A comida já acabou. Tereza recolhe os pratos e os põe no jirau. A lenha empreteceu o bule que está com água pra preparar o cafezinho que o esposo, seu Romano, costuma tomar sempre depois do almoço. Junto com ele, as filhas e os genros continuam à mesa contando as presepadas que os curumins e as cunhantãs aprontaram no dia anterior, na beira do igarapé. O cheiro do café parece que foi longe. Logo se aproxima da casa seu Luzio – dono do caminhão que veio trazer o time de futebol da comunidade vizinha para participar do campeonato. Antigo conhecido da família, passa pra dentro sem cerimônia, puxa o banco e aceita a xícara de café que dona Tereza oferece. Enquanto o organismo faz a digestão e o jogo não começa, o compadre Luzio começa a contar seus causos e histórias de suas viagens, das pescas e caçadas na madrugada, e aquelas histórias da Cruviana, só pra meter medo nos curumins. Ao olhar atento da meninada e entre uma xícara e outra de café, o compadre emenda uma história na outra. Dona Tereza deixa a louça esperando no jirau e senta para ouvir as histórias do compadre. Mas é quando ele conta as piadas que o incomum acontece: consegue até arrancar um sorriso tímido do rosto carrancudo do velho Romano.

Seja no sertão nordestino ou no interior da Amazônia, cenas como essas ao redor da mesa são comuns. E não são só as crianças que ficam atentas às narrativas. Pessoas de todas as idades gostam de ouvir e contar boas histórias, sempre regadas a um cafezinho feito na hora, de preferência. As histórias são diversas, desde aquelas que habitam o imaginário popular àquelas verídicas, das atividades do dia-a-dia, que sempre ganham elementos surpresas na boca de um bom contador de histórias.

Jesus devia ser um desses cabras bons de contar histórias, talvez o melhor que já existiu. Não era à atoa que as multidões o seguiam e ou ouviam tão atenciosamente. Além dos milagres que realiza, ele também ensinava as pessoas, quase sempre por meio histórias e parábolas. Afinal, sua própria cultura, baseada na oralidade, valoriza as histórias e as inúmeras intervenções de Deus nessas histórias.

Durante o mês de agosto, queremos contar boas histórias no Portal Ultimato Online. E aqui no blog Paralelo 10 temos um espaço reservado às histórias de gente do norte e nordeste. Tem alguma história interessante para contar? Escreve pra gente: phelipe.reis@ultimato.com.br. Estamos aguardando.

Por Maria Rossy

Rio Mamuru, Amazonas.

Eu O vi, em cada esquina de árvore, em cada formato de nuvem, em cada horizonte…

Eu O vi na beleza das águas, nas risadas entre os amigos, na beleza da Sua santidade…

Eu O vi no descanso da minh’alma, no louvor que saia dos meus lábios, na paz que brotava do meu coração e excedia o meu entendimento…

Eu O vi no sabor de uma comida gostosa, no pulo em um rio, nos ipês lilás das árvores, nas pontas de praias no meio do rio Mamuru…

Eu O vi na proteção de dias tranquilos, no sustento da alma, na calmaria do silêncio…

Eu O vi. Eu O vi em mim, eu O vi nele, e nós nos olhamos e eu soube, mais um vez: eu sou do meu amado e o meu amado é meu.

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Texto baseado em S. Lucas 7:41-42

Por Jénerson Alves
Doutor, o senhor pergunta
Porque vivo satisfeito,
Eu me acordo cantando,
Sorrio quando me deito,
No tempo bom, estou bem,
No mau, tou do mesmo jeito.Não é que eu seja um sujeito
Que não passe por problemas,
Também padeço sequelas,
Também enfrento dilemas,
Porém a paz me liberta
Das mais terríveis algemas.

Sabe por que sou assim?
Eu irei lhe explicar.
Porém para fazer isso
Uma história eu vou contar
E o senhor vai me entender
Depois que me escutar.

Era uma vez dois senhores
Que deviam a um banqueiro.
A dívida de um dos tais
Era de meio milheiro,
Pra ele poder pagar
Era grande o desespero.

Que para quitar a dívida
E acabar todos seus danos,
Era preciso privar-se
De janta, de almoço e planos,
E juntar todo o salário
Durante quase dois anos.

Já do outro devedor
Era menor a quantia:
Devia cinquenta pratas,
Mas as pratas que devia
Não tinha como pagar,
E era grande a agonia.

