Só o amor é capaz de superar a dor

 

É difícil dizer adeus para quem a gente não aceita que se vá. As lágrimas inundam os olhos o tempo todo, e a saudade dilacera o nosso peito, porque o amor dura para sempre. Confesso que fui surpreendido com a partida do meu sogro, o Reverendo Moisés Castro e Souza, e que ainda não quero aceitar esse fato. Me sinto nesse momento como se tivesse sido lesado pela sua ida repentina para perto do Nosso Senhor. Sinto como se a convivência com ele, nos próximos 15 anos, fosse já um direito adquirido por mim. No entanto, tenho que reconhecer que mesmo a convivência com ele nos últimos 15 anos foi, na verdade, um privilégio. São poucas as pessoas que chegam ao final da vida com os dois pais vivos, como ele chegou – e eu também espero chegar. Mas tenho que dizer que nos últimos 15 anos, eu o tive também como um segundo pai. Tive dois pais nesse período.

 

Sua partida, aos 69 anos, foi inusitada: um acidente de Bicicleta, que acometeu um idoso saudável, que pedalava 20km por dia. A situação agravou-se pela distância e vivi, com minha família, o pesadelo de todo imigrante: perder seus pais e parentes, morando fora do país. Mudamos em julho para Londres, onde assumi meu primeiro cargo efetivo como professor universitário em instituição pública de ensino – feito que jamais teria sido possível sem o apoio financeiro e afetivo do meu sogro, ao longo desses 15 anos de convívio. A notícia da perda, em uma tarde de terça-feira, veio junto com as lágrimas e a luta: era necessário comprar passagens aéreas imediatamente, para o mesmo dia, para que fosse possível estar no velório. No entanto, apenas minha esposa poderia ir. Tive que encarar o luto à distância, com minha filha. E esse é o motivo deste texto: como nos despedir, daqueles a quem tanto amamos, sem estar lá? Sem ver seus corpos, seus familiares, seu enterro? E como proporcionar a uma criança a chance de se despedir de seu avô, à distância?

 

Sem em dúvida alguma, essa é uma situação pela qual já passaram incontáveis estrangeiros: todos aqueles que residem fora do seu país de origem. Esta é uma situação de vulnerabilidade, que nos faz relembrar porque a bíblia é tão enfática quando nos pede para acolher os estrangeiros, nas suas dores e lutas. E a distância foi também a dor e a luta de tantas famílias que perderam seus entes queridos durante a pandemia do COVID-19, no Brasil, sem poder chegar perto dos seus corpos, sem poder se despedir de quem partia. Minha filha, ao receber a notícia, recorreu ao lúdico, e a arte que mais gosta: fez um desenho do céu, “para onde foi o vovô Moisés”, e depois passou o desenho para um quadro, pintado à tinta guache. Em seguida, pesquisei e propus para ela algumas possibilidades de liturgias que poderíamos fazer juntos. Envolviam um rio, um culto, e um cemitério.

Das liturgias de despedida sugeridas pela Igreja Anglicana que encontrei na internet, ela escolheu a seguinte: ir jogar flores no rio Tâmisa, onde celebraríamos a memória do avô, que partiu. Mas ela quis dar um significado maior para a cerimonia: lançar no rio uma flor pra cada bisavô e bisavó dela e uma flor para o vô Moisés ao final. Chegamos à uma pequena “praia” no Rio Tâmisa, que fica no South Bank. Lançamos as flores, lembrando os nomes dos nossos queridos, que já partiram. Depois, li junto com ela a liturgia do culto fúnebre Anglicano (resumida):

 

Nos reunimos em nome de Jesus Cristo,

Que morreu e ressuscitou para a glória de Deus Pai.

Graça e misericórdia sejam convosco.

 

Viemos aqui hoje

Para relembrar perante Deus o Vô Moisés;

Agradecer por sua vida;

Enviar seu espírito ao nosso Deus, misericordioso redentor e juiz;

Entregar seu corpo para ser enterrado,

E confortar uns aos outros em nosso luto.

 

Deus de toda consolação,

Seu Filho Jesus Cristo foi levado às lágrimas

No túmulo de Lázaro, seu amigo.

Olhe com compaixão por nossas crianças, em suas perdas;

Dê aos corações aflitos a luz da esperança

E fortifica em nós o dom da fé,

Em nosso Senhor Jesus Cristo.

Amém.

