Por Jeverton Ledo

Noite na Bélgica. Foto: Bert Van den Roye / Freeimages.com

Noite na Bélgica. Foto: Bert Van den Roye / Freeimages.com

Sim, eu desci as escadas do sótão. Os dias desse lado estão mais curtos. Nesta época, são raros os dias com sol. O clima frio não desacelera o ritmo, tem um charme nas ruas. Gorros, casacos e cachecóis ditam a moda.

Nosso novo cantinho nos coloca em casa, nossa casa. Na sala, um sofá-cama acolhedor, as janelas estão nuas e permitem um olhar panorâmico para a rua quieta e aconchegante em meio a igrejas e seus vitrais, prédios modernos com suas estruturas metálicas.

Vamos sendo moldados, conduzidos a repensar, reavaliar, a prestar atenção em cada pequeno detalhe dessa convivência e vivência multicultural. Gestos simples, ações singelas, troca de ideias e encontros diários com rostos, suas marcas, seus sonhos, desilusões e – por que não? -, para muitos, um refúgio. Refúgio esse que abre a perspectiva de dias mais leves, longe da fome, do descaso e da guerra.

São espaços que se abrem e permitem o lançar de nosso próprio olhar sobre essa nova experiência. Nos juntamos e fazemos coro aos imigrantes e expatriados.

A cultura é “respirável” por aqui, está em cada esquina, esculpida em cada prédio, talhada nas ruas, simbolizada no coração dos moradores que conhecem sua história. Guardam as lembranças do passado e lançam as sementes do futuro.

Seria a pintura de um quadro digno de ser admirado e reverenciado por mim, um produto do “terceiro mundo”? “Terceiro mundo” sobrevivente , tentando sobreviver.

Ouço gritos, rumores de guerra, e, sim, lama, muita lama. Não estou atrasado e muito menos pegando carona nas últimas postagens. Me sinto, na verdade, no meio de um caminho que me parece sem volta. Fui eu picado pelo pessimismo? Não, mil vezes não!

Quero lutar e permanecer ao lado dos remanescentes, dos sonhadores, dos “pequenos príncipes”, de olhar singelo e apaixonado, enxergando beleza na, por vezes, única flor de meu pequeno planeta.

Mas para onde segue nosso barco? Para onde vamos nesse desenfrear de desrespeito, intolerância, desmandos? Parem tudo, humanos! eu os chamei humanos; isso ainda faz algum sentido? Sim, sentido. Não será esse o ponto? Redescobrir, ressignificar, lançar uma nova semente?

A pergunta é: ainda existe terreno fértil? Terreno esse que acolherá e frutificará a generosidade, o respeito, o diálogo. Lança-se o desafio de darmos as mãos da convivência equilibrada, sonhada e recriminada por aqueles que hoje fazem tudo e se esquecem do simples.

 

  • Jeverton “Magrão” Ledo é missionário e trabalha com juventude. Ele e a esposa estão na Bélgica, onde vão morar por um tempo.

 

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