[Por Rodolfo Gois]

 

UltJovem_19_06_13_MarteloDitador: “Aquele que, investido no governo, concentra em suas mãos todos os poderes” (Dicionário Aurélio).

A palavra é vista com preconceito, desconfiança. O título provoca reações de repulsa e indignação. Quem já passou por um governo com regime ditatorial (não é o meu caso) conta das dificuldades e lutas pela liberdade de se “viver” nestas condições. Sem direito de se defender, opressão e medo que regem o comportamento das pessoas, a lei é o próprio ditador.

Lutamos por liberdade e, por isso mesmo, contra as ditaduras. Queremos escolher, fazer, ir, vir, expressar, decidir, falar, sorrir, chorar, realizar. A liberdade de fazer o que quiser, na hora que quiser, do jeito que quiser, onde se quiser, com quem quiser é o anseio e a ambição de todos. Liberdade é governo, liberdade é poder.

Conta uma parábola do livro de Eclesiastes que havia um jovem, pobre, que estava preso. Mas este jovem tinha uma habilidade que a prisão não podia limitar. Ele era inteligente. Sendo inteligente, pensava com coerência, muito mais coerência que o rei daquele país, que era velho, intolerante e soberbo. Mesmo preso, a popularidade deste jovem cresceu; mesmo livre, a simpatia deste rei foi perdida. Mesmo sem liberdade, este jovem exerceu influência; mesmo com poder, este rei perdeu seus súditos. Um dia, diante de uma revolução, os papéis se invertem, e o rei vai pra prisão e o jovem, antes prisioneiro, vai para o trono.  Agora era jovem, livre, esperto e com poder. Anos mais tarde, porém, a história se repetiu quando este já não tão novo rei deixa de ser coerente por se apaixonar pelo poder (Eclesiastes 4.13-16).

O poder não liberta, aprisiona. O poder não alivia, pesa, O poder não satisfaz, provoca mais insatisfação. Ainda assim não queremos ser ditados, queremos ditar, e esta busca se torna mais importante que a própria vida.

É assim que lidamos com Deus. Queremos ser ditadores do Criador e, se ele não fizer o que desejamos, o mandamos para a solitária. Ao mesmo tempo em que suplicamos a solução de nossos problemas, ditamos como Ele deve solucioná-los; ao mesmo tempo em que nos prostramos em desespero, ordenamos que ele faça nossas vontades; ao mesmo tempo em que cantamos em alta voz, desejamos encantá-lo (como um feitiço, mesmo) para que ele se renda aos nossos desejos. Queremos usar o poder de Deus, mas não queremos o relacionamento com Deus. Sinceramente, não queremos.

Mas ele sim tem todo poder e toda a glória. Ele sim é todo poderoso. Ele sim é supremo e numinoso, impossível de ser totalmente conhecido diante da totalidade da sua glória. Ele tem todo o poder nas mãos, mas não é ditador. Ele é amor. Ele é perdão. Ele é compaixão. O poder fora das mãos daquele que criou o próprio poder torna dominador e ditador quem o detém.

Sendo assim, a única forma de sermos totalmente livres é sermos totalmente submissos aquele que detém todo o poder. Isso não quer dizer que vamos dominar as suas ações, e isso é ótimo, pois nem mesmo sabemos o que queremos.

Deixemos de ser ditadores de Deus, para sermos verdadeiramente livres.

 

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Rodolfo Gois é diretor pastoral do TeenStreet Brasil e pastor da IPIB de Maringá, PR.

  1. Um dos homens que talvez contrarie e relação de poder é Mandela. Que enquanto estava preso conseguiu prestigio, mas quando liberto e no poder como presidente da África do Sul lutou pela união do país entre brancos e negros. Talvez o fato dele ser cristão explique um pouco dessa atitude.

    E o próprio Lutero tem essa mesma visão que você colocou muito bem. “Todos os cristãos são livres e servos”

  2. Muito boa essa reflexão. Quantas vezes pedimos a vontade de Deus, mas só damos como atendida quando é de acordo com o que queremos. Enganamo-nos achando que poderíamos, nem que seja por um momento, enganar Aquele que tem todo o poder.

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