O banqueiro, vendo tudo,
Com compaixão se dispôs,
Em vez de propor querela,
Misericórdia propôs:
Chamou os dois, perdoou,
Rasgou a dívida dos dois.

Mas o perdão que ele deu
Teve pesos desiguais,
O que devia cinquenta
Ficou feliz por demais,
Mas quem devia quinhentos
Alegrou-se muito mais!

Perdidos, os dois estavam,
Mas um ‘tava mais perdido…
Esta história para mim
Possui um grande sentido:
Quem é muito perdoado,
Fica mais agradecido.

Doutor, eu sou este homem!
Devia meio milheiro,
Mas não era nem de ouro,
De prata, nem de dinheiro…
Minha dívida era o pecado,
Que me punha em cativeiro!

Fui germe cambaleante
Que arrastava em lama fria,
Coração cheio de crime,
De paz a alma vazia,
E nem os olhos da cara
Pagavam o que eu devia.

Mas Jesus de Nazaré
Me ofereceu Seu perdão,
E com as Suas benditas
Palavras de salvação
Tirou um fardo de peso
Que eu tinha no coração.

É por isto que eu O amo,
E O sigo em Sua cruz.
Do Seu trono vem a glória
Que me protege e conduz.
E só quem andou no escuro
Conhece o valor da luz.

Ao entregar-se ao Calvário,
Jesus Cristo, o Salvador,
Se tornou ao mesmo tempo
A vítima e o vencedor,
Pois venceu a minha morte
E foi vítima da minha dor.

Ele, o Dono da Ciência,
Do Saber tem apogeu,
Morreu por todos, salvando
Pecadores como eu,
Por isso que agora eu vivo
Para Quem por mim morreu.

Já entendeu, seu doutor,
Por que me sinto tão bem?
Se o senhor se entregar
Ao Messias de Belém,
Vai ser feliz como eu sou,
Vai ser liberto também.

Quem recebe a luz de Cristo
Ouve um anjo bater palma,
Encontra água pro pote,
Pro aperreio encontra calma,
Alívio pro coração
E descanso para a alma.

Rute Poquiviqui, vice-secretária da Missão Indígena Uniedas

A missão Indígena Uniedas e o Centro de Treinamento Canaã promovem o I Encontro Evangélico de Mulheres Indígenas da Região Norte. Com o tema “Restaurando a Visão da Mulher Cristã”, o evento acontece entre os dias 11 e 13 de agosto, com o apoio da Missão Emanuel do Brasil.

Reproduzimos a seguir alguns trechos da entrevista que a vice-secretária da Uniedas, Rute Poquiviqui, concedeu à Tearfund. Além de falar das principais lutas das mulheres indígenas para terem seu ministério e liderança reconhecidos, ela também compartilhou conquistas vivenciadas nos últimos anos. Vale a pena conferir!

Sobre mulheres cristãs indígenas como referenciais

“A minha iniciação cristã começou em casa, pelo esforço da minha mãe em conduzir seus sete filhos no Caminho. Ela sempre nos falou dos ensinamentos bíblicos e o quanto devemos amar a Deus, sendo então o primeiro exemplo na minha vida de mulher cristã. Quando vamos crescendo, nosso mundo também vai ampliando e conhecendo outras pessoas e nesse caminhar elas vão acrescentando suas experiências à nossa vida. Outra que posso falar é a missionária Queila França, da Uniedas. Ela foi para o campo e está há mais de 20 anos entre os índios da etnia Aikanã (RO). Ela desbravou a mata para levar o Evangelho. A cada relato seu, das inúmeras dificuldades que enfrenta por lá, permanece fiel ao propósito de estar ao dispor do Senhor. Louvo a Deus pela vida dela e das outras missionárias que estão no campo. Poderia relatar outra mulher cristã não indígena? Sim, porém, voltaria ao início da conversa, onde não há relatos sobre a atuação da mulher cristã indígena, pelo fato de nós não falarmos de nós e sim dos outros. Mas quero aqui contemplar em lembrança uma mulher indígena, Enir Bezerra da Silva (in memoriam) que foi líder e desbravou a mata de pedra para ajudar os parentes indígenas a conseguirem uma moradia digna quando vieram para a cidade em busca de oportunidades. Ela fundou a primeira aldeia em contexto urbano do Brasil.”

