Por Elben César

“A morte subiu pelas nossas janelas, e entrou em nossos palácios; exterminou das ruas as crianças, e os jovens das praças” (Jr 9.21)

A morte persegue
A morte não tem sentimentos. É cruel. Ela vai atrás dos recém-nascidos, das crianças, dos jovens, dos adultos e dos velhos. Penetra nas favelas e nos condomínios fechados. Entra nos barracos e nas coberturas. Colhe homens e mulheres. Não respeita os chefes de estado, as moças bonitas, os atletas nem os cientistas. Não envia aviso prévio para ninguém. Surge de supetão, doa a quem doer. É sempre campeã. É vaidosa e prepotente. Gosta de ser notícia. Por culpa da morte, o primeiro livro da Bíblia, que narra a criação e a beleza dos céus e da terra, termina com uma nota fúnebre: “Morreu José com cento e dez anos, embalsamaram-no e o puseram num caixão no Egito” (Gn 50.26).

A morte foge
A morte é tão sem elegância que desaparece do cenário quando alguém, por qualquer motivo pessoal, passa a desejá-la. É isto que se lê em Apocalipse: “Naqueles dias os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente desejo de morrer, mas a morte foge deles” (9.6). É um poço de contradição: quando não se quer a morte por perto, ela se aproxima; quando não se quer a morte à distância, ela se afasta. É a vontade de morrer que estimula a eutanásia. Por causa de uma doença prolongada, de um escândalo que vem à tona, de uma humilhação insuportável, do tédio em sua forma mais aguda, da perda de um ente muito querido, da ausência de paz interior e de paz com Deus ou por causa de uma crise emocional de fundo doentio. Ora, a eutanásia nada mais é do que ir ao encontro da morte. Exatamente nessa hora, nesse estado de espírito e nessa circunstância – a morte foge.

A morte morre
Quem disse que a morte é campeã invicta? Ela é apenas a vencedora de muitas batalhas, de Adão até Moisés (Rm 5.14), de Moisés até Paulo, de Paulo até Agostinho, de Agostinho até Lutero, de Lutero até Wesley, de Wesley até os dias de hoje, de hoje até amanhã, mas não de amanhã até depois de amanhã. Depois de amanhã, “ao ressoar da última trombeta”, a morte vai morrer. É verdade. Está escrito. Está prometido. Está garantido. Aquela pálida e distante promessa contida nas profecias de Isaías vai transbordar: “Tragará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos” (Is 25.8).

Aquela perguntinha maldosa, arrogante, destemida que aparece na profecia de Oseias vai se transformar num grito de libertação: “Onde estão, ó morte, as tuas pragas?” (Os 13.14). Paulo foi muito feliz ao colocar lado a lado o texto de Isaías e o texto de Oseias, como se vê no mais famoso capítulo da Bíblia sobre a morte da morte: “Quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15.54-55).

Se Gênesis termina com um “caixão no Egito”, a Bíblia inteira termina com a vitória de Jesus sobre a vitória da morte. Essa vitória precisa ser enxergada desde hoje. Enxergada e antegozada!

 

Publicado originalmente na seção “Abertura” da edição 383 (Maio-Junho 2020) de Ultimato.

 

 

A edição de Setembro/Outubro é uma conversa sobre a morte e quem somos nós diante dela. Como disse Salomão, há mais sabedoria na casa onde há luto do que na casa onde há festa. No final das contas, falar sobre a morte é ensino para a vida, sobre si, sobre Deus.

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