Em resposta a cinco teses políticas do teólogo reformado Franklin Ferreira

 

005_TiberiusEste texto faz parte de uma série que se iniciou, aqui no Blog Dignidade!, rebatendo algumas teses teológico-políticas que, em linhas gerais, sustentam a ideia de que Socialismo e Cristianismo são concepções de mundos necessariamente concorrentes e ideologicamente incompatíveis. O primeiro post da série, A idolatria do(de) Mercado: contra a teologia política neoliberal, está disponível aqui. Na sequencia, quero continuar demonstrando os problemas da posição ideológica do teólogo cristão reformado Franklin Ferreira, a partir daquilo que aponto como sendo sua segunda tese. Talvez o epicentro do problema fique mais claro quando analisarmos aqui o que podemos identificar como sendo a tese principal para os dois textos[1] do autor. Podemos resumi-la da seguinte maneira:

 

2) O socialismo, o fascismo e o nazismo são incompatíveis com o Cristianismo porque requerem “fidelidade religiosa” ao Estado, e isso é idolatria; enquanto o capitalismo e o liberalismo econômico não o requerem.

 

Há quatro problemas distintos nessa tese para os quais gostaria de chamar atenção. O primeiro está no fato de que ela inverte o argumento da idolatria moderna, capitalista e liberal – o chamado “fetichismo da mercadoria” –, ao omitir outra entidade que requer fidelidade religiosa, para além do Estado: o dinheiro. O segundo, decorrente do primeiro, está no uso que o autor faz da noção de ideologia[2], sem explicar o que isso significa, e se colocando fora do alcance do termo – como se ele servisse apenas para denunciar ideologias opostas aquela do liberalismo econômico. É a partir desse posicionamento fora da história que Franklin propõe associar e equivaler ideologias políticas muito diferentes (socialismo, fascismo e comunismo), como se fossem semelhantes entre si. O terceiro problema está no uso que o autor faz da teologia de Karl Barth, como que corroborando sua tese. Já o quarto e último que vou discutir, se refere ao o argumento de que o uso da noção de “progresso” por correntes políticas diferentes, inclusive entre cristãos no Brasil, prova a equivalência ideológica entre elas.

 

Os outros dois problemas que posso apontar como implícitos nesta tese de Franklin se referem a maneira como pressupõe, sem dizer, uma teoria do estado[3] sem uma teoria do direito[4] – problema típico de quem parte de uma teologia calvinista e adere ao liberalismo econômico sem reservas. No entanto, para não estender demais este texto, vou me deter aos quatro primeiros problemas, que considero mais importantes. Vale destacar, ainda, que há pontos nos dois textos de Franklin com os quais tenho plena concordância. Dentre eles, subscrevo as palavras do autor de que “o autoritarismo e o totalitarismo precisam ser resistidos pelos cristãos, por todos os meios legítimos”. Também concordo que é “incompatível alguém declarar que adora a Deus como o Senhor (…) e tornar-se servil a um Estado iníquo”, o que implica tornar-se “o lacaio sagrado do governo”. A única questão que levanto aqui é, obviamente, o que torna um (ou todo) Estado iníquo. Ao abraçar o modelo de estado sacralizado pelo liberalismo econômico, o autor pode estar cometendo o mesmo erro que vários marxistas cometeram ao longo da história: perder a capacidade de identificar o mal[5].

 

É curioso o uso que o autor[6] faz aqui da relação entre a “fidelidade religiosa” ao Estado e o pecado da idolatria, como sendo característica exclusiva de regimes totalitários. Digo isso porque a acusação de idolatria, no contexto moderno, me parece ter ficado mais conhecida quando disposta no sentido contrário: é justamente o pensamento marxista[7] que levanta a acusação de idolatria contra as explicações (i)lógicas (ou ideológicas) do livre mercado, baseadas no valor mágico que toda mercadoria adquire, ao se apropriar do valor do trabalho que é nela embutido. No entanto, me parece que tanto Franklin, quanto o pensamento marxista ortodoxo, se afastam deste conceito – da mercadoria como ídolo – e localizam o problema não na realidade da idolatria mas, sim, no plano ideológico[8] que derivaria dela.

 

Partindo dessa leitura, o autor acaba inevitavelmente incorrendo em outros erros. Um deles é sustentar a ideia de que apenas os regimes totalitários requerem “o homem inteiro”[9] para si e, portanto, seriam incompatíveis com a fé cristã. Ao tomar esse rumo, Franklin esquece que o capitalismo e o liberalismo econômico também impõem seus mitos ao ser humano e, em troca, requerem sua – ou sua alma: o principal destes ídolos é o dinheiro; no amor a ele, está a “a raiz de todos os males” (I Timóteo 6:8-10). No dinheiro, e no seu simbólico lastro, estaria embutido, personificado, não apenas o valor de troca imaginário da mercadoria, mas também a encarnação direta do trabalho humano, um valor encarnado[10].

 

O fetichismo da mercadoria, então, é um tipo de “esquecimento duplo”: primeiro, “o capitalista esquece que foi ele, e sua tribo, quem transformou a vida e o valor em mercadoria, em um ritual de troca”. Depois, para que esse tipo de feitiçaria funcione, é necessário que sua existência seja negada, e depois de esquecida: a mágica mais profunda da idolatria da mercadoria é a negação de que ela funciona por feitiço.[11] Segundo a crítica da crítica marxista, expressa por exemplo na obra de W.J.T. Mitchell, o moderno cristão iconoclasta, entregue ao liberalismo econômico, é exatamente um idólatra: Adam Smith não é apenas seu Moisés, mas também seu Lutero; e a idolatria da mercadoria a qual está entregue é um “monoteísmo iconoclasta capaz de destruir todos os outros deuses”[12], menos um: Mamon, seu ídolo, para quem “ele reza não apenas com seus lábios, mas com toda a força do seu corpo e de sua alma”[13].

