Por Guilherme Damasceno

Alegria e disposição para servir são sinais de um coração jovem que não teme o futuro e ousa sonhar. Li com atenção os recentes artigos que relatam o êxodo dos jovens cristãos, condensados pelo Instituto LifeWay Research nos Estados Unidos. O texto “Porque e quando os jovens saem da igreja“, publicado aqui em Ultimato Jovem, demonstra a necessidade de repensarmos  o “modus operandi” da Igreja na formação e acolhimento de pessoas na faixa etária dos 23 aos 30 anos.

Penso que precisamos tratar com seriedade a questão, a fim de trabalharmos para diminuição da evasão da juventude, claro, confiando na Graça de Deus que é o Senhor e Sustentador do seu povo, e, portanto, nos convoca ao seu serviço (Lucas 10:2).

Os motivos pelos quais os jovens se distanciam da igreja ficam evidentes:

1) Evasão no início dos estudos universitários ou na inserção no mercado de trabalho;
2) A percepção da hipocrisia;
3) Falta de união entre as pessoas da comunidade cristã;
4) Posições políticas divergentes;

5) A irrelevância da Igreja e/ou do Pastor em seu contexto local.

Pois bem, em primeiro lugar devemos considerar que alguns destes problemas seguem uma lógica de idealização e de perfeição das instituições e dos processos, como no exemplo da já mencionada hipocrisia. O que aprendi trabalhando com jovens de diferentes realidades e contextos sociais, foi que para ganhar a confiança do trabalho que desenvolvemos precisamos ser totalmente transparentes. Transparência é a palavra de ordem em nosso país e não poderia ser diferente nas relações entre os cristãos.

“Grandes líderes são líderes transparentes. As grandes mudanças ocorrem quando os líderes são transparentes. Se os membros da igreja estão percebendo que existe retenção de informação, o processo de mudança já está correndo risco. Vivemos na era da transparência da Internet. A informação está na ponta dos dedos. Todos esperam estar totalmente informados. A mudança pode ser sequestrada em poucos dias, caso haja a suspeita de que a liderança não está divulgando todas as informações. Embora a divulgação seja vital para todas as gerações, é especialmente importante para a geração do milênio. Esses jovens adultos, nascidos entre 1980 e 2000, são muito sensíveis à questão da transparência. Se você for franco e aberto, eles estarão com você durante o processo de mudança. Caso contrário, sairão imediatamente.” – Thom S. Rainer em “Quem Trocou o Meu Púlpito?” (CPAD, p 104, 105).

Se desejarmos transformar as realidades, expandir nossos trabalhos,  enfatizar a compatibilidade do crescimento qualitativo e potencializarmos um crescimento saudável de nossos ministérios, precisamos e devemos ser transparentes em todos os sentidos.

Devemos demonstrar que os ordenados e também os leigos são gente, sujeitos em busca de cada dia se tornarem mais semelhantes com Jesus, nesse caminho comentem erros, e portanto precisam ter humildade para corrigir desvios e equívocos. O que não significa que deverão viverem reféns de opiniões particulares que contrariam ensinamentos bíblicos para agradar ou ceder a pressões embasadas em opiniões sectárias.

Outro ponto importante se traduz no respeito e tolerância entre aqueles que optaram por posições políticas diferentes. As Igrejas (denominações ou as comunidades autônomas) precisam ter clareza da opção que desejam assumir, garantindo a liberdade de todos e todas optarem de livre consciência qual caminham desejam seguir, sempre pautadas nos valores do Evangelho, que expressam o projeto do Reino de Deus.

Com isso não quero dizer que pautas não devem ser defendias ou combatidas, como o combate ao racismo, o repúdio à violência doméstica, e ações concretas tomadas para efetividade destes posicionamentos, mas nenhum membro pode ser constrangido ao apoio a um partido ou sistema político por imposição oficial da Igreja, afinal somos cristãos protestantes, todos e todas jamais poderão ser cerceados do direito de emitir opiniões. Unidade na diversidade!

O vislumbre que ocorre no acesso ao ensino superior pode, entre muitos fatores, também pode estar relacionado a subestimação da capacidade intelectual da juventude. Em muitas igrejas os eventos e programações voltados ao público se assemelham à hora do recreio no parquinho. Conteúdo raso, desconfiguração do espaço e tempo de adoração e edificação, ênfase no entretenimento e não no fortalecimento da fé.

Um dos elementos mais surpreendentes ao trabalhar com jovens é justamente descobrir o ímpeto e desejo que têm em adquirir novos conhecimentos, acompanhado do desejo de testemunhar a fé cristã em espaços públicos.

Não é preciso alterar e/ou modificar a teologia ou liturgia (conteúdo), precisamos apoiar e incentivar a exposição coerente, o debate e a reflexão em torno de temas atuais, sem temer as pautas “delicadas”. Nesse sentido também, o primeiro emprego e a rotina de trabalho, por vezes desgastantes, poderão se  tornar um espaço para oportunidades missionais, quando recuperamos o sentindo que o protestantismo histórico delegou, e assim a vocação cristã será exercida pelo jovem profissional visando sempre a glória de Deus.

O elemento da comunhão é um pilar por vezes menosprezado, todavia num pastorado de proximidade, o modelo que se demostra o mais eficiente para Ministério com Jovens, é importantíssimo. Com isso afirmo meu repúdio ao policiamento da vida de qualquer pessoa, e à instrumentalização do líder ou pastor como uma bengala para que o jovem caminhe se apoiando, sem a maturidade necessária para tomada de decisões, assumindo sua responsabilidade individual.

Precisamos nos lembrar do pastorado de Jesus, que partiu e comeu do mesmo pão que seus discípulos, ouviu os dramas do cotidiano e conviveu oferecendo o suporte e apoio necessários para a formação da comunidade (Lucas 24.13-35).

A relevância da Igreja e seu testemunho na sociedade é objeto de interlocução e construção do corpo de Cristo. Compreenderemos que a coragem para transformar é uma força que nasce na confiança da ação criativa e criadora do Espírito Santo, alterando uma realidade de dispersão.

“Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” Atos 2.46-47.

Deste modo faço um convite à Igreja: Ore pela Juventude, apoie seus projetos, invista nas novas gerações. Para que nossos ministérios sejam reconhecidos com os traços de acolhimento, relevância, engajamento e transformação.

Não desistiremos, Cristo é nossa esperança.

  • Guilherme Damasceno, 22. Teólogo pela Universidade Metodista de São Paulo, cursando Psicologia na UNICID. Líder do Ministério Catedral Jovem na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo.

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