Por Ioná Nunes

Quando a gente era criança, sonhava alto. Nem o céu era impossível de ser alcançado com a nossa imaginação. Existia um mundo de algum doce só nosso, onde a entrada da realidade era proibida e o que a gente idealizava seria nosso futuro. Com uma voz aguda, a gente respondia “quero ser jogador de futebol, atriz, cantora, quero ir para lua” e muitas outras ideias que pareciam mirabolantes para os nossos pais, mas que fazia sentido pra nós. Dava um frio na barriga, borboletas no estômago, um zoológico inteiro se agitando dentro da gente só em pensar em realizar o sonho. Tinha um gosto de brigadeiro e cheiro de perfume de bebê, era tão bom!

A medida que a gente vai crescendo, descobre que as coisas não são cor de rosa e que a vida pode ser muito cruel com quem sonha. A gente se sente como um balão que é estourado por um alfinete, e que murcha num piscar de olhos. Descobre que sonhar às vezes é um barco pequeno que flutua sobre um mar de lágrimas, o tipo de água que você nem cogita em navegar quando é criança. Você é nocauteado pelo pranto, adormece e não quer abrir os olhos para não ter que lidar com o desencanto. Se a gente pudesse substituir as lágrimas para continuar a jornada, o faríamos, mas não dá para sonhar sem chorar um rio ou um mar. Sem rir de chorar ou sorrir enquanto chora.

A criança que ainda está dentro de você grita “não era pra ser assim”, “ninguém me disse que crescer era doloroso”. Ela protesta, é a líder de torcida que vibra e assim te impulsiona a correr atrás daquilo que o Eterno colocou em teu coração. Porque os sonhos não vêm dentro de uma caixa, não têm um tamanho estabelecido e nem ditam o que você vai fazer para o resto da vida. A graça de sonhar está em saber que a maior coisa que você já pensou nem se compara ao que Deus preparou. Sim, porque a gente pode sonhar errado, porque aquilo que a gente sempre desejou nunca esteve nos planos do Criador e lá vem… Mais uma dor.

Aí, meu amigo, vem a parte complicada. Você descobre o quanto sonhar tem a ver com o luto. Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. A gente volta a ser criança, e não a do tipo que não vê a hora passar enquanto fantasia com mil e uma coisas e sim aquela birrenta que faz escândalo para conseguir o que quer. E como o luto, sonhar também é dividido em fases. Às vezes você está com a cabeça nas nuvens, hipnotizado pelo seu objeto de desejo; noutras você precisa sentir a terra quente debaixo dos teus pés te desafiando a mudar a rota, a sonhar o sonho de Deus enquanto sente o gosto da aceitação na boca… Aí você percebe que a realidade não é sua arqui-inimiga.

Se os nossos sonhos e vontades dominarem nossa vida, seremos infelizes. Viver da maneira que queremos só nos satisfaz momentaneamente, é um banho de água fria que alivia o calor, mas não o faz ir embora. A escritura nos ensina que vivemos por aquele que por nós morreu, Jesus nos convida a negar a nós mesmos, tomar nossa cruz e segui-lo. Estar no centro da vontade de Deus não significa estar confortável, mas significa estar em um bom lugar, porque Ele é bom e sua vontade também é em todos os momentos.

O fim último do homem é glorificar a Deus, então viver segundo o nosso querer não pode fazer isso. Submeta-se à vontade do Criador e saberá o que realmente significa sonhar. Sonhos não tem a ver com o que eu penso ser melhor pra mim, o que me fará feliz, e sim com as boas obras que Ele planejou que fizéssemos para que Ele seja mais glorificado em nós.

  • Ioná Nunes, 24 anos. É jornalista e congrega na Igreja Cristã Evangélica.

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