 

Porém, a idolatria da mercadoria não é o único mito que o liberalismo econômico propaga. Para quem já estudou as teorias liberais clássicas, é comum encontrar nelas o que se denomina “explicações do tipo mão-invisível[14]: ideias as quais os autores atribuem uma capacidade fundante, mas que não podem ser, de fato, provadas ou mesmo explicadas convincentemente, precisando ser aceitas como premissas. Sem nesses mitos liberais; sem o duplo esquecimento mágico da idolatria da mercadoria; sem dobrar o joelho diante de Mamon, o liberalismo econômico é incapaz de funcionar – basta observar, na prática, seus resultados econômicos nos países para os quais o liberalismo econômico foi exportado à força, sob domínio colonial.

 

Já o segundo problema com esta tese de Franklin Ferreira, é resultado da empreitada histórica forçosa do autor, para redefinir os conceitos de esquerda e direita, igualando todos os seus opositores no primeiro lado do embate político – para compreender esta estratégia, veja o primeiro post nesta série, disponível aqui. Franklin tenta demonstrar que haveria uma identidade ideológica entre os ideários socialistas, comunistas, fascistas e nazistas. Este argumento, reproduzido em vários espaços na internet, tem sido amplamente divulgado pela direita (neo)conservadora e neoliberal brasileira, provavelmente para se livrar da pecha de totalitária. O grave equívoco dessa posição é que ela não resiste e uma mínima visita a fontes primárias – como demostrarei a seguir.

 

Antes, uma ressalva: o fato de que as diferenças entre as posições políticas acima citadas seja significativa, não quer dizer que durante o século XX não tenham existido pessoas que circularam entre uma posição e outra: há vários casos de pessoas que trocaram de lado no espectro político, deixando o liberalismo e o conservadorismo cristão pelo nazismo (caso de Carl Schmidt[15]); ou integralistas e fascistas que viraram comunistas ou socialistas (casos de D. Helder Câmara[16] e Abdias do Nascimento[17]); e mesmo comunistas que viraram fascistas ou liberais (como é o caso no Brasil do General Golbery do Couto Silva[18]), exemplarmente, o próprio Benito Mussolini. Esse último, no entanto, é paradigmático para a diferenciação da posição socialista daquilo que se denominou posteriormente de Doutrina do fascismo. Nas palavras do seu fundador:

 

Quando, no agora distante Março de 1919, eu convoquei uma reunião em Milão (…), eu não tinha nenhuma posição doutrinaria em minha mente. Eu tinha vivido a experiência de apenas uma doutrina – aquela do socialismo, desde 1903 até o inverno de 1914, ou seja, por uma década. Mas mesmo tendo tomado partido no movimento, primeiro nas bases e fileiras, depois como líder, eu não tinha nenhuma experiência da doutrina Socialista na prática. Minha própria doutrina, mesmo neste período, sempre foi uma doutrina da ação. (…) Depois da Guerra, em 1919, o Socialismo já era uma doutrina morta. (…) O Fascismo não era o cultivo de uma doutrina trabalhada previamente com elaboração detalhada; ele nascia da necessidade de ação e foi desde o princípio muito mais prático do que teórico; não era meramente outro partido político mas, mesmo nos seus dois primeiros anos, se opunha a todos os partidos políticos como tais e era em si um movimento vivo. (…) Agora, não é algo singular que mesmo naquele dia na Piazza San Sepolcro a palavra “corporativismo” tenha surgido e que, depois, no curso da Revolução, tenha se tornado a expressão criativa da legislação social e fundação do próprio regime?”[19] (grifo do autor)

 

 

Uma vez que a maior expressão doutrinária do Fascismo, o fascismo italiano, nega sua relação com o socialismo, nos resta, apenas para dar seguimento a argumentação, observar se pode haver alguma relação teórica entre o socialismo e o Nacional Socialismo – ou nazismo. Hoje há dentre os historiadores quem diga, baseado em declarações supostamente privadas de Hitler a testemunhas de sua confiança, que este acreditava que o Nacional Socialismo era uma forma superior de socialismo – diferente, por exemplo, do que ele chamava de “Socialismo Judeu Bolchevique”[20]. Essa visão, no entanto, é fortemente desacreditada pela maioria dos historiadores do período[21]. Entretanto, ainda que assumíssemos a primeira posição, revisionista, isso não prova, por si só, que há uma convergência teórica entre as duas coisas.

 

Afinal, no contexto em que os nazistas se afirmavam detentores dos ideais socialistas (e, pasme, por vezes também dos valores cristãos!), outros grupos também reivindicavam o mesmo direito. Neste sentido, é muito interessante observar a posição do líder social democrata Otto Wels, quando se posiciona contrário a aprovação, pelo parlamento Alemão, da legislação de exceção que, finalmente, entregaria aquele país aos nazistas. Segundo Wels, a única relação entre a revolução promovida pelo partido Nacional Socialista e o socialismo, é que “ambos tentaram destruir o movimento social democrata que, por mais de duas gerações, tem sido o verdadeiro guardião das ideias socialistas, e assim permanecerá”.[22] E nada mais.

