajuda para abandonar muitas práticas autodestrutivas. Além disso, os boxes sobre os transtornos e comportamentos tóxicos que desenvolvemos são bastante informativos. Ela destaca a contribuição da ajuda profissional nesse processo e como as comunidades de fé podem atuar em áreas especificas.

Ao mesmo tempo, o livro é bem prático. Orações, dicas e conselhos espirituais se intercalam às verdades bíblicas e confrontadoras reflexões. A autora nos convida a fazer perguntas mais profundas: o que a Bíblia diz sobre o que eu sinto?

A sensação que fica é que Emma está descrevendo as nossas vidas e isso desarma o leitor. Percorrendo suas páginas, percebi que sou orgulhoso. Desses que têm medo de se mostrar vulneráveis. Desses que riem para todo mundo, mas engolem seco camelos inteiros, desprezando, às vezes, as próprias emoções. Ativista, mas reclamando constantemente de cansaço. Ocupado, mas com dificuldade para delegar. Descobri que, quando digo “sim” a tudo, me mantenho longe do verdadeiro chamado – por medo de parar e dar um passo adiante, satisfazendo o orgulho. Preocupações administráveis podem nos distrair de coisas mais importantes que não conseguimos magicamente resolver, como dor, tristeza, solidão, egoísmo, desconforto, doença ou morte.

Neste exato momento, todos os cristãos estão lutando contra algo. Todos estamos no mesmo barco, todos somos pecadores e estamos doentes. Podemos colocar a culpa de nossos medos em muitas outras coisas (finanças, redes sociais, política, violência, família, estudos, pessoas… enfim a lista é longa); mas há uma fonte mais profunda: a primeira reação de Adão e Eva foi o medo. É o momento em que o Pai vira um estranho. E assim, quando deixamos de confiar nele, o mundo se torna um lugar assustador.

Corremos de Deus e damos de cara com os problemas – o que só mostra o quanto somos dependentes. Deus nos fez perfeitos, nos fez para termos fome. Contudo, o rejeitamos e, após a queda, tentamos nos alimentar sozinhos, ficando vazios e insatisfeitos. Somente o amor do Pai pode matar nossa fome e lançar fora nossos desejos por outras coisas. Assim como precisamos de refeições regularmente, continuamos a voltar a Ele, e Ele nos preenche. “Todos os dias cairemos, mas todos os dias ele nos dará nova força”, pacientemente. Ansiedade, fome, controle, vergonha, ira e desespero não são pecados piores.

É verdade: nós não estamos dando conta. “Todos estamos com fome, duvidando da promessa de provisão de Deus. Todos estamos ansiosos, recusando-nos a descansar na proteção de Deus. Todos estamos desesperados por controle, não querendo que Deus governe”, diz ela.

Nós não somos autossuficientes. Somos “frustáveis”, incompletos, impotentes, finitos, contingentes, confusos e dependentes uns dos outros – por mais que não gostemos. Todos nós, no fundo, temos isso em comum: somos humanos.

Ao terminar o livro (já com lágrimas nos olhos), a conclusão renova nossa esperança e vivifica a confiança em um Deus bondoso com aqueles que sofrem. Emma escreve: “Jesus entra em nossa escuridão, mas não nos deixa lá, segurando uma tocha. Ele nos leva para uma família de luz. Então ele nos chama para brilhar! […] Não fingindo ser fortes, legais, espertos ou engraçados, mas sendo honestos e reais”.

O poder de Deus não mudou. É o mesmo. A Bíblia, porém, é direta: Deus age por meio de pessoas imperfeitas e com problemas. O poder dEle se aperfeiçoa mesmo é na nossa fraqueza. Interessante, para não dizer irônico, que um livro como esse tenha o título de “Um novo dia”. Nos lembrando que os processos da vida e as transformações pelas quais precisamos passar se dão dia após dia, um de cada vez. Se não deu certo ontem, nem hoje, podemos ficar tranquilos: amanhã é um novo dia!

  • Abraão Filipe, 19 anos. Natural de São Mateus (ES) e estudante de Jornalismo em terras mineiras, na Universidade Federal de Viçosa.

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