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Por Érica Neves

Cresci ouvindo que minha geração era passiva. Tal passividade seria advinda de uma democracia sem grandes desafios políticos. As gerações anteriores – essas sim! – conquistaram muito além do que essa tal geração passiva jamais poderia almejar. Bons tempos viveram aqueles que lutaram pelas Diretas Já, ou ainda os caras-pintadas que tiraram Collor do poder…

Carregar a alcunha da passividade faz parte da história dos jovens nascidos depois da segunda metade da década de 1980 no Brasil. Muitos têm resistido a ela lutando como podem por seus ideais. Para esses, movimentos como o Passe Livre foram apenas a reverberação de tudo aquilo que eles vêm falando há muito tempo – embora nem sempre sejam ouvidos.

Há jovens, no entanto, que se eximem de seu papel de cidadãos e vão vivendo como se a política fosse um caso perdido e, portanto, seria inútil se pensar a respeito. Não se envolvem com causas coletivas, estão por fora do cenário nacional e local e, quando votam, o fazem apenas para cumprir uma obrigação.

Há ainda aqueles que, por terem seus direitos políticos, civis e sociais negados desde a infância, nem sequer têm a chance de exercer sua cidadania. Para esses, a luta diária pela sobrevivência já é grande demais para se pensar em política…

A proximidade de eleições majoritárias costuma ser um bom momento para se pensar no assunto, já que anos eleitorais sempre trazem consigo muitas promessas de mudanças. Todavia, é difícil ficar imune ao clima de desesperança e ceticismo que não demora a tomar conta dos ânimos coletivos…

O que fazer quando nossos candidatos não correspondem às nossas expectativas? O que dizer se nossas vozes nunca são ouvidas? Como ser jovem no Brasil de hoje e não se entregar à passividade, ao conformismo e ao ceticismo que pairam no ar?

Olhando para a vida de Cristo, nos deparamos com um testemunho vivo de um homem que sabia para onde caminhava. Quando o cenário político era de exploração e dominação, ele não se deixava abater. Quando seus seguidores esperavam dele a rebelião, ele dizia que não era por meio de armas que seu reino iria chegar. Contudo, não teve medo de erguer sua voz contra a injustiça e o status quo ao dizer que veio pregar boas-novas aos pobres, proclamar liberdade aos cativos, libertar os oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor (Is 61.1-2).

Por isso, acredito que viver a realidade do reino hoje é ter olhos abertos para a obra que Cristo inaugurou. É não se deixar abater pela desesperança ao compreender que a minúscula semente de mostarda há muito tempo começou a brotar!

Às vésperas das eleições, lembremo-nos do testemunho do nosso Senhor. Que a nossa fé no invisível nos capacite a arregaçar as mangas para a transformação das mazelas visíveis. Que os nossos pés sejam ágeis na proclamação do evangelho da paz e que nossas mãos não se cansem de servir a cidade. E que a marca da nossa juventude não seja a passividade, mas a esperança.

“Porque, assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Soberano, o Senhor, fará nascer a justiça e o louvor diante de todas as nações” (Is 61.11).

 — Érica Neves, 26 anos, casada, jornalista, mora em Goiânia, GO, e é membro da Igreja Cristã Evangélica Central.


Nota:

Este artigo foi publicado na seção “Altos Papos”, da edição atual da revista Ultimato (setembro-outubro/2014). Veja o sumário da revista aqui.

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