 

Além de insistir no uso inadequado, portanto, dos termos socialismo e fascismo como sinônimos, Franklin comete também outro equivoco curioso nesta tese: utiliza Karl Barth, o famoso teólogo suíço que se opôs ao nazismo, e foi redator da Declaração Teológica de Barmen[23] – um texto absolutamente crítico aos cristãos que aderiram ao regime nazista (ou nacional-socialista) –, como opositor de qualquer doutrina socialista. Ao contrário disso, Barth pode ser descrito, desde sua juventude, como alguém que “já criticava o militarismo alemão, e fazia isso de dentro da tradição socialista e democrática Suíça, citando os reformadores Suíços como precursores deste tipo de entendimento [político-teológico]”[24]. E, também na contramão do retrato que Franklin tenta traçar de Barth, sua teologia protestante demonstra, desde seus primeiros escritos, uma “estreita conexão com o tema do socialismo”, onde se encontra também a “fundação da própria crítica de Barth a identidade nacional”[25], e à subserviência da Igreja ao Estado.

 

Diferente da barulhenta oposição de Franklin ao socialismo, que acompanha sua clara e inequívoca adesão a ideologia do liberalismo econômico, Barth mantinha sua oposição aos dois sistemas políticos econômicos vigentes após a Segunda Guerra Mundial e, especialmente, a política internacional dos Estados Unidos da América (EUA) que incendiava a Guerra Fria, e que ele classificava de irresponsável. Em sua correspondência sincera sobre o tema, endereçada a um pastor na Alemanha Oriental, e publicada anos depois, ele dispara:

 

Como eu poderia escrever [esta carta] a você, sem revelar que eu desaprovo da mesma maneira o espírito, as palavras, os métodos, e as práticas tanto do sistema no qual você vive; quanto os poderes e domínios que nos governam aqui, no Ocidente?”[26]

 

 

O Cristo de Thorvaldsen

O Cristo de Thorvaldsen

 

No mesmo sentido, Barth prossegue demonstrando ao seu interlocutor na Alemanha Oriental – portanto, sob um regime comunista e totalitário, ligado diretamente a extinta União das Republicas Socialistas Soviéticas (URSS) – que seria um erro considerar que apenas ao lado leste da Cortina de Ferro haveria uma “representação única e encarnada”[27] do Anticristo. Este argumento me parece um dos mais interessantes do autor. Para Barth, é um erro dos cristãos acreditar que o opositor de Cristo se manifestaria como um regime político ou Estado opressor, totalitário – um erro por demais comum na história da Igreja. Para ele, o Anticristo se revelaria como algo muito mais sedutor para a igreja; algo tão sedutor e protetor dela, que poderia ser confundido com a mais bem elaborada representação do próprio Cristo[28]. Nesse sentido, tanto as ideologias marxistas, quanto o liberalismo econômico, poderiam cumprir o mesmo papel. No texto, Barth faz menção aos “poderes do ocidente”, ou do “Oeste”, para se referir aos EUA; e aos poderes do “Oriente”, ou do “Leste”, para se referir a URSS. Barth termina, inclusive, sugerindo que o totalitarismo declarado da URSS teria paralelos no totalitarismo silencioso dos EUA[29]. Transcrevo na íntegra este trecho de Karl Barth:

 

Você provavelmente sabe que as pessoas no século XVI falavam dos Turcos e do Papa como um Anticristo oriental e um ocidental. Eu prefiro não utilizar esse termo, nem para me referir aos poderes do Leste, nem aos poderes do Oeste. Nem a Hitler, no seu tempo, eu me referi dessa maneira. Eu entendo que o “anticristo” será mais inspirador e mais convidativo, porque mais amigável e mais convincente no seu caráter do que o Papa ou os Turcos do século XVI, ou o maldito Hitler, ou os dois antagonistas contemporâneos. O verdadeiro anticristo será muito mais difícil de se distinguir de Cristo do que qualquer um desses; de fato, ele será um tipo de figura de Cristo. Quem sabe, talvez de alguma maneira nos lembre uma humilde e gentil representação de Cristo como aquela do Thorwaldsen. (…) Eu trago a memória esses antigos antagonistas porque uma coisa é certa: não é possível interpretar o comportamento particular e as atividades dos poderes contemporâneos do Leste no país onde você vive como representando a única e certa personificação do incansável adversário da Cristandade. Os poderes atuais do Oeste tem pelo menos um ponto em comum com os do Leste, porque eles também, da sua maneira, tentam dissuadir a Igreja Cristã de ser a Igreja. Fazem isso quando tentam silenciar a corajosa e ressonante proclamação [do evangelho], tão estranha e perturbadora ao mundo, de que o Reino de Deus está próximo de nós e que será finalmente revelado a todo o mundo, e que Seu Reino será supremo e vitorioso sobre todas as formas de vida econômicas, políticas, ideológicas, culturais e mesmo religiosas. (…) Um espírito antagonista, e seu poder, trabalham poderosamente contra este testemunho não apenas no Leste, mas também no Oeste; não apenas no declarado totalitarismo no qual você vive, mas também no totalitarismo silencioso no qual nós vivemos“.[30] (grifo do autor)

 

 

A leitura (ideologicamente) enviesada de Karl Barth, então, consiste no terceiro problema que apontamos aqui com a segunda tese teológico-política de Franklin Ferreira. Para Barth, apesar das semelhanças entre os totalitarismos do Leste e do Oeste; e das práticas imperialistas dos dois antagonistas da época em que escreve esta carta – os EUA e a URSS; haveria, ainda assim, do ponto de vista ideológico, uma diferença qualitativa considerável entre os ideais daquilo que poderíamos dividir como direita e esquerda, liberalismo econômico e fascismo de um lado; e socialismo e comunismo, do outro. O teólogo declara, nesse sentido, que “até certo ponto o estado comunista pode ser interpretado ou compreendido como uma imagem da graça” – certamente, uma imagem “grosseiramente distorcida e obscurecida”, ele completa. Isso porque “a graça é completa, totalitária”, porém, “é graça totalitária como uma ação livre e libertadora, e não como direito[ou lei]”[31].

