Por Maurício Avoletta Júnior

Um dos meus aurores preferidos, o antropólogo francês René Girard, disse em seu livro “Mentira Romântica e Verdade Romanesca” que uma literatura só se explica com a outra, ou seja, que um tema tratado em determinado autor só faz completo sentido quando colocado de frente com outro autor tratando do mesmo tema. Confesso que por muito tempo achei difícil engolir essa afirmação. Nunca fez muito sentido dizer que um livro só ganha sentido com outro livro, às vezes completamente avesso a ele. Contudo, recentemente, enquanto relia esse livro do Girard, finalmente compreendi o que ele quis dizer: um autor só faz sentido com outro autor, porque ambos são humanos e dividem a mesma natureza.

Girard era abertamente um admirador do teólogo católico Hans Urs von Balthasar, o mesmo que estruturou as ideias de Teodrama e de teologia sinfônica, o que claramente refletiu no pensamento girardiano. Von Balthasar defende que a compreensão da Verdade se dá na multiplicidade e não na singularidade, ou seja, que uma pessoa não possui a verdade, mas que uma comunidade pode possuir.

Da mesma forma, Girard mostra que na literatura, o sentido de um tema não se dá em um autor único, mas no diálogo entre autores. Dostoiévisk elucida alguns temas, mas é só quando colocado de frente com Proust que esses temas se completam; Lewis responde a muitas perguntas, mas é somente quando posto frente à Chesterton que muitas dessas perguntas somem; Tolkien fala muito bem de assuntos religiosos, mas é somente frente a Santo Agostinho que esses assuntos vêm verdadeiramente à tona.

Acredito que essa é a beleza da arte: refletir uma realidade que não enxergaríamos tão facilmente de outra forma. C. S. Lewis, em seu livro “O Peso da Glória”, no artigo de mesmo nome, diz que todo o belo e sublime, ou seja, toda a forma pura de arte, não é nada mais do que uma prova da existência de algo verdadeiramente belo e sublime. A arte nos mostra que a realidade não é somente a existência visível, mas que existe algo mais real e mais visível que a própria realidade. Foi esse tipo de pensamento que levou o crítico de arte Hans Rookmaaker escrever aquele pequeno, mas belíssimo livro, “A Arte não precisa de Justificativa”.

Rookmaaker entendeu que a arte é justificável por si só, pois ela sozinha já tem muito a falar, sem precisar que fiquemos impondo justificativas a ela. Dostoiévisk e Proust falam tão bem da natureza humana, exatamente porque não queriam falar da natureza humana. Não que eles não se importassem com esse tema, mas não foi isso que os motivou a escreverem suas histórias, e sim a pura e simples vontade de escrever histórias. A arte é um reflexo da realidade, então, se ela for pura, ela se justificará sozinha.

Creio que seja por isso que hoje vivemos tempos tão sombrios, pois queremos justificar todas as coisas a qualquer custo. Queremos não apenas justificar, mas defender todas as coisas, e nos esquecemos de permitir que as coisas sejam o que elas naturalmente são. Precisamos explicar os mistérios da teologia, justificar nossas opiniões políticas, ansiamos por compreender o motivo de tudo, mas não deixamos que nada fale por si só. De certa forma, esse é um problema do ser humano como um todo: sempre buscamos entender todas as coisas, como se ao entendermos tudo fossemos ganhar algo mais do que nossa temporalidade e mortalidade.

Em uma de suas cartas para Bede Griffins, C. S. Lewis diz que a leitura de Chesterton não agrada mais as pessoas, pois elas não entendem paradoxos, e creio que essa realidade é ainda muito presente. Vivemos a época em que teólogos como Gordon Clark e Vincent Cheung dão respostas definitivas a questões para as quais em mais de dois mil anos se aceita o paradoxo. Estamos rodeados por aqueles que pensam que as respostas para os problemas da humanidade se encontram na Escola Austríaca ou em Karl Marx. Somos engolidos por multidões de pessoas que acham que a salvação da arte está na Escola de Frankfurt.

Como já afirmou o filósofo holandês Herman Dooyeweerd: a idolatria está justamente em trazer o infinito para o finito. Ao abandonar o paradoxo e buscar justificar todas as coisas, as pessoas se aprisionaram em uma sociedade idólatra, individualista e materialista, nos piores sentidos que esses termos podem ter.

Uma das personagens de Dostoiévisk afirmou certa vez que a Beleza salvaria o mundo… Não há como discordar! A beleza nos aponta para a realidade, para o próprio Deus e, consequentemente, nos resgata do individualismo e do materialismo que a idolatria nos impõe. Enquanto nossa sociedade continuar voltando seus olhos para si mesma, não teremos a redenção das artes e nem da própria existência. Enquanto nossa maior preocupação for a redenção pelos meios visíveis e lógicos, continuaremos a nos afogar nessa idolatria, até que não reste mais nada. Mas graças a Deus, Lewis nos lembrou que é justamente quando não temos mais nada, que percebemos que Deus é tudo o que sempre tivemos.

Acredito que algum dia chegaremos ao fundo do poço, mas tenho esperança de que, ao chegarmos lá, perceberemos que não estamos sozinhos. Afinal, não foi essa a promessa, de que no vale das sombras e da morte Ele estaria conosco?

• Maurício Avoletta Junior, 22 anos. É membro da Igreja Presbiteriana do Tucuruvi (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

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