UltJovem14_03_16_o_quarto de jackPor Amanda Almeida

Se você ainda não tem um forte motivo para assistir “O Quarto de Jack” (2015), aqui vai um: Jacob Tremblay. Brie Larson interpreta Joy Newsome, garota sequestrada que tem seu filho no cativeiro, e merecidamente recebeu um Oscar por sua atuação, mas quem rouba a cena é o garoto, que do alto de seus 9 anos nos entrega um Jack fascinante. Ainda mais consideradas as circunstâncias.

Tudo o que Jack conhece é o quarto no qual a mãe foi mantida desde o sequestro. O Quarto. As tomadas iniciais do filme, com frames de detalhes dos elementos presentes no quarto, marcam a noção de que aquela é toda a realidade deles. Detalhes que passariam despercebidos, insignificantes para nós, mas já memorizados em incontáveis dias os tendo como companhia. Assim, o que faria mais sentido do que Jack oferecer um bom dia à pia e ao guarda-roupa?

É o contraste dessa inocência infantil de Jack com a crueldade das circunstâncias que traz certa leveza à história. Com um olhar mais sensível aos temas teológicos, a imaginação do garoto e sua visão do mundo ao redor pode nos fazer perceber o tanto que ainda nos falta “ser como criança”. O roteiro, adaptado por Emma Donoghue a partir do livro, também escrito por ela, é sempre consistente, mas as narrações de Jack, marcando os atos do filme, merecem atenção especial.

No quarto, as cores que um dia foram vivas e brilhantes, já não são mais. Seria quase um insulto. Mas Jack conseguia fazer do local mais que um quarto: é onde tudo é familiar, onde ele se sente seguro. A iluminação incandescente e quase aconchegante do quarto em contraste com a fluorescente e fria dos ambientes de fora traduzem imageticamente esse sentimento.

Com um roteiro focado na visão inocente da criança, é preciso que a direção de Lenny Abrahamson seja eficiente em utilizar a linguagem cinematográfica para trazer à tela as noções nem sempre verbalizadas. E ela majoritariamente é. Com posicionamentos e movimentos de câmera eficientes, inicialmente Jack parece mais enclausurado fora do quarto do que jamais foi lá dentro. O uso de toucas e óculos de sol é até caricato, mas a dificuldade no simples ato de descer escadas, do qual ele era privado, é bastante real.

O contraste (de confronto e adaptação) com o mundo trazem à tona os traumas da mãe de Jack, que por mais que já habituada à realidade fora no quarto, não é imune aos choques. Muito pelo contrário. O sequestrador, que à primeira vista não parece nada mais que um trabalhador comum, serve à divergência de quando as coisas parecem estar bem, mas na verdade estão o mais longe disso possível.

“O Quarto de Jack” perde um pouco ao não aprofundar nesses aspectos da narrativa, mas ganha muito, muito mais ao privilegiar a perspectiva de Jack. Não sei o que Donoghue e Abrahamson diriam se lhes perguntassem sobre o que é essa história, qual é o tema do filme. Espero que as respostas sejam em torno de ser sobre lar e pertencimento, sobre nosso lugar seguro no mundo.

Em “O Grande Abismo”, um livro também baseado em contrastes, C.S. Lewis argumenta que “Se insistimos em conservar o Inferno (ou mesmo a Terra) não veremos o Céu; se quisermos o Céu, não guardaremos a menor, nem a mais familiar recordação do que seja o Inferno”. Em meio a um dos cenários mais cruéis que se possa imaginar, o que Jack faz senão escolher o Céu?

“Penso que se for escolhida a Terra em vez do Céu, ela irá mostrar ter sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno; e a Terra, se colocada em sujeição ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu”. Quando vivemos fazendo da realidade das coisas do alto o nosso lar, as experimentamos desde aqui. Lewis e Jack teriam sido bons amigos.

“Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus” (Mt 18:3). Às vezes o que nos falta é mesmo ser como criança. De preferência, uma tão adorável como Jack.

• Amanda Almeida tem 22 anos e é recém-formada em Comunicação Social pela UFMG. Sua monografia tratou de jornalismo cultural, arte e cristianismo. Amanda escreve para o blog Ultimato Jovem sobre cinema.

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