Por Gabriela Prillip

Esses dias terminei mais um livro do Brennan Maning. Durante uma parte da minha adolescência, ouvi falar muito do “Evangelho maltrapilho” e do “Impostor que vive em mim”, mas só os consegui ler alguns anos depois (mais conhecido como agora), e ainda bem.

Curti tanto, que esse último que li dele foi como uma “biografia”, o famoso “Deus te ama do jeito que você é e não como você deveria ser”, onde podemos acompanhar a fundo um pouco da vida desse ex-padre gente como a gente. Ele segue tão pessimista e verdadeiro quanto nunca e acho que é exatamente isso que me faz gostar de ler tanto seus livros (tanto que comprei mais um).

Gosto não do pessimismo em si, mas da verdade tão dura e necessária, que é ao mesmo tempo confortante, que ele carrega nas palavras. Me faz ver o evangelho com mais verdade e com mais aplicação na vida do dia-a-dia, como o quanto ele é real quando a vida tá um pouco ruim demais. 

Nunca fui a pessoa mais positiva do mundo e, por vezes, mesmo na adolescência, já conseguia perceber que o mundo não era algo tão bonitinho, fácil e mágico quanto a Disney e muitas pessoas tentaram me fazer acreditar. Pois é, até então o que tinha de mais positivo naquela época acho que era a Disney mesmo; ainda não tinha essa galera feliz do Instagram que quer fazer você acreditar que pode tudo o tempo todo e que, apenas querendo, sua vida pode ser incrível, perfeita e sem falhas. Sem contar quando falam que se você tem, é porque mereceu, né.

Mas essa reflexão de que uma vida real acompanhada do evangelho nem sempre é essa magia toda veio à tona um pouco depois dessa fase, mas antes do Brennan, enquanto estava numa viagem missionária na Ásia. Depois de dois dias em um carro pela encosta de algumas montanhas, chegamos perto da fronteira da China, numa pequena vila extremamente fria (pelo clima e pelas pessoas), tentando dormir numas cabanas de madeira e ferro que não tinham preparo pra esse frio e muitos furos, quando meu amigo que tem servido lá por algum tempo me diz “você acha mesmo que eu queria estar aqui?”.

Aquela palavra se transformou em dois punhos fechados que vieram diretamente pra boca do meu estômago. O tio da escolinha dominical de quando eu tinha 8 aninhos, das aulas que eu mais gostava, o cara que largou um doutorado na França pra ser missionário num país que não posso falar, mas que tá longe de qualquer coisa que lembre a França, por escolha, porque viu a necessidade daquele país, me falar uma dessas no meio de uma vila que nem no mapa está… Foi demais. Me fez ver como a vida do cristão, por si só, não é e nunca vai ser um mar de rosas mesmo, que nem o chamado de Deus facilita as coisas pra isso, e que assim como nosso chamado, nossa vida inteira é uma escolha diária, muito mais do que sentimentos.

Parei pra pensar em Paulo, também porque a gente passou grande parte desses dias por lá lendo Lucas e Atos. No novo testamento, em todas as vezes que o li, nunca vi Paulo se orgulhando dos seus feitos, ou por ser amado por Deus ou exaltar a vida e ter ela aqui como o bem mais feliz e precioso. Pelo contrário, ele só falava alegre ou com alguma esperança sobre Jesus e a obra que ele precisava fazer pelo reino, ainda que isso custasse tudo. A vida aqui era bem ruim pra ele na real. Sofrida. E isso depois de ter ouvido o chamado de Deus, obedecendo a voz Dele, sendo espancado por isso, passando uns perrengues em alto mar, escrevendo que quase morreu muitas vezes, mas escolhendo seguir, firme e forte. Linda a vida do cristão, né? Fora todas as outras histórias mais atuais de cristãos perseguidos e presos ao redor do mundo, ainda hoje, que a gente nem sabe. E claro, a gente tem um pouco de dificuldade de entender; essas pessoas não estão postando seus 50 stories sobre uma vida feliz, próspera e sem defeitos o tempo todo, né?

Assim como o Brennan, eu nunca vi na vida aqui um lugar muito feliz e perfeito, e achei consolo na Bíblia e nos testemunhos de alguns irmãos. E talvez por isso eu goste tanto assim dos livros do Manning, da Bíblia e dos meus amigos que vivem uma vida real e visceral com Deus, que me mostram que a vida aqui não é bonitinha e, na maior parte das vezes, ela vai ser horrível e cheia de dor, mesmo com Deus. E Ele nos encontra exatamente aí também.

A boa notícia é que o consolo não está em nada dessa Terra e sim em Jesus, que pela graça de Deus estende a mão tanto pra mim, pra você, quanto pra um assassino ou pra um padre alcoólatra, quanto pro cristão influencer ou pro rico ou pro pobre. É a tal da Graça comum que se estende a toda criação feita a imagem e semelhança de Deus, principalmente quando ela reconhece sua finitude, pequeno tamanho e que também é imperfeita e pecadora. Bem vindos, maltrapilhos!

Essa vida aqui vai mesmo ser cheia de muitas aflições, mas o espírito Santo de Deus é o único que pode nos consolar e fazer a gente se lembrar que Deus vai nos encontrar em qualquer profundo abismo que a gente chegar e que não importa o tamanho ou tempo da nossa sujeira: esse pai chama todos nós, filhos pródigos, pra um lindo banquete sempre que a gente se dispõe a voltar. Essa graça nos faz saber que Ele estende a mão pra qualquer pessoa com coração partido, desesperançoso e sonhos desfeitos. Nos lembra que a vida boa e perfeita só vem quando Ele voltar. Aqui não existe um traço de perfeição sequer. E é Ele apenas que basta e não as coisas materiais ou o que a gente acha que pode conquistar nessa vida.

Essa mão repleta de graça está estendida pra todos nós que já cansamos de lutar e resolvemos nos entregar de coração pra Ele e mais ainda: a aceitar esse amor e cuidado pra que seja vivido e não apenas falado. O evangelho é mais do que um objeto de estudo, é sobre poder de Deus e viver. Que a gente possa se desapegar das teorias, técnicas, planos pro futuro, e que possamos perder e entregar totalmente o controle de tudo o que somos nessas mãos de quem nos fez, que nunca soltaram a nossa vida, pra que assim a gente veja que é nessa vida visceral que esse poder é manifesto, no terreno mais comum, infértil e inoportuno.

A graça segue mandando seus recados todos os dias, só esperando o momento de te encontrar.

  • Gabriela Prillip, 25 anos. É marketeira, estudante de ciências do consumo, tentando lidar com a vida adulta escrevendo. Congrega no Projeto 242.

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