 

Contudo, o argumento de Franklin é mais elaborado do que isso e, para sobreviver a contradição doutrinária entre socialismo e fascismo; e a sua leitura equivocada da teologia de Karl Barth; passa, também, pelo uso do termo “progressista” pelos cristãos de esquerda no Brasil. Segundo Franklin, o termo teria sido utilizado da mesma maneira tanto por socialistas e comunistas, como também por nazistas e fascistas, o que provaria, historicamente, a afinidade entre estes grupos. E aqui está o quarto problema da segunda tese política de Franklin. A confusão que Franklin faz, no entanto, é novamente compreensível nesse caso: assim como os termos liberal e liberalismo econômico, em inglês, são frequentemente associados a sentidos políticos divergentes – como ocorrem nas disputas políticas internas dos partidos Republicano e Democrata nos EUA, onde “liberal democracy” (posição de esquerda) e “economic liberalism” (posição de direita), figuram em polos opostos, por exemplo – o mesmo acontece com a ideia de progresso.

 

Cunhada com este sentido durante e ao final do Iluminismo e da Revolução Industrial, a ideia de Progresso percorre boa parte do pensamento político do século XIX, e se cristaliza nos movimentos Positivistas do início do século XX. Assim, os ideais positivistas, e a ideia de progresso – frequentemente concebida dentro de uma lógica de evolução social, mas também associada a noções de desenvolvimento, civilização e colonialismo –, influenciam quase todas as posições políticas disponíveis no período mencionado. De maneira alguma pode se dizer que o termo “progressista” tenha sido utilizado apenas pelos sujeitos históricos descritos por Franklin: socialistas, nazistas, comunistas e fascistas. A ideia de progresso tem muito mais capilaridade do que isso e foi utilizada também no contexto dos EUA – onde, de certa maneira, “progressist[32] se opunha a “liberal” – mas também no Brasil, onde unia no mesmo escopo tanto políticos liberais quanto positivistas – excluindo dessa equação, talvez, apenas os conservadores, monarquistas e escravocratas[33] do período.

 

"The Bosses of the Senate" (Os donos do Senado), charge de Joseph Keppler, publicada em 1889.

“The Bosses of the Senate” (Os donos do Senado), charge de Joseph Keppler, publicada em 1889, representando o lobby “progressista” industrial nos EUA. As galerias, ao fundo, estavam fechadas para o povo.

 

Entretanto, é preciso deixar claro que, de minha parte, concordo parcialmente com a crítica de Franklin ao uso do termo progressista – ressalvada sua atribuição histórica equivocada aos grupos que o utilizaram – pelos problemas que trás. Mas é exatamente nesse ponto que Franklin erra o alvo: enquanto o autor se preocupa em destituir de um lugar ao sol as ideologias “idólatras” e “totalitárias” do socialismo que poderiam adentrar as portas da igreja cristã; enquanto volta sua teologia política para combater quem acredita serem os grandes inimigo da fé cristã – os Estados comunistas de Cuba, Coréia do Norte, etc[34]; erra o alvo e perde o foco daquilo que talvez seja a mais tenebrosa consequência do liberalismo econômico na atualidade: o modo de produção capitalista-cognitivo[35] e a fé consumista no progresso técnico-econômico que se associa a ele – a Técnica (ou a tecnologia)[36].

 

A formulação que considero mais impressionante e convincente do fenômeno é aquela desenvolvida na obra do sociólogo e teólogo neo-ortodoxo Jacques Ellul[37]. Segundo ele, a noção de técnica no século XX, equivaleria ao que Marx denominou de capital, para o século XIX; se em Marx o capital é “poder social”, através do qual os detentores dos meios de produção (a burguesia liberal) organizam o estado, escravizam os trabalhadores[38] e se tornam a elite da sociedade; a técnica, para Ellul, é o fator organizador de toda a existência humana, capaz de determinar as próprias prerrogativas e valores[39] com os quais a ciência, o estado, e a sociedade explicarão a realidade e serão, por sua vez, explicados; é no domínio da técnica que a utilidade e o princípio do utilitarismo liberal terão sua expressão maior, onde racionalidade e racionalismo substituirão, por fim, a própria ideia de Razão; a técnica e sua filha, a tecnologia, seriam, em resumo, a expressão máxima da adoração do homem pela obra de suas mãos.

 

Curiosamente, o socialismo é o único dos termos discutidos acima por Franklin, e também por mim, cujas origens não estão no século XIX – se descartadas as leituras doutrinárias e positivistas de sua formulação na época, tanto cristãs quanto científica. Socialismo talvez seja a única dessas concepções que remonta a ideias mais antigas do que o progresso técnico, cujas origens estão no próprio Cristianismo[40]. A esquerda cristã que Franklin rejeita é radicalmente democrática, socialista e/ou anarquista e, é bom lembrar também, esteve entre aqueles que primeiro denunciaram o totalitarismo em sua formulações nazista, fascista e estalinista[41].