 

Em seguida, minha filha orou. E encerramos. Chorei muito. Porém, o que a levou imediatamente ao desespero, foi compreender a alegoria das flores partindo nas águas do Rio, e perceber que as flores lançadas ao rio não iriam voltar: “me ajuda a pegar elas de volta, papai!”, chorava, aflita. E expliquei para ela que esse era o sentido do que fizemos: uma despedida de pessoas tão queridas, que só encontraremos de novo no céu. Nossa vida se encerra, mas o amor que temos por eles, dura para sempre. E por providência ou coincidência, a última flor, a do avô Moisés, foi embora antes das outras todas. Daí ela disse “pai, a flor do avô Moisés foi rápido demais!” Não consegui segurar nessa hora. Foi mesmo. Ela foi rápido demais.

 

Me lembro como se fosse ontem, o dia que conversei com ele para pedir a mão da sua filha Priscila em casamento. Ali, naquele momento difícil, diante de um pedido feito por um rapaz desempregado, ele expressou um valor que ele defendeu por toda sua vida. Ele me disse: “filho, empregos vão e vem. Mas o amor dura para sempre.” Eu não cheguei a conhecer o Pastor Moisés que é descrito às vezes como duro, ranzinza. O pastor Moisés que eu conheci tinha algumas radicalidades, mas era profundamente amoroso. Ele era capaz de ser brutalmente honesto, mas sem nunca perder a dimensão da nossa limitação, como pecadores – ainda que regenerados. Ele era capaz de recusar um acordo político ou eclesiástico que tornaria a vida de muita gente mais fácil, porque ele era honesto demais para negligenciar a injustiça quando a via de perto. Ao mesmo tempo, ele era capaz de brincar: “para resolver os problemas do Brasil, é só me eleger presidente, e me deixar empregar minha família para resolver os problemas do país – e aí não sei se vamos resolver os problemas do país, mas os nossos…com Certeza!” O pastor Moisés que eu conheci não se deixava seduzir pelo poder. Ele sabia que o poder passa, de mão em mão, mas que o amor dura para sempre.

 

Na sua carreira como pastor, eu sinto dizer que ele fez uma opção preferencial pelos pobres. Ainda que não fizesse disso uma plataforma para ele mesmo. Assim como Jesus, ele não escolheu os ricos, os empreendedores, os poderosos, os políticos ou os instruídos para fazer a sua obra. Ele valorizava os simples: os recém convertidos, os recém chegados, os desempoderados, os que não tem família influente, nem sobrenome importante, enfim, valorizava os Pescadores, os simples, os estrangeiros, as Martas e Marias, as pessoas que têm certeza de que nada são. Porque toda influência, todo sobrenome, toda eleição de presbitério, todo conselho de igreja…tudo isso passa. Só o amor, dura para sempre.

 

Meu sogro era um homem prático. Simples. Mas que se dedicava a distribuir o amor que tinha em sua vida. Ele distribuía de graça esse amor entre amigos, estudantes, familiares, a pessoas que atendeu no Conselho Tutelar, aos alcoólicos anônimos, e também a pessoas absolutamente desconhecidas, com quem ele se engajava facilmente em conversas na rua. Meu desejo é que nós possamos hoje nos lembrar do que é capaz esse amor. Porque assim como a vida dele passou, e se encerrou este ano, o amor que ele manifestou em sua vida, por nós, é eterno. O amor que ele encarnou em sua vida é eterno, porque vem de Deus, do amor de Jesus por cada um de nós. E é nesse amor que ele continua vivendo e que será lembrado pelas marcas que deixou em cada um de nós. Porque esse amor dura para sempre. Amém.

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*Marcus Vinicius Matos é professor efetivo (Lecturer) de Direito Público em Brunel University, no Reino Unido. É doutor em Direito pelo Birkbeck College, mestre e bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É membro honorário do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), e colaborador de Paz e Esperança, uma organização cristã de defesa dos Direitos Humanos na América Latina. É membro da  Diretoria Nacional da Aliança Bílbica Universitária do Brasil (ABUB), e membro fundador da Rede Cristã de Advocacia Popular, a RECAP. É casado com Priscila Vieira, com quem é autor de Imagens da América Latina: Mídia, Cultura e Direitos Humanos, e pai de Aurora. Torcedor do Flamengo. Siga no Instagram e Twitter: @mvdematos.  Siga também a página do Blog Dignidade, no Facebook. As opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade exclusiva do autor.

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  1. Parabéns, Marcus, por este testemunho sensível e gracioso. Já está transformando a dor em compaixão pelos imigrantes. E cultivando o legado de teu sogro. Por isto o amor é mais forte que a morte. Eu também sempre me emociono com a sabedoria das crianças que conseguem viver plenamente porque não fogem da dor e tem uma relação íntima com a transcendência. Por isto quem não se fizer como criança…

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