Por Phelipe Reis

Já passa das cinco da tarde. Acomodo-me em um banco às margens do maior rio do mundo, o Amazonas. Uma brisa fresca e suave bate no meu rosto, amenizando o calor da tarde. À minha frente, uma canoa desliza nas águas barrentas de onde o pescador tira cotidianamente o seu suprimento. No horizonte, por detrás do muro verde e vivo, o Sol se debruça, esparramando seu brilho e formando um imenso espelho dourado. Sem linguagem e sem palavras, o que esse espelho e esse cenário poderiam refletir se não a glória de Deus?

Por do sol visto da margem direita do rio Amazonas, em Parintins. [Foto: Eduardo Melo]

A cena oferece elementos suficientes para inspirar canções de adoração ao Senhor, que dariam para compor inúmeros álbuns. Entretanto, a minha realidade local não é essa. Influenciados pela indústria cultural gospel, observo igrejas de comunidades ribeirinhas na Amazônia com liturgias recheadas dos “hits do momento”, geralmente traduções do inglês, pobres em criatividade, poesia e beleza, porém ricas em clichês e jargões de uma espiritualidade alienígena e descontextualizada, totalmente desconectada da vida amazônica cotidiana. Infelizmente, alguns parecem não ter olhos para ver e nem lábios louvar a presença, a glória e a boa mão de Deus, refletidas “no rio, no pescador, na floresta, na passarada, nos tambaquis, nos açaís, nos dias bons ou ruins do nosso lugar”.

A realidade me leva a questionar: onde é mais fácil perceber a glória de Deus? No “lugar secreto” e na “sala do trono”, ou na viração do dia, quando o Sol se deita no rio e seus raios dourados espelham sobre as águas? Enquanto os dois primeiros “lugares” me parecem remeter a algo distante e de difícil acesso, o cenário da criação me sugere o ambiente perfeito para contemplar a glória de Deus. E isso não é invenção minha, o salmista já disse que “A glória de Deus viaja pelos céus, as obras de arte de Deus estão expostas no horizonte.” (Salmo 19.1, Bíblia A Mensagem).

Um dos pilares do cristianismo é auto revelação, ou seja, o fato de que Deus escolheu se revelar à humanidade. Entretanto, muitas das músicas cantadas em nossas igrejas estão repletas de expressões que fazem alusão ao templo, ao santo dos santos, à sala do trono, como se Deus estivesse distante. Se o que cantamos reflete o que pensamos, nossas músicas mostram que estamos adorando um deus diferente do Deus Emanuel, que vive por meio do Espírito Santo naqueles que o reconhecem como Salvador, que se encarnou e se revelou ao mundo na pessoa de Jesus Cristo, e cuja obra nos permite um relacionamento pessoal com Pai, descartando a exigência de experiências místicas, como em religiões esotéricas.

Talvez, há quem pense que Deus gosta de brincar de esconde-esconde, mas as Escrituras Sagradas mostram que Deus tem prazer em ser conhecido. Logo, para encontrá-lo, não é necessário sacrifícios ou demasiado esforço, pois ele está perto e suas obras, glória e atributos estão escancarados na beleza da sua criação.

A situação é bastante contraditória, pois boa parte do conteúdo das músicas cantadas nas igrejas até já são assimiladas por aqueles que costumam frequentas os cultos, mas para quem nunca foi a uma igreja fica difícil entender o “evangeliquês” das músicas, o que compromete a comunicação da mensagem que a canção se propõe a transmitir.

Alunos da turma de música do CTL

Pensando neste desafio, levamos o assunto para discutir com um grupo de jovens líderes de comunidades ribeirinhas e indígenas, alunos do Centro de Treinamento de Líderes (CTL), da Primeira Igreja Batista de Parintins (AM). Os jovens trabalham com música em suas igrejas locais e participam a cada dois meses do CTL, que tem como objetivo treinar e capacitar missionários autóctones na região do baixo Amazonas. No último módulo, que aconteceu no final de novembro, os alunos da turma de música usaram textos da revista e do portal Ultimato para discutir o tema “música e missão”, no intuito e analisar as letras das canções cantadas nas igrejas e como trabalhar canções que sejam mais contextualizadas à realidade de suas comunidades.

Ao final da discussão, a turma foi desafiada a compor canções com letras que valorizem elementos do seu cotidiano, na tentativa de comunicar melhor a mensagem bíblica às pessoas de suas comunidades que ainda não conhecem o evangelho. Em resposta ao desafio, um dos grupos criou um “corinho” que diz assim: “Cantai, Amazonas, ao Senhor, filhos de Deus / Cantem de glória em glória, em louvor ao seu nome / Adorai, cunhantã, curumim, apesar do maruim / Só o Senhor pode mudar a vida do caboclo, pé-inchado”.

Aqui no interior do Amazonas, o por do sol que vejo às margens do rio é uma tela perfeita que silenciosamente grita a glória de Deus. E você, como e onde consegue perceber a glória e os atributos de Deus no local em que vive?

Glossário
Cunhantã: menina.
Curumim: menino.
Maruim: mosquito bem pequeno que aparece na beira rio no tempo da estiagem.
Pé inchado: bêbado.

• Phelipe Reis é amazonense, missionário e jornalista. Casado com Luíze e pai da Elis. É representante do Paralelo10.

  1. Grande Phelipe, mais um artigo que mostra o além das 4 paredes. E nessa nossa região é o que mais podemos usufruir. De imagens, nossa terra é coberta de fatos que nos fazem perceber a existência do Criador em todas as suas qualidades. Quanto à forma de exprimir em letras e sons, de fato, o que se tem de experiência é sempre em nível importação. Ótima iniciativa de levar a pauta aos alunos de música e desafiá-los para a criatividade, com termos locais. Gostei do resultado e ri bastante do pé inchado. Abraço irmão e continuo acompanhando o Paralelo 10.

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