Por Maurício Avoletta Júnior

Há anos atrás, muitos diziam que certos grupos implantaram uma lógica dualista na mentalidade brasileira, a lógica do “nós contra eles”. Se olharmos friamente, veremos que essa rivalidade entre “nós” e “eles” é real, mas não é exclusividade nossa. Ela surge com um evento descrito no Gênesis da Bíblia judaico-cristã. Nesse evento, somos apresentados à Queda da humanidade. A partir dela, o ser humano se tornou avesso ao seu próximo quando este não o adorava acima de todas as coisas. Um dos pressupostos mais essenciais da antropologia bíblica é de que o homem, ao rejeitar Deus e passar a adorar a si mesmo, tornou-se um ídolo. Essa auto-idolatria torna o homem como qualquer outro ídolo: morto, avesso a outros ídolos, avesso a Deus. Mais do que “nós contra eles”, depois da Queda temos um “eu contra o mundo”.

Nas eleições de 2018, tivemos um pequeno exemplo prático de como esse problema está atrelado não à nossa cultura, mas à nossa natureza corrompida. Vimos nosso país se dividir num embate bélico entre “comunistas” e “conservadores”, direita e esquerda, “nós” e “eles”. Presenciamos Igrejas se dividindo, estruturas familiares ruindo, amizades acabando. Em nome da política, vimos um exemplo claro do que é o fim da política: quando tudo se torna político, não há mais política. Hoje, em pleno 2022, com as eleições presidenciais chegando e, com isso, a iminência de uma nova variante de 2018 batendo à porta, muitas pessoas têm entrado em estado de sítio, por medo de viver novamente aquele ambiente de brigas e divisões. É comum encontrarmos muitas pessoas buscando a resposta cristã para diversos problemas da sociedade ou para questões existenciais e, tendo isso em mente, pretendo falar sobre aquela que entendo ser a única resposta ao problema da divisão que existe no seio de nossas Igrejas: a ética cristã.

Pode parecer algo simplista, mas não é. A ética cristã é uma ética extremamente radical pois, ao mesmo tempo que abre espaço para diálogo, não o faz com o intuito de fazer concessões, mas de apresentar a única verdade: Cristo. O cristianismo dialoga, mas não cede. Não pode ceder. Nosso dever é procurar a verdade que reside em todas as ideias e, a partir dessa verdade, expor a mentira. Entretanto, o trabalho mais difícil é o de dialogar. O teólogo alemão Joseph Ratzinger disse certa vez que “a verdade é ‘lógos’ que cria diálogos e, consequentemente, comunicação e comunhão”. Jesus é a verdade e, portanto, é também a ponte que nos conecta com nosso próximo. Ele é a chave para quebrar a idolatria que a antropologia bíblica aponta como surgida na Queda.

A ética cristã é sub specie aeternitatis, ou seja, “do ponto de vista da eternidade”. Nossa ética não trabalha com a realidade presente, mas com uma futura. Ela é definida pela escatologia. Somos cidadãos da nova Jerusalém e, portanto, agimos segundo as regras e preceitos da pátria eterna, não da terrena. Quando Cristo nos libertou do reino das trevas, ele nos mostrou que todo ser humano é passível de redenção. O discurso dualista, portanto, se torna inviável. Não há um “eles contra nós”. Só há “nós”. Todos estão mortos, todos pecaram e todos precisam da misericórdia de Deus para voltar a viver. Não foi apenas Adão ou Eva que pecaram. A culpa não é deles, é nossa. Os patriarcas da humanidade não são exemplos, são espelhos. Faríamos a mesma coisa se fossemos nós naquele jardim. Isso nos mostra que, de fato, não há um “eles”. O problema somos nós. Sempre foi. Entretanto, quando Cristo toma nosso lugar, quando nos tornamos pequenos Cristos, isso precisa mudar drasticamente.

Quando Cristo passa a ser centralizado, passa também a existir unidade, a verdadeira. Não um pensamento homogêneo em uma massa informe de pessoas iguais, mas uma convivência entre diferentes que clamam em uníssono: Maranata! Diante das dificuldades da unidade nós acabamos brigando e nos dividindo, nós manifestamos publicamente, não que somos imagem de Cristo para o mundo, mas que somos imagem de escândalo. Se não somos Cristo, somos pedra de tropeço. Esse ano, provavelmente, teremos algo pior daquilo que tivemos em 2018, mas não importa. O dever da Igreja permanece: amar o próximo como a si mesmo. Ver dignidade em todos os seres humanos assim como Cristo viu dignidade em nós. Precisamos, diante das dificuldades impostas à unidade, ser Cristo, não escândalo. Lembrar que fomos todos criados à Imagem e Semelhança do Deus sofredor é lembrar que há possibilidade de redenção para todo e qualquer um que bater à porta.

  • Maurício Avoletta Júnior, 26 anos. É membro da Igreja Batista Lagoinha Mineirão (BH). Marido da Amanda Almeida, teólogo formado, filósofo em formação e literato de nascença; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.