 

A idolatria do dinheiro, ou o fetichismo da mercadoria, está em depositar nossa fé no dinheiro, no vil metal, na moeda. Em decorrência dessa fé nos mitos do liberalismo econômico, o dinheiro faz conosco aquilo que os ídolos fazem com os que se ajoelham diante deles: roubam-lhes a vida. Ao curvar nosso joelho diante dos mitos e deuses do liberalismo econômico, sofremos um efeito meduza, e trocamos de lugar com eles; nós nos tornamos a imagem, o ídolo, a estátua; e os ídolos e imagens, ao roubar nossa alma, adquirem vida. O dinheiro faz isso, rouba a vida de quem nele crê e deposita nele suas esperanças. Mas há quem negue esse princípio básico da fé cristã, incentivando o egoísmo, o individualismo e o acúmulo de riquezas.

 

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O dinheiro do Tributo (“The tribute money”), de Joachim Wttewaal, 1616

Talvez a grande lição que devemos aprender com Jesus Cristo, neste tema, esteja em interpretar o texto bíblico de Mateus 22:16-22 à luz de outros textos que tratam da relação com o dinheiro e as riquezas, como Mateus 6: 19-34 e Mateus 19:16-30. Quando Jesus responde aos discípulos dos fariseus e aos herodianos com a famosa frase “dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, talvez esteja ali a lição maior de que carece a teologia política e a economia liberal moderna. Frequentemente este texto é utilizado para falar da licitude (ou da obrigação) em pagar impostos às autoridades; mas talvez nos ensine algo também sobre este debate. Jesus manda entregar o dinheiro a quem nele crê, a quem o produz, a quem está estampado nele, e a quem ele pertence: os poderes deste mundo. Diz isso porque mais importante do que a lealdade ideológica a César, que assumia uma forma divina, na época, é a materialidade da ideologia, a realidade a qual ela corresponde – no nosso caso, a idolatria (do)de mercado. A ideologia é menos importante do que a realidade que a criou, onde está o objeto concreto da idolatria. Por isso, Jesus nos ensina, antes: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; Mas ajuntai tesouros no céu”.

 

 

Por: Marcus Vinicius Matos*

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*Marcus Vinicius Matos é doutorando em Direito pelo Birkbeck College, na Universidade de Londres, onde leciona Teoria do Direito (Legal Theory II and II) e Direito de Propriedade  (Property Law I – Land law). É também líder do ministério estudantil na igreja All Souls, em Londres.

[1] Nessa série de posts no blog Dignidade!, responderei a diversos argumentos de Franklin Ferreira que se encontram em 3 posts diferentes. A maioria dos argumentos, no entanto, se encontram nos seguintes posts: “Espectro político, mentes cativas e idolatria”, disponível em: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=381 ; E, com especial atenção também ao post “Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho”, disponível em: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=392

[2] Ideologia é uma das noções mais complexas utilizadas nas ciências humanas e sociais para explicar a relação entre ideias, compreensões de mundo e posicionamentos políticos. A raiz da palavra, no entanto, remonta aos debates sobre idolatria, como desenvolverei a seguir. Isso ocorre porque “a noção de idolatria é profundamente enraizada no conceito de imagem, e reabilita as disputas ancestrais da iconoclastia, da idolatria, e do fetichismo”. Cf: W. J. T. Mitchell, Iconology: image, text, ideology. University of Chicago Press, 1987, p.11. Tradução livre do autor. O termo é geralmente utilizado exatamente para discutir marxismo e capitalismo como sistemas, mas sua origem é muito anterior a esse debate, remontando as próprias noções de “perspectiva”, e “paradigma”: “It is therefore first necessary to state that although Marxism contributed a great deal to the original statement of the problem, both the word and its meaning go farther back in history than Marxism, and ever since its time new meanings of the word have emerged, which have taken shape independently of it.” – Karl Menheim, Ideology and Utopia, pp.49. No contexto cristão reformado brasileiro, o conceito mais próximo da noção de ideologia discutida aqui me parece ser a concepção de “cosmovisão”. Um exemplo interessante de como imagem e palavras podem ser associadas a cosmovisão (e também ideologia) me parece ser o trabalho do jornalista e blogueiro Allen Porto – https://allenporto.wordpress.com/cosmovisao-arteimagem/

[3] O problema com ideia de um estado liberal como delineada pelo autor é que ela pressupõe, do ponto de vista cristão, a crença num direito natural também “cristão”: “If we remain determinedly ‘theocentric’ in our interpretation of law, we must admit that we have to first know the meaning of human institutions, human justice, etc., with reference to God, and what place according to his revelation they occupy in God’s design. Only then may we probe their value for man and his conduct with respect to them. The latter can only be a consequence of the former. The relationship between God and worldly institutions must have precedence over the possible relationship between these institutions and man (…) Accordingly, it proceeds on a radically different basis from the one generally adopted by the Christians eager to work out a foundation of natural law”. A consequência disso, segundo Ellul, seria que: “This theocentric idea is essentially different from what may be called theocratic systems. The latter are relatively simple: human law is the direct expression of the will of God. “It has the gods as authors”, as Plato says. This idea is diametrically opposed to what God reveals to us. Cf: Jacques Ellul, The Theological Foundation of Law, Seabury, 1969, pp. 10.

