Por Phelipe Reis e Eunice Bueno

Amazônia: uma região tão grande, tão heterogênea, tão complexa e que carrega as marcas de um histórico de subdesenvolvimento, representado pela ausência de políticas públicas que proporcionem dignidade, qualidade de vida e possibilidade de desenvolvimento das potencialidades da região e dos povos que nela habitam.

Na Amazônia, as paisagens são belas. Elas, porém, não amenizam as dificuldades que as famílias ribeirinhas enfrentam. O cultivo da malva é o que traz para algumas famílias um pouco de dinheiro, mas pelas dificuldades de escoamento, ficam sujeitos a uma oferta muito baixa. Também não é um cultivo fácil, já que a malva cresce em regiões de alagamento e a sua colheita se torna muito difícil e insalubre. Muitos já quiseram deixar o cultivo, mas ainda não têm outros meios de sobrevivência.

É na ausência de políticas públicas para suprir necessidades básicas que a igreja de Jesus encontra oportunidades para se fazer presente e mostrar o evangelho de forma prática entre as mais de 10 mil comunidades ribeirinhas da Amazônia. Desde 2013, a organização Asas de Socorro atende a comunidade São José do Araras, no interior do estado do Amazonas, levando equipes compostas por pessoas de diferentes igrejas e cidades do país. Já são sete anos de serviço à comunidade, que abriga cerca de 215 famílias. Para chegar lá é preciso uma viagem de barco com duração de até 20 horas, partindo de Manaus, capital amazonense. Nas próximas linhas, Eunice Bueno, gerente da base de Asas em Manaus, conta um pouco da história, dos laços, das amizades e dos frutos do trabalho desenvolvido na comunidade.

 

A primeira viagem

Era 2013. Em março conhecemos a comunidade e em abril já fomos com a primeira equipe. Não vou esquecer a primeira viagem. Voamos para uma comunidade chamada Araras, certos de que encontraríamos o pastor Paulo, da Igreja Assembleia de Deus. Ao chegar lá, descer do avião e subir o barranco, procuramos pelo pastor, mas ninguém o conhecia por lá. Depois de uma breve investigação, entendemos que existiam duas comunidades do Araras e estávamos na comunidade errada. Depois conseguimos chegar a nosso verdadeiro local de destino: São José do Araras.

Alguns fatos da primeira viagem me marcam até hoje. Lembro que fomos procurados por alguns representantes da comunidade: o pastor da igreja Batista, o pastor da igreja Deus é Amor, o representante da igreja Assembleia de Deus, o coordenador da igreja Católica e o gestor da escola. Quando perguntamos o que eles queriam, o professor Márcio tomou a palavra e disse: “Nós queríamos saber se seria possível Asas de Socorro fazer um polo permanente aqui na nossa comunidade. Durante seis meses do ano ficamos isolados, quando o rio seca. Quase nunca vem um médico em nossa comunidade. Fica praticamente impossível prestar socorro para alguém com problemas de saúde.”

Noutra ocasião, ao sair de uma das salas de aula, a funcionária da limpeza disse para nós: “Era tão bom se essas oficinas acontecessem sempre, quem sabe assim os curumins (crianças) pegavam gosto pela escola. Eles faltam muito e quase não tem incentivo”. Durante os cinco dias em que estivemos na comunidade, as crianças foram dispensadas mais cedo da escola todos os dias por falta de merenda.

 

Os laços e os afetos

Ainda na primeira viagem, ao se despedir da equipe, dona Mariulza me fez chorar, quando falou, emocionada: “Não sei se vocês vão voltar, mas eu vou ficar aqui a esperar. Já estou com saudades. Nunca fomos tratados assim, com tanto carinho e amizade.” As crianças grudaram nas moças e rapazes e até nos últimos minutos procuravam dar as mãos como que para segurar-lhes mais um pouquinho.

No retorno, todos da equipe estávamos com o coração cheio de emoções misturadas, impactados pelas experiências vividas, pelos encontros de alma com pessoas que aprendemos a amar, felizes por termos doado um pouquinho dos nossos dias e horas e deixado um pouquinho de nós e do amor de Deus.

 

O evangelho na prática

Nosso primeiro projeto foi na área de saúde, com atendimento médico e odontológico. Realizamos diversas capacitações em saúde: Capacitação de Agentes Comunitários de Saúde; Socorro Emergencial; Saúde Bucal com escolares; Capacitação para Agentes da Água; Oficinas de Saúde aos comunitários: Saúde da Mulher, Criança e Homem; e fomentamos a criação de um comitê comunitário de saúde.

