O despertar do Senhor
Um reavivamento da religião envolve terá que afetar o comportamento e a capacidade de amar, entre outras coisas
A oração de Habacuque – “Aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos” (3.2) – tem sido a súplica de muita gente hoje. Este avivamento da obra do Senhor torna-se necessário para compensar os desgastes, para corrigir os desvios, para dar alento ao cansado, para revigorar o entusiasmo, para aproximar o crente da esperança, prestes a sucumbir, para soltar o poder que leva o homem a vencer o pecado e as circunstâncias, para retornar a alegria do cristianismo, para realizar a comunhão da alma humana com o Deus Conosco, para chamar a atenção do mundo para o Deus que age, para distribuir capacidade e discernimento ao homem deste final de século. Mas este despertar, para ser do Senhor, não será mesquinho nem se baseará apenas em emoções, não ser tornará em instrumento para projeção pessoal, não se inclinará para o misticismo inoperante e perigoso, não permitirá a intromissão de elementos supersticiosos, não sacrificará a Palavra de Deus, não enfatizará aspectos bastante secundários, não fará uma abertura incondicional qualquer influência desde que há espíritos que não procedem do Senhor (1Jo 4.1) não suportará o juízo temerário, não se transformará em ninho de heresias futuras, não se responsabilizará pelo desenvolvimento do fanatismo religioso, não acabará tristemente em nada, não trairá a confiança e a esperança dos fiéis.
Um reavivamento da religião envolve vários aspectos. Não se processa numa área só. Terá que afetar o comportamento e a capacidade de amar, entre outras coisas.
Comportamento
É preciso haver uma mudança: de crente carnal para crente espiritual. Não há mistério nisso. As palavras dizem tudo. O carnal é o que anda de acordo com a sua natureza pecaminosa ou terrena. Ele produz as obras da carne: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções, invejas, bebedices, glutonarias, e outras coisas semelhantes a estas” (Gl 5.19-21).
Esta bem cuidada relação deve ser examinada, palavra por palavra. As pessoas de formação mais livre, mais ousada, verão que prostituição, impureza e lascívia são obras da carne: as de formação mais conservadora, mais pudica, verão, talvez com surpresa, que inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções e invejas são também obras da carne. O crente espiritual é aquele que faz morrer continuamente a sua natureza terrena, que nega a si mesmo (nos seus desejos carnais), que carrega a cruz de Cristo, que se despoja da ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena, etc, e se reveste de hábitos novos, virtudes novas, desejos novos, relações novas, de acordo com o ensino de Paulo aos Colossenses (3.1-4.6). Controlado pelo Espírito, andando no Espírito, cheio do Espírito, aquele que é espiritual não satisfaz à concupiscência da carne e colhe o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longevidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (Gl 5.16-26). A mudança há de começar com uma abertura da parte do homem, que será também a resposta à influência do Espírito: “os que se inclinam para o Espírito, cogitam das coisas do Espírito” (Rm 8.5).
Capacidade de amar
Não há despertamento se o amor permanece ausente nas relações humanas. O amor é a base de tudo, até da redenção do homem, da encarnação do Verbo. O egoísmo é a base de qualquer pecado. A aparência externa de amor não substitui o amor: “Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará” (1Co 13.3).
As qualidades de zelo, atividade, ortodoxia e fidelidade não inocentam a Igreja daquilo que H.E. Alexander chama de apostasia do coração: “Tenho contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4). Além de não inocentar, a quebra ou o abandono do amor degenera o cuidado pela pureza doutrinária em rancor contra os que divergem, a tal ponto que a igreja de Éfeso é exortado a descobrir onde, como e quando começou a cair, arrepender-se e voltar atrás, à prática do primeiro amor, do qual Paulo, anos antes, se admirara (Ef 1.15). A falta de amor na Igreja de Deus deixa os homens livres para a vaidade, a vingança, a prepotência, a suspeita, a amargura, e abre as portas para o revide, a luta, a revolta, o escândalo. Uma visitação especial de Deus quebraria este círculo vicioso e se chegaria à conclusão de que “toda fraqueza e decadência na Igreja têm por motivo inicial a falta que se exprime nas palavras: ‘abandonaste o teu primeiro amor’” (James Ingleby). Afinal, toda a lei e os profetas dependem dos dois mandamentos do amor: amar a Deus de todo o coração e o próximo como a si mesmo (Mt 22.34-40).
Artigo publicado originalmente na edição de agosto de 1975 de Ultimato.