É o Jesus da história, do cristianismo, da Bíblia, do Natal. Será também o seu Jesus?

A pergunta é geral. Ora são os escribas e fariseus reunidos em Cafarnaum: “Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados senão só Deus?” (Lc 5.21). Ora são os que estavam com Ele à mesa na casa de Simão: “Quem é este que até perdoa pecados?” (Lc 7.49). Ora são os próprios discípulos em pleno mar da Galileia: “Quem é este que até os ventos e às ondas repreende, e lhe obedecem?” (Lc 8.25). Ora é o supersticioso Herodes: “Quem é este a respeito do qual tenho ouvido tais coisas?” (Lc 9.9). Ora é a alvoroçada cidade de Jerusalém no domingo de ramos: “Quem é este?” (Mt 21.10). Ninguém sabe exatamente quem é Ele, quais as suas reais dimensões, porque falava e agia de maneira tão incomum. O pior é que Ele mesmo indaga: “Quem diz o povo ser o Filho do homem?” (Mt 16.13). E, quando os discípulos tentam reproduzir a opinião corrente, aquele estranho volta-se para eles e pergunta: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?” (V. 15). Depois, Ele teve a coragem de interpelar até os próprios fariseus: “Que pensais vós do Cristo?” e fazer-lhes a significativa pergunta: “De quem é Filho?” (Mt 22.42).

A reposta confusa

Há muitas respostas para a pergunta do povo “Quem é Este?” e para a pergunta de Jesus “Quem eu sou?”. A versão mais insistente diz que Ele é João Batista. Um verdadeiro absurdo! Pois João era contemporâneo de Jesus e foi quem o batizou. O tetrarca Herodes pensa desta maneira e não hesita em declarar que Jesus é João Batista decapitado e ressurgido dos mortos e, por isso, “nele operam forças miraculosas” (Mt 14.2)… Outros fazem ligações com o arrebatamento de Elias, ocorrido há quase um milênio (2Rs 2.9-18) e afirmam, sem sombra de dúvida, que Jesus é Elias que apareceu (Lc 9.8). Mas há quem prefira dizer que Jesus é Jeremias ou um dos antigos profetas que ressuscitou (Lc 9.8). As respostas são confusas e fantásticas.

Além disto, dizem-se coisas temerárias a respeito daquele que chegava ao ponto de perdoar pecados, como se fosse Deus, e de acalmar a tempestade do lago, como se Ele conhecesse os segredos da criação e dela tivesse participado. “Ele tem demônio”, explicam os judeus (Jo 8.52). “Nós sabemos que esse homem é pecador”, afirmam os fariseus (Jo 9.24). “Ele engana o povo” e é embusteiro, garantem os sacerdotes (Jo 7.12 e Mt 27.63). Só porque Jesus anda sobre a superfície líquida do mar, lá pelas três horas da madrugada, em direção ao barco, os próprios discípulos o desconhecem e gritam: “É um fantasma!” (Mt 14.26). E Maria Madalena, na manhã da ressureição, comete a gafe de confundir Jesus com jardineiro de José de Arimatéia (Jo 20.14-16).

A resposta correta

Foi Pedro, num de seus repentes, quem deu, em síntese, a resposta exata: “Tu és o Cristo o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). Jesus, então replica: “Você é feliz, Simão, filho de João! Porque esta verdade não foi dada a você por nenhum ser humano, mas veio diretamente do meu Pai que está no céu” (Pedro veria a confirmação de suas palavras poucos dias depois, na cena da transfiguração, ao ouvir a voz que dizia, a respeito de Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo – a ele ouvi”.)

Na verdade, o modo de agir de Jesus Cristo encontra a única explicação naquilo que Ele é. Jesus se comporta naturalmente. Ele se apresenta como o “filho do homem” e o “filho de Deus”. É o verbo que no princípio era, que estava com Deus, que era Deus, que formou todas as coisas e que, agora, se faz carne e habita entre os homens, cheio de graça e verdade (Jo 1.1-14). É Emanuel, que quer dizer: Deus conosco (Mt 1.23). É a imagem do Deus invisível (Cl 1.15) e o resplendor da glória e a expressão exata de Deus (Hb 1.3). É o próprio Deus, pois Ele explicou a Filipe: “Quem me vê a mim, vê o Pai” (Jo 14.9) e deixou suficientemente claro aos judeus: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30).É ainda “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), o único Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), a propiciação pelos pecados do mundo inteiro (1Jo 2.1). É aquele que desceu para buscar e salvar o perdido (Lc 19.10) e que só voltou a assentar-se à direita da Majestade nas alturas depois de ter feito a purificação dos pecados (Hb 1.3). Este é o Jesus da História, o Jesus do Cristianismo, o Jesus da Bíblia, o Jesus do Natal. Será também o seu Jesus?

 

Artigo publicado originalmente na edição de novembro de 1974 de Ultimato.

 

Imagem: Wikimedia.
Saiba mais:
>> Os Últimos Dias de Jesus -O que de fato aconteceu?, N.T. Wright e Craig A. Evans
>> O mistério da Páscoa, Carlos Caldas

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