Na área de água e meio ambiente, foram várias iniciativas e ações desenvolvidas: Projeto Água Limpa, iniciando com coleta e análise da água; oferta, implantação e monitoramento de filtros em lugares de acesso mais crítico; oficinas de meio ambiente; oficina de sobrevivência na selva; projeto de estímulo ao plantio agroflorestal; e projeto de cuidado com o lago.

No campo das artes, estimulamos e contribuímos para a formação do Projeto Arte na Floresta – uma escola de artes que está em fase de implantação, para fomentar os talentos existentes na comunidade.

Na área de educação e proteção da criança, realizamos capacitações em metodologias lúdicas, como “Educando com Êxito” e “Capacitação na metodologia Claves”, além do Programa continuado do Claves para crianças de 4 a 6 anos, oficinas para crianças, jovens e adolescentes sobre temas como: Cuidados com o seu corpo, Prevenção às Drogas e Álcool, Sexualidade Saudável (incluindo o tema de DST/AIDS).

Também promovemos ações voltadas para a liderança: capacitação em desenvolvimento comunitário, mobilização de grupos, formação de associação; oficinas de gestão participativa; gestão administrativa e financeira.

Atualmente, seguimos dando assessoramento a associação de moradores, capacitação do UMOJA para lideranças das igrejas, e na viagem mais recente levamos doações como forma de auxilio emergencial, em virtude da crise provocada pela pandemia.

 

A associação de moradores

Desde a nossa primeira viagem, em 2013, percebemos que havia uma semente de associação na comunidade. Foi muito interessante e significativa aquela reunião solicitada pelos representantes da comunidade com a coordenação da viagem. Isso foi o pontapé inicial. Oferecemos a esse grupo várias capacitações e, naturalmente, eles sentiram o desejo de organizar a Associação de Moradores do Araras (AMA).

Em 2017, contamos com a ajuda de Neves Theodoro, de Anápolis, Goiás, que se dispôs a ir até a comunidade para ajudar na estruturação e fundação da associação. Foi uma festa. Um detalhe importante: a eleição resultou na composição de uma diretoria muito representativa. Todos os grupos, igrejas, escola, saúde, pescadores, agricultores representados.

 

O cuidado com o lago

Logo no início dos encontros de capacitação e formação de liderança, o seu Braulino, morador da comunidade, falou que era preciso fazer alguma coisa pelo lago. Ele contou que no passado os Tambaquis, Pirarucus e Tracajás eram espécies abundantes no lago. Mas que estavam sumindo e ficando menores a cada ano. Todos concordaram e confirmaram o que aquele senhor havia dito. “Nós temos aqui um pote de ouro na nossa frente e precisamos cuidar”, disse outro comunitário.

A partir da criação da AMA, a primeira ação foi criar uma estratégia de fiscalização no lago. Desde 2017, eles colocam um flutuante na entrada do lago e pagam comunitários para serem vigias, 24 horas por dia. No primeiro ano, ocorreram alguns incidentes com pessoas que não queriam obedecer. Então, o vigia chamou os homens da comunidade que cercaram o barco desobediente e o mandaram embora. No ano seguinte já foi um pouco mais fácil. Agora já tem regulamento escrito, com orientações para os vigias e estratégia de arrecadação de dinheiro para fazer o pagamento dos vigias, por meio de movimentos com venda de sopa na praça, leilão de alimentos etc.

Para 2020, tínhamos o primeiro plano de ação feito pela AMA, que incluía campanhas ao longo do ano. Uma delas, que eu mais gostei, estava relacionada com o cuidado com lago e previa a proteção de duas espécies de peixe, o roelo e o bodego. Outra ação tinha a proposta de ações de cuidado com o lixo e com os animais domésticos, como cachorros e gatos. O plano de ação também apresentava ações voltadas para a agricultura e uma para proteção da família, uma vez que os moradores consideravam ter tido um aumento no consumo de álcool e presença de drogas na comunidade.

 

A pandemia e os milagres

O surgimento da pandemia atrapalhou os planos e desarticulou o grupo, porque houve muita doença e algumas mortes. Nossa equipe, de Asas de Socorro, ficou acompanhando de longe, na base em Manaus, até que chegou um momento em que julgamos estar no tempo de fazer uma visita à comunidade. Com todos os cuidados necessários e possíveis empreendemos uma viagem, com os objetivos de estar com eles, saber como estavam, levar doações, rever os planos e ajudá-los a reconstruir o planejamento.

Foi uma grande alegria subir novamente no barco com destino a comunidade São José do Araras. Acho que nunca fomos até lá num barco grande com menos de 10 pessoas. Sentimos falta daquele barulho de muitas vozes, da correria de atar 60 redes e de embarcar tanta coisa. Fomos lá em nome de todos os que ao longo dos anos visitaram, amaram e sentem saudades das pessoas do Araras. Sabíamos que havia tido muito sofrimento e luto, por causa da covid-19, então queríamos oferecer a Palavra de Deus que consola, penetra na alma e no coração, sarando e curando as feridas.

