(parte 2)

Por Bárbara Almeida

 

Amassando lama para produção de tijolos.

Amassando lama para produção de tijolos.

…Mas eu fui… Graças a Deus eu fui…

Embarquei para o Quênia em junho de 2013.

Levava comigo várias vontades: ser útil, ver sorrisos, aproximar-me de Deus, aperfeiçoar meu inglês, conhecer outra cultura…

Mas, chegando lá, nos meus primeiros dias a vontade era: voltar pra casa. Uma sequência de situações me assustou e me fez pensar “O que estou fazendo?”. Fui recebida por uma voluntária inglesa doente, a janta servida era um macarrão sem gosto, a residência estava sem eletricidade, eu não teria cama… Espantei-me quando perguntei por “bathroom”… E continuei espantada quando corrigi a pergunta por “toilet”. Essa sensação de “não pertenço, mas vou tentar” continuou por duas semanas. Só naqueles 15 primeiros dias, 4 voluntários internacionais ficaram doentes, inclusive eu. (Peguei malária no meu sexto dia de África.).

Alguns desses voluntários foram embora logo depois. E para compensar chegaram onze franceses. Eu estava infeliz com a ideia de passar a morar com 20 e tantas pessoas, onde antes éramos 5. Mas logo percebi que eu já tinha aprendido algumas coisas e poderia dar dicas para esses novos voluntários. E também percebi que deveria aprender muito mais. Nas três semanas seguintes, morando com várias pessoas e fazendo trabalho braçal, aprendi a carregar água, fazer tijolo, limpar a casa, lavar o banheiro, ajudar na cozinha e lavar a louça. (Mesmo as coisas mais simples geralmente são executadas de modo diferente). Durante a estadia dos franceses, concluímos dois mil tijolos. Um número praticamente nulo perto de profissionais, mas muito significativo pra nós. E eu me senti bem com isso. Começava a me sentir útil.

Em agosto passamos o mês inteiro sem água corrente. Além de ter que aperfeiçoar minhas habilidades de carregar água, tive que aprender a confiar em Deus. Às vezes não era a gente que ia até a água, mas a água que ia até a gente (Ô chuva boa!).

 

Mas a água que armazenávamos não era muita. E minha roupa suja começou a acumular. Minhas amigas quenianas notaram, e um dia descemos até a bica e passamos 1 hora lavando as minhas roupas. Essa foi uma das muitas vezes que minhas novas amigas me ajudavam em tarefas do dia a dia.

O banheiro já era o de menos, pois eu estava ganhando muito mais. Meu tempo foi ocupado com tarefas como tirar foto, elaborar relatório, fazer pesquisa com os voluntários quenianos e elaborar uma apostila com temas de palestras. Às vezes surgiam algumas tarefas inusitadas. Acompanhei a equipe da creche da organização que levou cerca de 40 crianças para o primeiro passeio na cidade grande, onde andaram pela primeira vez de barco e brincaram pela primeira vez no parquinho. Elas pareciam assustadas, animadas, e depois exaustas. Outro dia acompanhei novamente estas crianças quando foram tomar remédio contra vermes. E eu também tive que entrar na dança e fiquei com aquela “balinha” na boca até cansar. (Era só mais um remédio dentre as dez pílulas diárias que eu estava tomando para curar febre tifoide e malária.).

Enquanto isso, fiz amizades com pessoas de todos os continentes e ganhei amigos quenianos. Pessoas que eu não conhecia passaram a saber meu nome, e eu era recebida com pessoas cantando “barabaraberebere” ou chamando “barabára” (que em kiswahili significa “estrada”). Descobri que os quenianos adoravam levar uma mzungu (pessoa branca) para suas casas e apresentá-la às suas famílias. Com essas visitas conheci novos lugares, novas pessoas e novos “parentes” que insistiam que eu prometesse voltar algum dia.

O meu trabalho para a comunidade não era muita coisa. (Acho que todos voluntários internacionais correm risco de penderem entre “sou muito bom” e “sou bom coisa nenhuma”.). Eu me sentia útil na casa onde morávamos, mas não me via como pessoa necessária na organização. Quis iniciar um grupo de empoderamento com jovens, mas não vingou mais que um encontro. Pensei em iniciar aula de expressão corporal, mas não aconteceu.

E assim, entre realizações e decepções, fui ficando. O que seriam três meses se estenderam para cinco meses e meio.

Deixei o Quênia em novembro de 2013…

 

• Bárbara Craveiro de Almeida tem 24 anos e é formada em serviço social. Mora em Vinhedo, SP, e trabalha na área social, mas eventualmente se aventura na área artística.

 

Leia também
Quase no Quênia (parte 1)
De volta do Quênia (parte 3)

 

Vídeo
Convido vocês a partilharem um pouco desta experiência comigo neste videoclipe: “Take your time – Sly Shy”

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