[4] Ellul observa que a inexistência – ou o fracasso – de uma teoria do direito calvinista devido ao problema do direito natural não ser resolvido por Calvino: “The same holds true for Calvin’s theory of natural law. Influential as was his theory of the state, his theory of natural law remained a dead letter. The reason again is that this is a philosophical theory which has nothing to do with law. It is neither an explanation nor an interpretation of law, but an intellectual creation”. Cf: Jacques Ellul, The Theological Foundation of Law, 1969, pp. 19. A respeito de outros problemas contemporâneos do ensino de teoria do estado nos cursos de direito, ver: De Matos; Souza. Teoria do Estado e Globalização: Pesquisa em movimento para a crítica da dogmática. Revista da Faculade de Direito da Universidade Federal de Uberlândia, v. 41, n. 1 (2013). Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/revistafadir/article/view/18597

[5] Esta idéia é de Terry Eagleton, para quem a teoria marxista em si, não possui uma ética própria, dissociada da ética desenvolvida na sociedade Ocidental, sob influencia do pensamento cristão. Ao perder contato com essa tradição cristã e sua ética, o marxismo pode permitir as maiores atrocidades. O mesmo, no entanto, ocorre quando “humanistas” e “liberais” deixam de admitir a existência do mal, e sua estreita relação com a independência humana de Deus e dessa ética – a expressão maior disso seria o apego a noção de “indivíduo”. O perigo, segundo ele, é que “podemos deixar escapar o Khmer Vermelho do mesmo gancho onde adolescentes deliquentes foram impalados”. Cf. Eagleton, On Evil, 2007. Texto parcialmente disponível em: http://www.newstatesman.com/ideas/2010/04/evil-social-essay-human-case

[6] Nas palavras exatas de Franklin, os “cristãos não dividem sua lealdade com um Estado/partido/governo que requer fidelidade religiosa, pois os cristãos sabem que tal lealdade é idolatria”.

[7] Karl Marx, em sua obra O Capital, é possivelmente o autor que formula esse argumento da idolatria a mercadoria, acusando exatamente o sistema capitalista de provoca-la. O autor usa o termo “fetichismo da mercadoria”, que equivaleria a formas mais primitivas do fenômeno, e menos as religiões pagãs helenísticas que também foram classificadas pelos Cristãos como idólatras. No entanto, vou usar os dois temos, nesse texto, como sinônimos. Cf: “A commodity is therefore a mysterious thing (…).There is a physical relation between physical things. But it is different with commodities. There, the existence of the things qua commodities, and the value-relation between the products of labour which stamps them as commodities, have absolutely no connexion with their physical properties and with the material relations arising therefrom. There it is a definite social relation between men, that assumes, in their eyes, the fantastic form of a relation between things. In order, therefore, to find an analogy, we must have recourse to the mist-enveloped regions of the religious world. In that world the productions of the human brain appear as independent beings endowed with life, and entering into relation both with one another and the human race. So it is in the world of commodities with the products of men’s hands. This I call the Fetishism which attaches itself to the products of labour, so soon as they are produced as commodities, and which is therefore inseparable from the production of commodities.” (Karl Marx, Capital, Volume 1, 1995, pp.35 – ebook)

[8] Segundo Mitchell, a noção de “ideologia, então, que historicamente surge como uma ‘ciência das idéias’ iconoclasta destinada a derrubar os ‘idolos da mente’, termina sendo caracterizada, ela própria, como uma nova forma de idolatria – a ideolatria”. O autor continua, explicando a origem do problema: “This characterization comes not only from English reactionaries like Burke and Coleridge, but from within the heart of the Revolution. Napoleon’s expulsion of the ideologues from the leadership of the Revolution is well known; but perhaps less familiar is the psychological theory on which it was based: ‘there are some,’ Napoleon is reported to have said, ‘who, from some physical or moral peculiarity of character, form a picture (tableau) of everything. No matter what knowledge, intellect, courage, or good qualities they may have, these men are unfit to command.’ Mitchell, Iconology, pp.167. Tradução livre do autor.

[9] Franklin atribui ao teólogo Emil Brunner a seguinte formulação (não chequei essa fonte): “O Estado totalitário é, pois, ateu e antidivino per definitionem, pois reivindica para si a totalidade do homem”. A frase ecoa na minha memória no depoimento que ouvi a respeito de cristãos luteranos do sul do Brasil que foram coagidos por milícias nazistas brasileiras a optar por sua fidelidade a pátria mãe (alemã) ou sua adoração “aquele menino Judeu” – no caso, Jesus Cristo. Os cristãos das narrativas que ouvi, no Brasil, abandonaram as milícias depois disso.

[10] Esta ideia de Marx é também desenvolvida por Mitchell, para quem a mercadoria não seria apenas um símbolo ‘imaginário’ de troca de valores, mas sim ‘a encarnação direta de todo trabalho humano’, a ‘personificação’ do valor”. Cf: Mitchell, Iconology, 191. Tradução livre do autor.

[11] Idem, 193

[12] Idem, 200

[13] Idem, 244.

[14] A expressão mão invisível é atribuída a Adam Smith, cf: The Wealth of Nations, ElecBook classics, p.593. Mas a citação aqui vem do autor libertário (e de direita) Estadunidense, Robert Nozik: cf. R. Nozik, Anarchy, State and Utopia, 1974, p.18. Nozik ataca aqui tanto autores clássicos como Locke, com seu “estado de natureza,” quanto autores liberais como Friedrich Hayek. Me pergunto se a explicação do “véu da ignorância”, na filosofia liberal contemporânea de John Rawls, também não poderia também entrar na mesma categoria.