Já era noite quando chegamos em São José do Araras e, como sempre, eles nos esperavam. Foi um reencontro emocionante. Meio sem jeito, porque abraços estavam proibidos, mas as lágrimas foram inevitáveis. Estava reunida toda a diretoria da associação. Foi um momento de ouvir as histórias: Edilson perdeu dois irmãos; Fátima e Sidney perderam a mãe; e seu Francisco perdeu a dona Diva, há um mês. Entre os dez membros da associação reunidos na ocasião, apenas dois não tiveram sintomas de Covid-19.

Entre as 200 famílias da comunidade, poucos não manifestaram sintomas da doença. Dona Valza contou que ficou muito doente. Faz dois meses que passou pela doença e ainda se sente muito fraca. Não houve isolamento – os que iam se curando cuidavam dos outros. A Dora, que tem nove filhos, disse que antes de se recuperar já estava cuidando do sogro e da sogra e seguiu por dias no cuidado dos doentes. O mês de maio todo, até meados de junho, só tinham doentes na comunidade. Agora ninguém mais acha que precisa de isolamento. Desejam retomar. Já estão fazendo roças e pescando. E sim, usando camisetas com fotos dos que partiram. Essa é uma forma bem peculiar de demonstrar carinho e saudades dos que se foram.

Imagine a cena: sentados em roda, contavam as histórias, permeada por risos. Como se estivessem narrando as vitórias que conquistaram em uma luta. Cada um por sua vez, relatando o que sentiu e como sobreviveu. Ao final, consideram que venceram a batalha e que a fé em Deus foi fortalecida. Vendo o que Deus fez na comunidade enquanto orávamos, podemos afirmar: Deus fez milagres. Creio nisso.

 

A despedida e a gratidão

A volta é sempre uma mistura de sentimentos. Emoção de partir e levar com a gente tantos agradecimentos. Na reunião de despedida, nos emocionamos com o testemunho de seu Braulino (aquele senhor que pediu ações urgentes para cuidado com o lago, numa das primeiras reuniões, lembra?). Aos 80 anos, com poucas palavras, ele agradeceu a vida. Chorou e disse ser grato a Deus por ver um sonho se realizando. Por anos, ele foi uma voz na comunidade a dizer que era preciso cuidar do lago, para deixar para as gerações futuras. Esse ano, todos testemunharam a fartura de peixes.

Outro morador, Reinaldo, fez uma declaração de amor. Disse sentir-se parte de Asas de Socorro, como uma família; e que está pronto a ajudar, sempre que precisarmos. O líder da AMA, José Aldenor, falou de sua gratidão por Asas ter ajudado a formar a associação e a começar a caminhada. Já o José Afonso começou sua fala assim: “Asas de Socorro é uma organização cristã; ela faz o que Jesus mandou: pratica a solidariedade e o amor e nós vemos isso em cada um de vocês.”

 

Dá para não chorar? No coração, carrego muita gratidão. Gratidão a cada um que nos apoia: aos voluntários que se juntam a nós nas viagens; aos que contribuem para que viagens como esta aconteçam; aos que nos sustentam com suas orações. Juntos, formam uma nuvem de testemunhas de forma que o Amor de Deus se torna visível.

 

Os frutos

Algumas semanas após a viagem mais recente, dois casais da comunidade passaram uns dias conosco na base, em Manaus. Perguntei a eles sobre os frutos do trabalho. Uma das mulheres prontamente respondeu: “melhorou a nossa situação de saúde (referindo-se ao acesso a saúde) e no cuidado com o lago, porque foi a criação da associação que deu força para pegarmos firme na proteção do lago e agora os comunitários estão vendo o resultado.”

Eu acrescentaria o que escuto eles dizerem, que Asas de Socorro na comunidade São José do Araras influenciou a união da comunidade para trabalhar juntos. Acrescento também o que vejo: homens e mulheres comprometidos, dia a dia sendo transformados, agindo e praticando o que tem aprendido a luz da palavra de Deus. E digo isso não para cumprir o jargão missionário, mas é porque vejo vidas sendo transformadas na prática. Todas as ações desenvolvidas são recheadas da palavra de Deus. A cada capacitação, oficina, encontro, fico impressionada como a Palavra vai penetrando, pouco a pouco, e mudando as pessoas.

 

Eunice Bueno Menezes é gerente da Base de Asas em Manaus, Amazonas, onde mora com o esposo, Juraci. Ambos servem como missionários em Asas há mais de dez anos.

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