De como a espiritualidade clássica me fez reencontrar os Santos que perdemos

 

Desenho. São Fidelis de Sigmarigen e São José da Leonessa. De: Giovanni Battista Tiepolo (1696–1770)

Há mais de uma forma de agradecer. Uma delas é reconhecer. Podemos fazer isso reconhecendo a contribuição que pessoas específicas tiveram em nossa trajetória. Nesse texto, quero reconhecer a contribuição de pessoas de quem fui discípulo. De antemão, é preciso fazer aquele clássico esclarecimento – que no meio acadêmico é típico da relação entre “orientador” e “orientando,” que reflete, na realidade, um traço secularizado da antiga relação entre discípulos e mestres na Igreja: se eles são responsáveis pelo meu sucesso, certamente não podem ser responsabilizados pelas minhas falhas…

 

Entrei no Grão de Mostarda indicado pela minha atuação na Rede FALE e na ABUB. Era uma caminhada de três anos de discipulado: durante aquele tempo, haveria encontros semestrais, retiros de silêncio e espiritualidade. Eu havia me tornado uma liderança na juventude evangélica, circulava pelo universo do diálogo inter-religioso, e mantinha diálogos institucionais com a Igreja Católica e outras denominações Ortodoxas. No entanto, se eu compreendia a importância do diálogo ecumênico para a articulação de políticas públicas e de mobilização popular, ele parava por aí. E o conflito era aberto: muitas das práticas desses grupos se distanciavam bastante da espiritualidade batista, da ética conservadora e individual, e da teologia reformada brasileira e norte-americana, na qual cresci desde a minha conversão, aos 11 anos de idade.

 

Frequentar mosteiros beneditinos? Participar de “meditação” cristã? Ler livros escritos por andarilhos desempregados ou místicos medievais? Isso tudo parecia, antes do discipulado, em conflito aberto com minha espiritualidade batista, reformada, e sua ética protestante. Mas foi aí que conheci os quarto pastores que viriam a impactar minha vida nos próximos anos: Osmar Ludovico, Valdir Steuernagel, Ricardo Barbosa e Ricardo Gondim. O que eles propunham era ir além de “ler a bíblia” como prática de espiritualidade protestante: era necessário “deixar a Bíblia nos ler.” Esse salto de fé, que só foi possível graças aos períodos intensos de contrição, meditação, acolhimento e amizade que recebi deles e de meus irmãos e irmãs naqueles dias, viria a marcar pra sempre a maneira como enxergo a história da igreja e a espiritualidade cristã.

 

Passei a frequentar mosteiros beneditinos. Em alguns era muito bem recebido, convidado a participar dos ofícios e ficar conversando depois, como um “irmão de outra denominação”. Questionava, então, quando passava a frente de um dos raros templos protestantes de arquitetura cristã, e suas portas estavam fechadas: não havia lugar naquela casa para uma oração silenciosa, ao meio dia, no centro da cidade. Onde foi que nos perdemos, onde foi que desaprendemos a orar sem necessariamente falar – ou mesmo gritar?

 

Eu estaria mentindo se dissesse que essa espiritualidade me fez abandonar minha a teologia reformada, ou minha fé evangélica. Ao contrário: ela preencheu um vazio de mais de dois mil anos de história que havia em mim. Se jamais abri mão da crítica reformada àqueles movimentos que utilizaram da fé para enriquecer, como muitos fazem ainda hoje; por outro lado, aprendi a aprender com os Santos, a história e as narrativas de fé de muito tempo atrás. Se já conhecia aquela velha piada atribuída a Lutero, de que “dos doze apóstolos, quatorze estão enterrados na Espanha”; aprendi também uma piada dos católicos sobre nós, protestantes, para quem “o único santo autorizado é Santo Agostinho”.

 

Já se vão quase dez anos dessa experiência de discipulado. Ela teve uma profunda influencia na minha espiritualidade, na minha vida pessoal – me casei durante esse período – e na minha profissão. Foi a partir de debates que tive ali sobre “justiça”, que retomei leituras que tinha feito de maneira fluida da faculdade de Direito, e redescobri o Jusnaturalismo em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino, com suas convicções e contradições teológicas e jurídicas.

 

São Fidelis de Sigmarigen e São José da Leonessa. De: Giovanni Battista Tiepolo (1696–1770)

 

Na espiritualidade, além da lectio divina, procuro aprender diariamente com as tradições perdidas pelos protestantes. Todo racha deixa cicatrizes, mas também é preciso curá-las. Para curar as minhas, eu faço uso de alguns devocionários católicos romanos, para escândalo de muitos dos meus irmãos de fé (um aplicativo da igreja católica dos EUA para tablet). O que mais me chama atenção e edifica nele, é a possibilidade de aprender com a vida, o exemplo e a história da igreja.

 

O ex-Arcebispo da Cantuária, Rowan Williams, nos ensina que a atitude mais marcante dos cristãos é a gratidão: uma gratidão que desafia a realidade que nos cerca, e nos faz cantar e louvar – “aleluia!”. A gratidão cristã é a que se expressa mesmo diante das maiores adversidades, que nos faz abandonar a ilusão do olhar imediato para concentrar nossa Esperança no porvir. É, portanto, diante da aspereza dos tempos atuais, que expresso minha gratidão pelos meus mestres citados, e pela descoberta que me ofereceram: a espiritualidade clássica e medieval na história da igreja, para além dos meus arraias denominacionais. Segue um exemplo disso, e do caminho que essa jornada me fez percorrer até aqui.

 

No último dia 4 de fevereiro, fiz minha devocional em cima da vida de São José de Leonessa (também chamado de Eufranio Dessiderio), que compartilho agora:

 

Desde criança, Eufranio se sentia vocacionado, chamado por Deus. Terceiro filho de família de 8, havia sido prometido para casamento e ascensão social. Quando adolescente, no entanto, viu um grupo de monges Capuchinhos e quis se juntar ao grupo, aos 18 anos. Conta-se que certa vez pregou para um grupo de 50 bandidos que assaltavam caravanas na estrada. Todos se converteram e passaram a frequentar seus sermões. Foi missionário em Constantinopla, na Turquia, onde pastoreou mais de 4 mil escravos degredados em navios. Com frequência, os escravos desmaiavam de tanto remar, e ele se oferecia para substituí-los no remo – o que nem sempre era permitido pelos senhores dos escravos. Ele trabalhou em prisões, ministrando aos presidiários doentes durante uma epidemia. Certa vez se aproximou do Sultão, pedindo aprovação de um decreto que garantisse liberdade religiosa; acabou preso e condenado a morte por invasão de propriedade real. Foi pendurado por ganchos sobre uma fogueira por três dias, mas foi liberto (segundo a lenda, por anjos), e retornou a Itália em 1589. Terminou sua vida pregando em pequenas vilas, para os pobres, presos e doentes. Fundou hospitais, abrigos, e distribuía comida. Com crucifixo em mãos, entrava em brigas de rua para separá-las, orando, rezando e ensinando a paz.

 

 

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*Marcus Vinicius Matos é Doutorando em Direito no Birkbeck College (Universidade de Londres, Inglaterra), Professor de Direito Constitucional e Teoria de Direito. É membro da coordenação nacional da Rede Fale e foi “International Partner” da igreja All Souls, em Londres, onde participou da liderança do ministério com estudantes internacionais. Está em período de mudança de volta para o Brasil, residindo em Maringá, no Paraná. É casado com Priscila Vieira e pai de Aurora. Twitter: @mvdematos.

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