[15] Ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Schmitt

[16] Dom Helder Câmara foi um famoso bispo católico que se opôs ao regime militar no Brasil, tendo sido indicado ao Prêmio Nobel da Paz, por sua defesa intransigente dos direitos humanos na época da ditadura. O regime, no entanto, conseguiu que ele não fosse premiado através de uma campanha difamatória onde o associavam, em sua mocidade, ao Integralismo, forma brasileira de fascismo. Essa informação está em: Elio Gaspari, A ditadura escancarada, 2014. Para maiores detalhes da vida de Câmara, ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hélder_Câmara#cite_note-Avila-2

[17] Abdias do Nascimento foi o primeiro senador negro do Brasil, eleito como suplente pelo PDT em 1997. Tive a oportunidade de conviver com ele por ocasião da fundação do Núcleo Educafro Abdias do Nascimento, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Abdias abandonou a posição integralista em prol da sua militância pela causa da igualdade racial, que perpassa sua obra artística desde o exílio. Passou pelo comunismo, ainda no Brasil, quando foi preso, e finalmente entrou na política pelo PDT, na época encarado como um partido socialista e democrata. Ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hélder_Câmara#cite_note-Avila-2

[18] A informação de que Golberi foi comunista na juventude está em: Elio Gaspari, A Ditadura Derrotada, v.3, 2014. A atribuição de que tenha sido fascista não é justa, uma vez que o general talvez tenha sido o mais duro combatente dos fascistas que integravam o Exército Brasileiro durante a ditadura militar, enquanto integrava um governo que dependia justamente de uma coalizão entre forças políticas liberais e fascistas. Era, na verdade, um político extremamente pragmático. No entanto, é importante lembrar que a virada contra o fascismo nas Forças Armadas Brasileiras se dá muito em torno do fato de que o Estado Novo recusa adesão a doutrina fascista, já que Getúlio foi obrigado a se opor ao Eixo, afinal. Desenvolverei melhor essa ideia no próximo texto. Para maiores detalhes, ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Golbery_do_Couto_e_Silva

[19] Benito Mussolini, The Doctrine of Fascism, in: The Living Age, 1933, published by Political Quarterly, London, p.235-236. Tradução livre do autor.

[20] Essa visão minoritária da historiografia está perceptível aqui: Hitler e o sonho socialista. Cf. http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/hitler-and-the-socialist-dream-1186455.html (em inglês).

[21] Um dos mais respeitados historiadores do período, discorda absolutamente dessa formulação: “Despite the change of name, however, it would be wrong to see Nazism as a form of, or an outgrowth from, socialism. True, as some have pointed out, its rhetoric was frequently egalitarian, it stressed the need to put common needs above the needs of the individual, and it often declared itself opposed to big business and international finance capital. Famously, too, antisemitism was once declared to be ‘the socialism of fools’. But from the very beginning, Hitler declared himself implacably opposed to Social Democracy and, initially to a much smaller extent, Communism: after all, the ‘November traitors’ who had signed the Armistice and later the Treaty of Versailles were not Communists at all, but the Social Democrats and their allies”, Richard J. Evans. The Coming of the Third Reich. iBooks. (p.548). Disponível em: https://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewBook?id=7634CFBAAF536E85EB696B89CF116CAA

[22]The gentlemen of the National Socialist party call the movement they have unleashed a national revolution, not a National Socialist one. So far, the relationship of their revolution to socialism has been limited to the attempt to destroy the social democratic movement, which for more than two generations has been the bearer of socialist ideas and will remain so. If the gentlemen of the National Socialist Party wanted to perform socialist acts, they would not need an Enabling Law. They would be assured of an overwhelming majority in this house. Every motion submitted by them in the interest of workers, farmers, white-collar employees, civil servants, or the middle class could expect to be approved, if not unanimously, then certainly with an enormous majority.” Volume 7. Nazi Germany, 1933-1945. Speech by the Social Democrat Otto Wels against the Passage of the “Enabling Act” (March 23, 1933). http://germanhistorydocs.ghi-dc.org/pdf/eng/English_6.pdf

[23] O texto original completo da declaração está disponível aqui: http://www.luteranos.com.br/textos/a-declaracao-teologica-de-barmen Para maiores informações sobre o contexto, é interessante a página da Wikipedia de mesmo título: http://pt.wikipedia.org/wiki/Declaração_Teológica_de_Barmen

[24] Carys Moseley. Nations and Nationalism in the Theology of Karl Barth. Oxford University Press (2013), p.35. Tradução livre do autor. Grifo do autor.

[25] Idem, p.37. Segundo o autor, Barth entendia que o socialismo decorria do próprio desenvolvimento da doutrina calvinista aplicada em Genebra.

[26] Karl Barth, Letter to a Pastor in the German Democratic Republic. In: Karl Barth and Johannes Hamel, How to serve God in a communist land, Associated Press, New York, 1959., p.48

[27] Idem, p. 51

[28] A imagem conhecida como o Cristo de Thorwaldsen, citada por Karl Barth como exemplo dessa representação perfeita, é considerada como uma das mais impressionantes e bem elaboradas representações de Jesus Cristo. A imagem original está na Igreja de Nossa Senhora, em Copenhagen, na Dinamarca. Cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Christus_(statue)

[29] Talvez aqui a metáfora nos leve a algo semelhante ao termo “fascismo-gente-boa”, de Brentam Gross, que utilizei no primeiro post dessa série. Ver: http://ultimato.com.br/sites/dignidade/2015/03/04/a-idolatria-dode-mercado-contra-a-teologia-politica-neoliberal/

[30] Karl Barth, Letter to a Pastor in the German Democratic Republic. In: Karl Barth and Johannes Hamel, How to serve God in a communist land, Associated Press, New York, 1959., p.51-52. Tradução livre do autor. Grifos do autor. Também aqui podemos ver o aspecto “convidativo”, “amigável” e perigoso do anticristo, talvez próximo do “fascismo-boa-praça” que decorre do neoliberalismo atual. Ver nota 25 acima.

[31] Karl Barth, 1959, p.58. Tradução livre do autor.