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Por Siméa Meldrum

A experiência da Paróquia Anglicana Água Viva, em Olinda, PE, começou em 1991 com o projeto Deus é Verde, envolvendo principalmente os jovens da comunidade. A partir do projeto, conhecemos a comunidade que morava dentro do lixão da cidade e que se tornou famosa quando, em 1994, os jornais internacionais explodiram com matérias sobre o lixo hospitalar que estava sendo despejado a céu aberto naquela região, fazendo saber que pessoas se alimentavam de restos cirúrgicos pensando que eram carne bovina.

Quando Deus age com justiça, deixa muito claro que é ele quem está agindo para não haver dúvida de que pode ser apenas uma ação humana. Em função do furo jornalístico internacional sobre a família que comeu mama humana no lixão de Olinda, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) realizou uma pesquisa nacional e levantou que no Brasil existiam 5 mil lixões a céu aberto, sem nenhuma administração pública, nas mesmas condições do lixão de Olinda e todos habitados por pessoas que dividiam sua dormida e comida com ratos, baratas e urubus.

Estas pessoas estavam desumanizadas e sem perspectivas de futuro e melhorias. Muitos dos moradores do lixão não tinham documentos e achavam que nunca precisariam deles. Eles se contentavam com seu barraco feito de lixo e seu trabalho duro debaixo do sol de 40 graus. Sofriam, mas não conheciam outro tipo de vida. Comiam os restos que encontravam nos materiais trazidos pelos caminhões. Catavam papel, latas, plásticos e vendiam ao único atravessador que dominava aquela comunidade. Ele reinava sobre ela controlando o tráfico e as vendas e promovendo “benefícios” para manter o povo dominado. As crianças, quando chegavam aos 10 anos, tinham a virgindade vendida ou trocada por um pedaço de terra para fazer um barraco num lugar melhor.

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Photo by Belle Maluf on Unsplash

Mais de 17 milhões de crianças e jovens se encontram em situação de pobreza no Brasil – 40,2% da população de zero a 14 anos. De acordo com as informações, divulgadas em um relatório da Fundação Abrinq, os maiores índices de crianças e adolescentes em situação de pobreza de concentram nas regiões Norte (54%) e Nordeste (60,6%).

Em números absolutos, o Nordeste abriga mais de 8 milhões de crianças e adolescentes em situação de pobreza. Já a região Norte, que possui pouco mais de 2,5 milhões, é superada pelo Sudeste, que tem mais de 4,5 milhões de crianças e adolescentes em condição de pobreza familiar.

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Por Héber Negrão

O livro “Desafios da Liderança Cristã”, publicado pela Editora Ultimato em 2016, apresenta uma série de exposições de John Stott na conferência da International Fellowship of Evangelical Students (IFES) em Quito, Equador no ano de 1985. A partir das orientações de Stott, apresento a seguir cinco dicas que podem ser aplicadas à realidade de pastores, missionários e líderes que desenvolvem trabalho nas regiões norte e nordeste do Brasil.

1 – Contextualize e não desanime com o véu que cega o entendimento das pessoas

Existem no Brasil 121 etnias indígenas pouco ou não evangelizadas (DAI/AMTB) | Foto: Eliseu Júnior

O primeiro problema que o autor aborda é a questão do desânimo que pode levar o líder à uma perda de visão e de entusiasmo para o trabalho. Em sua exposição de 2 Coríntios 4 ele destaca as várias vezes em que Paulo diz “não desanimamos”. Segundo o texto as causas desse desânimo são a cegueira espiritual e a fraqueza do próprio corpo. O “véu”, termo usado por Paulo para fazer referência à esta cegueira espiritual, é algo imposto por outrem impede que os ouvintes de Paulo compreendam a mensagem do Evangelho.

Ao trabalhar em comunidades ribeirinhas, vilas sertanejas ou aldeias indígenas o obreiro cristão necessariamente vai precisar lançar mão da contextualização do Evangelho, conhecendo a cultura onde trabalha de modo a apresentar uma mensagem relevante e que faça sentido para a cosmovisão de seu público. Entretanto, não importa o esforço feito para que isso aconteça, sempre haverá o véu cegando o entendimento dos incrédulos. Stott transcreve bem o desespero que muitos de nós enfrentamos quando isso acontece: “expomos o evangelho com clareza, mas as pessoas não podem compreendê-lo. Nós esmiuçamos de forma tão simples que pensamos que até mesmo uma criança poderia compreendê-lo, mas elas não o entendem (…). Duvido que haja algo mais desanimador do que isso para o obreiro cristão.” (p.16).

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