Jetro Coutinho tem 27 anos, é casado com Ana Elen e trabalha como auditor federal de controle externo no Tribunal de Contas da União (TCU) desde os 22 anos. Sua atribuição é fiscalizar os recursos públicos federais e verificar se eles têm dado resultado. Ele costuma dizer que foi vocacionado por Deus para combater a corrupção. Aqui você lê a versão completa da entrevista publicada na seção Altos Papos da edição 374 da revista Ultimato:

 

Qual é sua ocupação/profissão? Você se sente vocacionado para o que faz?

Eu gosto de dizer que sou escravo de Cristo. Estou servindo a Deus no Tribunal de Contas da União (TCU). Basicamente, minha atribuição é fiscalizar os recursos públicos federais e verificar se eles têm dado resultado. O objetivo é coletar evidências, fazer avaliações de programas e propor alternativas. Além disso, se descoberto que um gasto público tenha se dado de forma contrária à lei, buscamos o ressarcimento do dinheiro público, lutando contra a corrupção. Sinto que sou vocacionado.  Tenho convicção de que estou onde estou pela graça de Deus e para a glória Dele.

 

Como você descobriu/reconheceu a área em que gostaria de atuar?

Eu estava no meu quarto lendo a Bíblia e o texto de Tiago 4.17 me chamou a atenção. Estava bem na época de um escândalo gigantesco de corrupção e Deus falou comigo que eu deveria fazer alguma coisa a respeito. Eu só não sabia como, nem quando. Sete anos depois descobri onde deveria estar.

 

Como se manter motivado e focado em meio aos desafios diários e as cobranças internas e externas?

Deus nos deu uma missão. Essa missão é viver para a glória Dele Então, acredito que a chave seria tirar o foco da gente e focar mais em Deus, a missão não é minha, preciso prosseguir. Trata-se de uma renúncia diária à preguiça e ao desânimo. O senso de missão e vocação deve vir primeiro.

 

Para você o que representa ser tão jovem e estar envolvido em um cargo como este? 

Representa a graça de Deus. Tanto na orientação, na preparação, nas milhares de horas de estudo para estar aqui, quanto no exercício da função. O fato de ser jovem é uma vantagem, pois as pessoas não esperam muita coisa de você. Quando você é vocacionado é Deus trabalhando por meio de você, o que faz com que as pessoas se surpreendam com seu trabalho e reconsiderem a imagem que elas têm de você. Mas tudo é graça de Deus. Não tenho mérito nenhum nisso.

 

É possível buscar sucesso profissional e reconhecimento sem se envaidecer? Como você lida com isso?

Sim, plenamente possível. Mas aqui, cabe uma distinção entre o sucesso segundo o mundo e segundo a Bíblia. Segundo o mundo, sucesso é medido pelo quanto você ganha, quanto poder você tem e pelo quão famoso você é.  Sucesso segundo a Bíblia é: se arrepender dos pecados, ser salvo por Cristo, viver para Ele e perseverar até o fim. Quanto mais eu subir na hierarquia mais responsabilidade tenho e, portanto, isso não é motivo de soberba, mas oportunidade de exercer minha vocação para glória de Deus. O valor não está em nós, está no sacrifício que Cristo fez por nós. Essa verdade bíblica coloca as coisas em perspectiva.

 

Quais os principais desafios em servir a Deus onde você trabalha? 

Ser justo nas posições é o maior desafio. Outro desafio relevante é influenciar positivamente. Estou aqui por um motivo e há autoridades com as quais mantenho contato. Não posso me omitir e, sempre que a oportunidade surgir, preciso influenciar positivamente. Fico frequentemente me perguntando onde e como posso ser mais relevante para o reino de Deus. Não há tempo a perder.

 

Você considera um grande desafio conciliar trabalho, estudos, família, igreja e vida devocional? Como não se perder no meio disso tudo? 

Sim, um baita desafio! Precisamos entender não há separação entre vida secular e vida espiritual. Nós vivemos uma vida só e, para nós, cristãos, essa vida é a vida de Cristo. Considerando isso, temos o princípio da mordomia cristã, ele estabelece que Deus outorga bens, recursos, aptidões ao homem e que nós devemos bem cuidar daquilo que Ele nos dá. Um dos recursos é o tempo. E nós, como cristãos, precisamos aprender a cuidar melhor de nosso tempo, priorizando as coisas importantes e investindo tempo nelas.

 

Quais dicas e conselhos você daria pra alguém que está com dúvidas quanto à vocação? Que motivação devemos ter diante das nossas escolhas?

O primeiro passo é perguntar Àquele que te vocaciona. É Deus quem chama e é Ele quem designa. Portanto, buscar a Deus em oração e na leitura da Bíblia é a base para o exercício da vocação. Eu tive a graça de ter percebido a minha muito cedo, mas nem sempre Deus revela a vocação quando queremos. Outro conselho é observar seus dons e talentos. Suas preferências têm a ver com o propósito para o qual Deus te criou. O último conselho é conversar com seus pais e com seus líderes.

 

Como os jovens podem lutar contra a corrupção no Brasil hoje?

O primeiro passo é entender que a corrupção que vem da natureza pecaminosa do homem. É um problema espiritual, e só o Senhor Jesus Cristo pode sanar problemas espirituais. Precisamos entender que o combate à corrupção se dá na esfera pública e privada, mas principalmente na espiritual. Se o jovem seguir os princípios bíblicos e não se corromper já estará fazendo diferença. Outra forma de luta é o combate na esfera pública, denunciando ações de governantes ou de empresários que contrariam as leis aos órgãos competentes. Há também diversas ONGs que fiscalizam o dinheiro público. Se envolver com uma delas também é ser relevante para enfrentar esse problema.

 

Que conselhos você gostaria de dar aos jovens que desejam se envolver na área política?   

Que pautem suas decisões de acordo com a palavra de Deus. Precisamos de jovens que estejam mergulhados na política, mas sem se beneficiar do que ela pode dar, de pessoas que saibam dizer não e agir de forma diferente. E também que estudem muito, se preparem, vivam de acordo com a palavra de Deus, sejam sempre transparentes e peçam a Deus sabedoria para as diversas decisões.

 

Você acredita que os cristãos, em geral, têm uma percepção correta quanto ao envolvimento na vida pública (política, cidadania etc.)?

Acredito que não. A maioria apenas entende que a vida de cristão se resume a ir à igreja. Na realidade, somos chamados a influenciar todas as áreas da vida pública: governos e leis, trabalho, ciência, economia, meio ambiente.

 

A igreja precisa demonstrar mais preocupação com a corrupção no setor público e privado? 

Sim. Principalmente na denúncia desses atos. A igreja não pode ser apenas mais uma instituição que compactue com o que vem acontecendo no nosso país. Assim como João Batista, que foi à presença do rei Herodes para denunciar o pecado deste, precisamos denunciar os pecados dos governantes e orar por eles.

 

Você gostaria de deixar uma mensagem para as pessoas neste período pós-eleições?

Acho que neste período de eleições a coisa mais difícil é deixarmos nossas emoções, opiniões e preconceitos de lado e nos orientarmos pelo que a Bíblia diz que o Governo deve fazer (Romanos 13) e votar de acordo. Nenhuma corrente política consegue capturar perfeitamente o pensamento bíblico. Nosso voto, portanto, não deve ser baseado na ideologia política, mas sim de acordo com o que as disposições bíblicas nos orientam.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>