O homem reto, disse um menino da roça com simplicidade e sabedoria, “é aquele que anda na linha”

Enquanto “o pecado é qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou qualquer transgressão dessa lei”, a retidão é exatamente o oposto – a conformidade com a lei, a mente e a vontade de Deus, expressas em sua Palavra. “O caminho dos retos é desviar-se do mal” (Pv 16.17). O homem reto, disse um menino da roça com simplicidade e sabedoria, “é aquele que anda na linha”.

 

A exigência de Deus

Textos como o Salmo 15, Isaías 1 e Miqueias 6 mostram a retidão que Deus exige. A força desta exigência acha-se nas palavras: “Sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44). A discrepância entre Deus e o homem terá que ser corrigida alterando a parte que falhou. Deus não pode deixar de ser santo só para fazer desaparecer esta divergência moral. Mas o homem é tentado a encobrir a escassez de sua retidão com abundância de cerimônias religiosas. Por esta razão, Miqueias pergunta: “Agradar-se- á o Senhor de milhares de carneiros? De dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão? O fruto do meu corpo pelo pecado de minha alma?” (6.7). Por meio de Isaías, Deus manda parar com as expressões de culto cada vez mais frequentes e cada vez menos suportáveis, e põe diante do povo a solução que se impõe. “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos: cessai de fazer o mal” (1.16).

 

“Fez o que era reto”

Na biografia dos reis de Judá e Israel, quase sempre se diz que o monarca fez o que era reto perante o Senhor ou que ele fez o que era mau perante o Senhor. Mas há detalhes curiosos. Por exemplo, de Davi se diz que ele fez o que era reto perante o Senhor, “e não se desviou de tudo quanto lhe ordenara em todos os dias de sua vida, senão só no caso de Urias, o heteu” (1Rs 15.5). De Amazias, afirma-se que ele fez o que era reto, “ainda que não como seu pai Davi” (2Rs 14.3). E de Joás, registra-se que ele fez o que era reto “todos os dias em que o sacerdote Joiada o dirigia” (2Rs 12.2). De Jó, porém, apesar de seu infortúnio e de suas crises de ânimo, não há restrição alguma: o homem da terra de Uz era íntegro e reto, temente a Deus e se desviava do mal (Jó 1.1,8 e 2.3).

 

É difícil

Viver em retidão não é comum nem fácil. Primeiro, porque a natureza do homem está corrompida. “Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.9). O pecado se associa ao homem ainda no ventre materno: “Eu nasci na iniquidade e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). A propensão pecaminosa é alguma coisa orgânica: “No tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus, mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros” (Rm 7.22,23). Segundo, porque o meio é adverso e hostil à retidão. “O mundo inteiro jaz no maligno” (1Jo 5.19). A influência do meio é quase ditatorial e muitas vezes assimilada inconscientemente. Terceiro, porque a nossa luta é “contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). Em última análise, há um ser extraterrestre, de índole devastadora, que exerce certo domínio sobre o homem. Satanás levou Adão à queda, tentou a Jesus no deserto e é descrito como o adversário que anda em derredor do homem, “como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8). 

 

A retidão imputada

A Bíblia ensina que só pela graça de Cristo, sem qualquer mérito pessoal, o homem pode, pela fé, apropriar-se legalmente da justiça ou retidão de Jesus. Paulo traça um paralelo entre Adão e Jesus Cristo: “Pela desobediência de um só homem (Adão) muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só (Jesus) muitos se tornarão justos” (Rm 5.19). Maravilha das maravilhas – a retidão que por esforço o pecador jamais conseguiu obter, é, agora, atribuída a ele porque se coloca em Cristo. Trata-se, obviamente, de uma retidão importada, que vem de Deus, que é recebida como um presente, e tem por base o sacrifício de Jesus. Esta é a história de como Deus, por amor, levanta o homem falido, desanimado e apertado pela lei. Todavia, esta retidão em Cristo não provoca relaxamento moral nos crentes. Ao contrário, encoraja-o e fornece-lhe meios de graça para tornar o procedimento cada vez mais próximo de sua posição legal diante de Deus. O pecador justificado por meio da fé não está isento de admoestações deste teor: “ Não reine o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros de seu corpo ao pecado como instrumentos de iniquidade, mas oferecei-vos a Deus como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus como instrumentos de justiça” (Rm 6.12,13).

Artigo publicado originalmente na edição de novembro de 1975 de Ultimato.

 

Imagem: Unsplash.
Saiba mais:
>> O Caminho do Coração – Meditações Diárias, Ricardo Barbosa de Sousa
>> O princípio da sabedoria, Daniel Ramos Côrtes

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