O maior sucesso da memória é não esquecer de Deus.

 
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Chama-se esquecimento a perda parcial daquilo que está retido na memória. Pode ser um bem, como pode ser um mal. Pode trazer prejuízo, como pode trazer benefício. Pode ser defeito, como pode ser virtude. Depende do que se esquece. Por esta razão, é necessário aprender ambas as técnicas: tanto a de esquecer como a de lembrar. Este duplo exercício exige ampla e livre disponibilidade. Disponibilidade para deixar escapar algumas lembranças, e disponibilidade para reter outras, sempre de acordo com a conveniência mais alta. O controle da memória pode ser difícil, mas não é impossível. Depende primeiramente da vontade. Faz-se por meio de exercícios. Há exercícios próprios para memorizar e exercícios próprios para esquecer.

 

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O maior sucesso da memória é não esquecer de Deus. Este esquecimento ocorre muitas vezes, especialmente em ocasião de fartura: “Quando tinham pasto eles se fartaram e uma vez fartos ensoberbeceu-se-lhes o coração; por isso se esqueceram de mim” (Os 13.6). O não esquecimento de Deus deve começar cedo: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer.” (Ec 12.1). É preciso acabar com este esquecimento ilógico e altamente destruidor de felizes iniciativas: “Por acaso a moça se esquece das suas joias? Por acaso a noiva se esquece do seu vestido de casamento? Mas o meu povo já há muitos anos se esqueceu de mim – que era o seu maior tesouro!” (Jr 2.32).

 

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Não é possível esquecer também do compromisso assumido com Deus, em resposta ao clamor da alma sedenta e o clamor do Espírito. Quando o homem se encontra verdadeiramente com Deus, faz-se um pacto entre ambos e distribuem-se obrigações. As de Deus nunca são esquecidas, relaxadas ou relegadas a segundo plano. O mesmo não se pode dizer do homem. Com incrível frequência, ele se esquece de suas responsabilidades, muito embora haja uma cláusula com esta advertência: “Guardai-vos, não vos esqueçais da aliança do Senhor vosso Deus, feita convosco” (Dt 4.22). Desta quebra de trato por parte do homem, Deus se queixa constantemente: “Na verdade, a terra está contaminada por causa dos seus moradores, porquanto transgridem as leis, violam os estatutos, e quebram a aliança eterna” (Is 24.5).

 

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Outra coisa da qual não conseguimos esquecer em hipótese alguma é da colheita pós-semeadura. É certo que o homem colhe o que planta: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). Esta lei é implacável e válida tanto para a semeadura na carne quanto para a semeadura no Espírito: “O que semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna” (Gl 6.8). O esquecimento da colheita pós-semeadura pode ocasionar desânimo e imobilidade ao que semeia não na carne, mas no Espírito. O esquecimento da colheita pós semeadura pode ocasionar arrogância e desobediência ao que semeia não no Espírito, mas na carne. Desta lembrança não se pode apartar o homem.

 

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Entre as coisas que devem permanecer no esquecimento encontra-se o pecado confessado, abandonado e definitivamente perdoado por Deus. O comportamento diferente deste acarreta consequências muito desagradáveis e rouba o valor terapêutico da expiação realizada por Jesus Cristo. Se Paulo se lembrasse constantemente de seu passado anticristão, da tortura que infringiu a homens e mulheres, da morte de Estêvão, da caça aos cristãos até no exterior, da perseguição ao próprio Jesus, ele não teria paz de espírito. O apóstolo, no entanto, conhecia a técnica do esquecimento saudável: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.13-14). Em casos assim, não há substituto para o esquecimento.

 

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A maior parte dos problemas que o homem enfrenta tem as suas raízes em alguma experiência já vivida. Quase sempre traumática, esta experiência precisa ser localizada, entendida, superada e abandonada. Para tanto, são necessárias ambas as técnicas de lembrar e de esquecer. A terapia começa com o exercício do esquecimento. O esquecimento ajuda a aceitação de uma situação de fato, de algo realmente irreversível, de alguma coisa que não pode ser mudada. Um pouco de aceitação, por sua vez, já ajuda o esquecimento. A Bíblia deplora a murmuração, e exalta a gratidão e o louvor devido a Deus. Desta maneira, ela sugere o controle da memória, exercício capaz de gerar saúde psíquica e bem-estar emocional.

 

Texto originalmente publicado na edição de novembro de 1982 de Ultimato, na seção “Quadro de avisos”.

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