Por Helen Teixeira

There’s a lot of beauty in ordinary things. Isn’t that kind of the point?
– Pam Beesley

Em tempos pandêmicos, me juntei a toda uma geração de “fãs atrasados” de séries que já acabaram há muito tempo. Finalmente ouvi as dicas dos amigos e maratonei séries como Community e The Office. Essa última me surpreendeu com uma dose de graça comum e de reflexão sobre a minha própria vida que não achei que encontraria em uma sitcom, e é sobre isso que quero falar aqui.

Ok, se você já se arriscou a assistir The Office, pode até estranhar o uso desses termos. Claro que muitas vezes eu me contorci no sofá de vergonha alheia de algum discurso público inapropriadíssimo do Michael, ou ri de nervoso de algum comentário bizarro do Dwight ou pegadinha do Jim. Mas também, de alguma forma, vi nesses personagens vislumbres de uma verdade que, embora óbvia, só aparece quando a gente para pra realmente perceber.

A série acompanha o dia a dia de um escritório de uma empresa média, meio sem graça, que vende papel e está em decadência com o boom da revolução digital. A história se passa numa cidade pequena e todos os personagens são… normais. Nenhum deles é incrível e nada de extraordinário acontece. São só pessoas comuns, trabalhando e estudando, construindo amizades, relacionamentos, carreiras, errando e acertando. Comemorando pequenas vitórias e lamentando pequenos fracassos. Ora sendo amigos leais, ora errando e decepcionando uns aos outros… tudo de forma simples e ordinária. 

E mesmo assim, somos envolvidos nessas histórias, nos simpatizamos com os personagens, rimos e choramos com eles. O mérito da equipe de roteiristas, ao meu ver, além de nos fazer morrer de rir e de constrangimento com as piadas características, é também conseguir apontar para a beleza dos relacionamentos simples, humanos e ordinários, que acontecem na rotina monótona de cada um. Ao invés de mostrar esses relacionamentos de forma romantizada, exagerando algum sentimentalismo idealizado, acredito que o que The Office faz é lançar uma luz, nos revelando uma beleza singela que já estava ali o tempo todo, só precisava ser notada. Existe muita vida em um cotidiano comum.

Acredito que nossa geração tem dificuldade para perceber isso. Fomos treinados para ter vontade de grandeza. Sabe aquele ímpeto de querer conquistar algo grande, se destacar em alguma área, ser importante? Para algumas pessoas, isso significa ter uma carreira incrível e precoce, ganhar muito dinheiro, ser uma referência. Para outros, a vontade é de viver uma vida cheia de aventuras, sem endereço fixo, conhecer o mundo. Ou algo assim.

Não sei se é só uma questão geracional (alô millenials e gen z!), ou se é apenas a boa e velha vontade do ser humano de ser infinito, imortal. Como se nada fosse suficiente. E em tempos de redes sociais, com seu excesso de informação e comparação com outras pessoas o tempo todo, essas expectativas irreais se impulsionam e vivemos numa constante inquietação. Para muitos de nós, uma vida pacata como a dos personagens Jim e Pam, por exemplo, seria quase uma prisão.

 O problema é que a gente compra o pacote dessa vontade de que tudo na nossa vida seja incrível, e ganha de brinde um bocado de frustração e, principalmente, descontentamento. Na sombra do que a gente queria ter, mas ainda não tem, aquilo que está diante de nós perde o brilho e a cor. A verdade é que, se não aprendermos a encontrar alegria onde estamos agora, mesmo na monotonia da vida ordinária, e não em uma expectativa idealizada de futuro, estaremos sempre ingratos e ansiosos. Precisamos treinar nosso olhar para captar os vislumbres de beleza e significado que existem até nas atividades mais banais do nosso dia a dia. 

Como cristãos, essa disciplina do olhar faz parte da nossa missão. A gratidão é a principal marca da vida cristã, é a consequência direta de saber que temos um pai amoroso que tem nossas vidas e toda a História na palma de suas mãos. E quando compreendemos que Deus é o criador e redentor de todas as coisas, a realidade passa a ter significado, e todas as atividades, até as mais cotidianas, são iluminadas com a compreensão da graça de Deus. Jesus nos convida a uma caminhada de fé, amor e esperança com ele, e essa caminhada acontece em dias comuns, de 24 horas, na rotina normal.

Não me entenda mal: não quero dizer que devemos ser acomodados e preguiçosos, “enterrando” nossos talentos dados por Deus e vivendo uma vida medíocre. Meu ponto aqui é que simplesmente não podemos esperar que nossa vida só faça sentido a partir de quando alcançarmos tal sonho, ou tivermos aquele momento especial ou aquela super realização. Nossa história não precisa de feitos extraordinários para ter significado.. 

É num cotidiano comum, com constância e fidelidade, que servimos a Deus e ao nosso próximo, que desfrutamos da criação, que desenvolvemos nossa vocação e nos relacionamos com nossa família e amigos. Quando fazemos tudo isso com consciência da presença de Deus, real, aqui e agora, a vida mais normal passa a ser uma janela aberta, mostrando vislumbres da Eternidade para a qual realmente fomos criados. E então, cozinhar, arrumar a casa, ir pro trabalho (mesmo que seja num monótono escritório de 9h às 17h, vendendo papel), tudo isso passa a ser uma oportunidade de se encontrar com nosso Criador e com o propósito para o qual fomos criados. A vida real passa a ser suficiente.

Portanto, pare e pense nessa realidade: Deus está aqui. Agora, enquanto eu escrevo esse texto num domingo comum, depois de tomar tereré e conversar com meu marido. Deus está aí, enquanto você lê esse texto, onde quer que você esteja. Deus está com a gente numa terça-feira à tarde, preenchendo planilha do escritório; ou na aula de quinta-feira de manhã. Ele está no almoço na casa dos tios no domingo e no happy hour com os amigos na sexta. Isso muda tudo. Nesses dias normais, de 24 horas, semana após semana, nos encontramos com sua graça. Que tenhamos olhos para ver a beleza da vida comum e vivê-la com gratidão.

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