[32] Para o uso do termo “progressista” nos EUA, Ver: http://www.alternet.org/story/23706/what_is_progressive

e também: http://prorev.com/proglib.htm , Finalmente, a página da Wikipedia, em inglês, também é útil: http://en.wikipedia.org/wiki/Progressivism_in_the_United_States

[33] Vou desenvolver esse raciocínio com maiores detalhes na próxima postagem desta série. Basicamente, as fontes históricas que demonstram a aproximação entre liberais e positivistas na Primeira República do, então chamado, Estados Unidos do Brasil, são acessíveis através dos seguintes textos: Gisele Silva Araújo, Tradição Liberal, Positivismo e Pedagogia: a síntese derrotada de Ruy Barbosa. Perspectivas, São Paulo, v. 37, p. 113-144, jan./jun. 2010; e também em: Paulo Bonavides, Ciencia Política, 10a edição. São Paulo, Malheiros editores, 2000.

[34] Me refiro aqui a retórica muito comum hoje em dia nos movimentos sociais de Direita no Brasil: “gosta de Cuba, mas quer ter um iPhone!”; “quer ser comunista, mas usa tênis Nike!” etc. Esse tipo de atitude acaba sendo muito revelador: de fato, como os comunistas, por assim dizer nas palavras dos seus detratores, vão resistir ao consumo e a tentação promovida pela sedutora tecnologia e seus benefícios? É possível estar nessa sociedade técnica e de consumo sem fazer parte ou tomar parte nela? Apenas como contraponto, vale dizer que há grupos de “causa única” que, por vezes, se organizam fora da sociedade, promovendo o não-consumo, ou um consumo consciente e ecologicamente comprometido – com todas as contradições que decorrem disso. Muitos desses grupos, partem de um escopo socialista e cristão, por vezes soam aos seus detratores como “hippies”. Ver, por exemplo: http://www.speak.org.uk

[35] Chamo atenção aqui para o fato de que a semelhança do atual estágio do capitalismo técnico cognitivo com o modelo libertador, e convidativo do “Anticristo” proposto por Karl Barth, que é hoje bem maior e mais universal do que as seduções dos dois “opositores” em conflito na época do autor – contando com os tênis Nike e os iPhones citados acima. Ver também: http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitalismo_cognitivo

[36] Utilizarei aqui os termos “técnica” ou “tecnologia” como sinônimos, equivalendo a tradução de “technique” do francês, conforme as divergentes traduções disponíveis do original para o inglês ou o português. Cf. Jacques Ellul, A Técnica e o desafio do Século, 1968

[37] Ellul é um autor complexo, cuja obra transcende barreiras disciplinares, e é ainda pouco conhecida no Brasil. Um primeiro esforço de discussão da obra do autor foi empreendido pelo Grupo de Estudos sobre Jacques Ellul, da UNESP: https://jacquesellulbrasil.wordpress.com ; Um dos resultados desse primeiro esforço acadêmico foi a publicação “Direito, Técnica, Imagem: os limites e os fundamentos do humano”, disponível aqui: http://culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=382

[38] Marx desenvolve a noção de capital tanto no texto do famoso Manifesto do Partido Comunista, quanto na sua obra – talvez, principal –, O Capital. Chamo atenção aqui para a realidade nua e crua do liberalismo do século XIX, a partir de onde Marx responde a assertiva liberal, de John Locke, de que é o trabalho que gera propriedade privada, contrastando a premissa com a situação dramática dos trabalhadores de sua época. Cf. Marx & Engels, The Communist Manifesto, 1874, pp. 14. Marx traça uma descrição detalhada do processo através do qual os trabalhadores do século XIX perdiam sua liberdade, a partir da comparação do extasiante número de horas trabalhados por eles e o salário pago; e aponta para a assertiva de que, no liberalismo econômico, não há direito, sendo o sistema regido por “apenas uma lei”: “a troca de mercadorias”. Cf. Karl Marx, Das Capital, v.1, 1867, pp.224. Tradução livre do autor.

[39] Hannah Arendt, em um de seus textos mais famosos, faz questionamentos muito semelhantes ao e-maravilhamento da humanidade com os desenvolvimentos técnicos e tecnológicos do século XX. Sob o domínio técnico, “passaremos, sem dúvida à condição de escravos indefesos, não tanto de nossas máquinas quanto de nosso Know-how, criaturas desprovidas de raciocínio, à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível, por mais mortífera que seja.” Cf. Arendt, A condição humana, 2007, p.11.

[40] Nos próximos post desta série desenvolverei essa noção tentando resgatar, inclusive, a histórica controvérsia entre os Franciscanos e o Papa sobre se Cristo tinha ou não direito de propriedade sobre suas roupas.

[41] Novamente, a narrativa da vida de Jacques Ellul nos ajuda, com o exemplo alguém que viveu o que pregou, e pode ser tomada no próprio sentido cristão da palavra testemunho. Ellul lutou na resistência francesa contra o Nazismo e seus aliados na França, o governo Vichy. Após a denúncia do totalitarismo soviético nas décadas de 1960-1970, Ellul teria sido questionado como marxista e cristão, a respeito de sua posição a respeito do estalinismo soviético e, supostamente teria respondido que aqueles que foram os primeiros a rejeitar o estalinismo, não precisam sequer ter dúvidas em rever sua posição. Parte dessa narrativa está disponível aqui: https://curlewriver.wordpress.com/2012/10/19/ellul-what-i-learned-from-marx/

A página da Wikipedia também em inglês também trás informações interessantes sobre a vida do autor: http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Ellul