Por Gabriel Louback

Ele era difícil de fazer amigos. Alguns não gostavam muito de seu passado, de onde tinha vindo. Diziam que daquele lugar não dava pra vir coisa boa. Outros consideravam-no um baderneiro: diziam que bebia demais e que não se controlava na hora de comer; que andava só com gente que não merecia confiança, traíras e gente sem caráter ou pudor. Por isso, muitos o odiavam.

Ele nunca me falou sobre isso, mas eu não duvido que tenha se sentido usado, sabe? Para quem tinha pouco, Ele deu muito. Para quem não tinha nada, Ele deu tudo. Distribuiu comida pra uma galera que estava com fome, ofereceu vinho do bom em uma festa na qual tinha acabado toda a bebida. Massa, né? Aí o negócio começou a ficar sério. Com Ele, teve cego que começou a enxergar, paralítico que passou a andar, e Ele lá, indo de um canto para o outro, só fazendo o que o povo pedia.

Vai dizer que você também não ia desconfiar que a galera estivesse só interessada no que você tem, e não em quem você é?

Sério, imagina a dificuldade pra Jesus fazer amigos verdadeiros. Se deve ser difícil pro Bill Gates, imagina pra Jesus? Estou falando de amigo de verdade, daquele que vai estar contigo no dia em que você lança o Windows, mas também no dia em que lança o Zune (lembra? Era o iPod da Microsoft). Amigo de verdade. Que vai continuar do seu lado no dia em que acabar o vinho, no dia em que você não andar sobre as águas, no dia em que não tiver cura. Amigo que não vai te abandonar quando te acusarem de conhecê-Lo, amigo que não vai te negar, amigo que vai estar ao seu lado ainda que você esteja morrendo crucificado. Não amigo desses que só vai pro momento da cura e libertação, do Espírito descendo como pomba e de Deus Pai falando com todas as letras que gosta de você, mas amigo de verdade, daquele que vai pra vigília contigo. Que vai pra vigília e não dorme.

Pense na dificuldade de Jesus em fazer um, apenas um amigo de verdade, sem ser por interesse. Pois bem, parece que essa é uma das maneiras de encarar o ministério Dele: Ele veio e fez 12 amigos, caminhou e trabalhou com eles, e deixou seus amigos responsáveis por continuarem o que Ele começou. Ele próprio falou por essa perspectiva, um pouco antes de deixar seus amigos: “Tenho esperado ansiosamente para comer convosco essa Páscoa” (Lucas 22:15). “Ansiosamente”. Essa palavra me intrigou. Afinal, você já viu Deus ansioso com algo?

Mas Jesus estava ali, ansioso pra comer com seus amigos. Amigos que permaneceram com Ele até mesmo em suas tentações! Sabe quando seu amigo te confidencia: “Cara, tô passando uma tentação difícil aí, ouve só…” Então, aqueles 12 ali tinham passado por isso, com o Filho do Homem. As tentações que o Deus Conosco, em carne e osso, passou.

Eu não consigo imaginar o sentimento de Jesus prestes a ser crucificado, mas consigo imaginar a dor e a nostalgia batendo ao pensar: “Ok, daqui a pouco eu morro e depois ressuscito, mas depois disso vou ter que deixar esses caras aqui… a minha galera. Meus amigos da vida, que estiveram sempre comigo. Amigos que me amam de verdade. Que até vão me negar. Uma. Duas. Três vezes. Mas que vão voltar pra mim. Amigo mesmo, daquele que vacila e depois, arrependido, não vê a hora de te encontrar. Que pula do barco quando me vê de longe, não aguentando esperar. Amigo sincero, que fala na cara: ‘Duvido que você morreu e ressuscitou’, e que coloca o dedo ali nas marcas, pra sentir. Onde mais eu encontraria amigos assim, com essa cara de pau? Que gente massa eu encontrei, né?”. Eu fico triste só de pensar, agora imagine Jesus vivendo e sentindo isso.

Ele não ficou ansioso pra ser transfigurado, não ficou ansioso pra multiplicar pão ou peixe, não ficou ansioso pra andar sobre as águas. Jesus ficou ansioso para se assentar à mesa, comer pão e tomar vinho com seus amigos. Vida boa de ser vivida, né? Por isso vida difícil de ser morrida. Mas até nessa situação Ele pensou antes nos seus amigos (OK, ele pensou na humanidade, mas em seus amigos também). Não pensou em si, no desejo de ficar ali, de satisfazer a sua vontade. Até nisso Ele foi o melhor amigo de todos, daquele que a gente não entende direito quando faz algo pro nosso bem, por mais difícil que seja pra ele… ou pra gente.

Foi por isso que todos pudemos nos tornar amigos dele também e desfrutar dessa doce companhia. E mais: além de amigos, nos tornamos irmãos. Amigo mais chegado que irmão, sabe? Esse é Jesus. Fomos enxertados em um galho original da árvore, diretamente conectados ao Pai, parte da mesma família que Ele! Fomos adotados pois o Filho de Deus nos chamou de amigos e nos chamou de irmãos. Por que Ele buscou a paz entre nós, e trouxe reconciliação nesse relacionamento que parecia quebrado por toda a eternidade. Esse é um amigo que quero seguir. Esse é um irmão que eu quero ter ao meu lado, na minha jornada. Esse é meu Mestre.

Um brinde, então, a esse homem que, sim, deu sua vida por nós, mas que no processo aproveitou para fazer 12 amigos. Na verdade, pelo menos 13, se contar comigo.

(Texto inspirado em uma mensagem compartilhada pelo Arthur Martins)

  • Gabriel Louback é formado em jornalismo, com especialização em Missiologia na escola Gå Ut Senteret (Noruega) e missionário na Itália. Gosta de ouvir histórias e de contar as que não são ouvidas.
  1. Paz a todos! Encontrei o site ultimato há pouco tempo, bem pouco menos e achei muito bom, cheio de artigos, reflexões. O desejo do meu coração e que alcance outros por aí tbm, que estão procurando um amigo mas até agora não encontraram.

  2. Estou sem palavras para dizer o que esse texto significou para mim. Com toda a certeza vou compartilhá-lo, divulgá-lo o tanto que eu puder. Palavras simples, mas com uma reflexão tão grande que pode ajudar (e ajuda, vai por mim) diversas pessoas, sejam jovens, adolescentes e até mesmo adultos.
    Muito obrigada por suas palavras, sinceridade e pela humanidade que transmitiu. Muitas pessoas precisam ler esse texto, ver que Jesus foi homem como a gente, mesmo sendo Deus.
    Que Deus te abençoe na sua missão.

    • Uau, Divana! Muito obrigado pelas palavras tão generosas. Que alegria saber que essa revelação Dele e de quem Ele é foi benção na sua vida, assim como foi na minha. E amém! Que Ele continue te abençoando também.

  3. Gabriel, que texto lindo, que reflexão profunda em uma linguagem atual, simples e franca!
    Muito obrigada por escrever e compartilhar este texto conosco. Fiquei emocionada! Estou pensando neste texto para um estudo que temos nesta semana!
    🙂
    Abraço!

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