natalie-collins-unsplashPor Levi Agreste

“Então disse: ‘Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se’. Contudo, Deus lhe disse: ‘Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?’” (Lucas 12:18-20)

Acordou cedo, embora não houvesse razão. Seus olhos simplesmente não se cerravam. Não estava devidamente preocupado ou ansioso – o que, por sua vez, deixava-o preocupado e ansioso. Ao lado, dormia profundamente uma bela loura de olhos castanhos. Lembrava que ela lhe havia dito seu sobrenome, mas não o conseguia lembrar. Percebia agora, também, que roncava: um leve som suíno, nada encantador.

Vestiu o roupão e iniciou os ritos de preparo do café: armário, xícara, pires, prato, copo, mesa. Gaveta, colher, faca. Pó de café, pão, requeijão. Água, pó de café, cafeteira. Pão, torradeira. Enquanto ouvia os gemidos do café, ligou a televisão.

“Menino de dez anos é morto, vítima de bala perdida em uma das comunidades do complexo da Maré”. Pensava agora na reunião que teria assim que chegasse amanhã ao trabalho. Clientes exigentes – precisava apresentar os resultados da maneira mais contagiante possível.

“Indústria automobilística prepara plano de demissão voluntária com meta de três mil desligamentos”. O celular tocou, lembrando-lhe que deveria agendar a revisão do conversível ainda esta semana. Olhou em direção à garagem, admirando a coleção que tanto demorara a conquistar.

“Escolas públicas paulistas são forçadas a fechar as portas por falta de água”. A cafeteira soou. O pão na torradeira pulou. Preparou a mesa e sentou-se. Olhou para a comida de modo ponderado. O café cheirava-lhe a tédio. Pegou o prato e a xícara, derramou o líquido na pia e a torrada no cesto de lixo. Não estava com tanta fome assim.

***

O celular despertou, embora ainda não houvesse luz invadindo a cortina furada. “Este horário de verão…”, pensava enquanto calçava o sapato. A esposa nunca conseguiu se acostumar com seus movimentos matutinos e abriu os olhos de relance, murmurando algo. “O quê?”, perguntou o homem, “Não entendi”. “Disse bom dia”. É óbvio que havia dito bom dia, fazia-o todas as manhãs. Riu de si mesmo por fazer uma pergunta tão estúpida. “Do que está rindo?”. O bom negro inclinou-se e beijou a mulher nos lábios. Cheirava a amaciante. “Estava rindo de você”.

Quando saía do quarto, percebeu a mulher levantando. “Não, fica! Você não precisa trabalhar hoje”. “Vou preparar seu café”, respondeu a boa negra. Observava seus quadris enquanto ela abria os armários à procura do pó de café. Retirou de um deles o último recipiente. “Temos pouco. Acho que não dá nem para uma xícara”. “Não tem problema”. Esperou pacientemente o café ser coado e, sem perceber, soltou uma oração, agradecendo pela vida que tinha. A esposa serviu-lhe o café ralo e esperou que ele o tomasse. “É o melhor que já tomei”. Beijou a esposa e saiu para o trabalho.

 

  • Levi Agreste, 24 anos, graduado em Letras pela Unicamp, leciona em três escolas da região metropolitana de Campinas, faz parte da coordenação da ONG Soprar e escreve no blog umanovaviagem.

Foto: Natalie Collins/Unsplash

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