Consciência e coragem
A decisão por Cristo será sua. É intransferível. Por intermédio dela você se torna discípulo de Jesus e membro de seu corpo
Definição
Definir significa expor com precisão qual é o ponto de vista, o credo, a posição. Muitos não se definem para agradar este e aquele, para não se comprometer. O povo gosta de exigir uma definição política de seus candidatos e governantes. Em geral o discurso de posse de uma autoridade é uma definição. D. Pedro II, com 30 anos, 15 depois da maioridade, em 1855, definiu-se sobre a colonização do Brasil: “Meu governo empenha-se com particular interesse na tarefa de promover a colonização, da qual depende essencialmente o futuro do país”.
O cristianismo exige de nós uma definição. Elias, 900 anos antes de Cristo, reuniu o povo no monte Carmelo e reclamou deles: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o” (1Re 18.21). Coxear aí quer dizer: até quando andareis com dificuldade por não saberdes o que fazer? Jesus perguntou aos apóstolos: “Quem diz o povo ser o Filho do homem?” Eles responderam: “Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias, ou algum dos profetas.” Mas vós, continuou Jesus, “quem dizeis que eu sou?” Pedro deu a definição certa que Jesus queria ouvir: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.13-20).
Você precisa fazer sua definição por Cristo, com base nas palavras dele. Terá que ser coerente, honesta, corajosa e resoluta. Cada afirmação do chamado Credo Apostólico é o resumo de uma das principais doutrinas do cristianismo. Você será um cristão, pelo menos intelectualmente, se puder tornar suas cada uma destas afirmações. A definição é o ponto de partida.
Decisão
Decidir quer dizer resolver-se, tomar uma resolução. É mais do que definir-se, pois surge não só a aceitação de um fato, mas ainda a dedicação incondicional a essa verdade. Em certa cidade de Minas há um homem e uma mulher que estão noivos há 20 anos. Deve ter havido a definição (“é com você que eu quero me casar”) mas não houve a decisão (“vamos realizar nosso casamento hoje?”) A independência do Brasil foi conseguida sem sangue por força de uma decisão firme: “Independência ou morte!”
Se Elias exigiu de Israel uma definição, Josué, muitos anos antes, após a partilha da terra de Canaã, solicitou deles uma reafirmação da decisão de servir ao Senhor: “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam dalém do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais”. O sucessor de Moisés logo lhes antecipou por sua própria decisão: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.14-28).
A Bíblia registra decisões espetaculares. Rute, a moabita, declarou à sogra: “Não me instes para que te deixe, e me obrigue a não seguir-te; porque aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pousares, pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rt 1.16). O filho pródigo não ficou apenas na fase que antecede a decisão, mas “levantando-se foi para seu pai” (Lc 19.14-24). Zaqueu disse a Jesus: “Senhor, resolvo (presente do indicativo) dar aos pobres a metade dos meus bens”. A decisão foi tão genuína e forte que Jesus afirmou: “Hoje houve salvação nesta casa” (Lc 19.1-10).
Conta-nos Lucas que Jesus “dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). O convite era dirigido a todos, mas a decisão de segui-lo teria que ser pessoal. A decisão por Cristo será sua. É intransferível. Por intermédio dela você se torna discípulo de Jesus e membro de seu corpo.
Declaração
Declarar é afirmar em voz alta diante do público ou de testemunhas, é anunciar solene e oficialmente, é confessar diante dos homens. Quem não se definiu nem se decidiu não pode fazer declaração. Não tem meios. Faltar-lhe-á a matéria prima. Quando os ideais republicanos tomaram conta do país, o que se fez para sair do regime monárquico foi simplesmente proclamar ou declarar a República. Diz-se que um país declara guerra ao outro. A partir daí a luta é renhida.
Jesus requer isso de seus discípulos: “Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus” (Mt 10.32-33). Paulo explica que a fé nasce no coração, mas é necessário que ela se exteriorize por meio de palavras. (Rm 10.10) Os discípulos são a luz do mundo e o sal da terra: luz no velador para alumiar e sal não insípido para salgar. Pedro chega a dizer que “sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus para proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9).
O cirurgião que primeiramente usou o clorofórmio em um parto, James Y. Simpson (1811-1870), era crente sincero e humilde. Numa ocasião fizeram uma festa em sua honra, com a presença de personalidades ilustres do mundo inteiro. Ao fim da sessão principal, Dr. Simpson se levantou para agradecer as demonstrações de estima e para anunciar uma descoberta que havia feito, maior do que aquela relacionada com o clorofórmio. Entre a admiração e expectativa do auditório, disse: “Descobri na Bíblia que eu era um pecador, que tinha necessidade de um salvador, e descobri, em Jesus Cristo, o Salvador, cujo sangue me purificou dos meus pecados e cuja graça me perdoou.” Isso é declaração.
Artigo publicado originalmente na edição de dezembro de 1971 de Ultimato.
Imagem: Unsplash.
Leia mais:
>> A Pessoa Mais Importante do Mundo, Elben César
>> Estudos bíblicos: Série Conversando Sobre a Fé
>> A coragem de uma vida simples, Raquel Bastos
>> Coragem é para os que têm medo, Klênia Fassoni