*Versão ampliada de entrevista publicada na edição 380 da revista Ultimato (nov/dez 2019).

#AltosPapos

Marília, 25, e Lucas, 23, casaram-se há quase um ano. Ela estudou em Aracaju, SE, onde concluiu o mestrado em história. Ele é bacharel em ciência e tecnologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Conheceram-se no ambiente da Aliança Bíblica Universitária (ABU). Marília, que era levada à igreja por suas vizinhas, aos cinco anos atendeu ao apelo para “conhecer Jesus e tê-lo em sua vida” e não voltou atrás. “Barbosa”, como é chamado, nasceu em família evangélica, mas foi durante o ensino médio que, “confrontado e constrangido pela graça e amor de Deus”, deixou de ser um adolescente tímido e triste para ser visto como alguém alegre. Ele foi primeiro, depois ela. Mudaram-se para a Grota da Alegria – mas não foi uma mudança qualquer…

Como vocês foram parar na Grota da Alegria?

Em 2018, recebemos o convite do pastor Roberto Diamanso, da Igreja Presbiteriana do Brasil em Benedito Bentes, Maceió, AL, para nos mudarmos para a cidade. Chama-se grota porque é descendo. É uma comunidade com cerca de 10 mil pessoas, que fica num bairro marginalizado, cujo nome as pessoas têm até mesmo vergonha de dizer. Habitar entre os pobres e compartilhar o evangelho nas relações já era algo que Deus tinha colocado em nosso coração. Nesse processo conhecemos o MoveIn, movimento iniciado há cerca de dez anos no Canadá, e acabamos nos ligando a ele.

O que é o “Muda-te”?

É uma visão para cristãos “comuns”, que não precisam ter um chamado para dedicar-se exclusivamente a uma obra missionária formalizada, mas que têm em seu coração o desejo de servir a Deus com sua vida. Seu propósito é incentivá-los a se mudarem para vizinhanças periféricas, não-alcançadas e indesejadas de cidades por todo o mundo, no intuito de que o evangelho de Cristo seja conhecido de maneira integral pelas pessoas que vivem ali.

O que os levou a fazer essa mudança radical?

O sonho de ser instrumento nas mãos de Deus para promover mudança.

Como os moradores locais os receberam?

Em primeiro momento ficaram desconfiados, pois não nos conheciam. Então, tivemos de ganhar a confiança deles. Agora, todos da área nos conhecem, o que anulou qualquer sentimento nosso de insegurança também.

Seus familiares e amigos apoiaram vocês?

Sim e não. Alguns tiveram bastante resistência, porque íamos para fora de nossa cidade de origem viver numa condição não desejável. Outros nos deram total apoio e, quando estamos cansados, sem fé, são os que nos encorajam.

Como são as experiências vividas na Grota da Alegria?

Marília: A maior alegria tem sido ver gente que não é cristã evangélica sentir-se à vontade para compartilhar como entende sua fé, além de ver as respostas de nossas orações. Uma dificuldade sempre é a falta de recursos, seja financeiro ou de pessoas para estarem conosco nos apoiando e sentando à mesa para partir o pão e compartilhar a vida conosco. Outra dificuldade foi adaptar-me às pessoas. E sempre achava que tinha falado ou feito algo errado quando elas não respondiam do jeito que esperava, mas passei a ser mais paciente e entender que todos têm seus dias bons e dias ruins.

Lucas: O que temos vivido aqui é uma experiência transcultural. Por mais aberto que eu esteja para a vida dos meus vizinhos e vizinhas, sinto as diferenças em relação à minha bagagem de vida, sempre experimentada no horizonte da classe média (com acesso a bens materiais e culturais que muitos de nossa vizinhança não tiveram) de pele branca. Embora circunscritos à mesma vizinhança, é claro que somos produtos de “Brasis” bem diferentes. Temos experimentado comunhão a despeito das barreiras e diferenças, desfrutando ambos de saberes que simplesmente ignorávamos, e nisso conhecendo mais do Cristo Jesus de Nazaré.

Como a igreja tem apoiado vocês e acolhido pessoas da comunidade?

A presença do pastor Roberto Diamanso foi importante para legitimar quem somos aqui. Ele nos apresentou às pessoas. A igreja está ciente do nosso trabalho e tem se mostrado sempre aberta a receber as pessoas da comunidade.

Vocês consideram esta uma nova forma de fazer missão?

Não, não é nova não. É uma forma antiga de fazer missão. O próprio Cristo fez assim e nos disse para fazer o mesmo. Ele desceu de sua glória e habitou entre os homens e mulheres pobres. O próprio evangelho é a boa nova para o pobre, e foi partindo o pão com Jesus à mesa que as pessoas percebiam que ele era o Filho de Deus. Do mesmo jeito, é nessa proximidade, na vivência e no partir do pão que nossos vizinhos vão entendendo melhor sobre onde encontrar Jesus. Se somos missionários? Sim e não.  Somos porque o ide do Senhor é para todos, sem restrições.  E não, porque temos nossa vida comum de trabalho.

Há outros brasileiros que também já se “mudaram”?

Sim. Recentemente no Encontro RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social) conhecemos três pessoas que fizeram esse movimento no Rio de Janeiro e que não conheciam o Muda-te.  Há também alguns amigos interessados que têm visto que é possível mudar-se. Estamos vivendo juntos essa vocação e buscando incentivar mais irmãos e irmãs a considerarem e orarem a respeito dessa visão e assumirem um compromisso semelhante. O nosso convite é: “Muda-te! Muda tua perspectiva, muda-te para uma comunidade e promove mudança ali”.

Interessados em mais informações sobre o Muda-te podem escrever para Marília: marilia@movein.to

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