Por Maurício Avoletta Júnior

Eu estava aqui ponderando sobre o que escrever e acabei por notar que, fora minha bio no final dos textos, nunca me apresentei formalmente. Não que exista uma real necessidade para que eu me apresente, mas, para ser bem sincero, tive a ideia de usar essa minha apresentação como trampolim para o que eu realmente quero falar. Não pense que sou um ególatra que se acha importante o bastante para ter sua vida exposta na internet. Não é esse o caso. Mas, acredito que eu possa servir de exemplo para a crítica que quero fazer…. Bom, vamos direto ao ponto.

Meu nome é Maurício Avoletta Júnior e, no momento em que escrevo este texto, tenho 24 anos. Vou à Igreja já há quase 19 anos, mas me converti mesmo apenas em 2010. De modo bastante curioso, talvez pelo fato de ser muito novo e imaturo, antes de 2010 nunca tive alguma crise de fé ou algo parecido. Nunca havia questionado a existência de Deus ou sua bondade. Obviamente, tudo tem uma primeira vez.

Em 2010, algumas situações inesperadas aconteceram em minha vida, indo da morte de um amigo próximo ao fim de uma amizade até ao quase término do casamento dos meus pais. Minha reação diante de todos esses problemas, que me surpreenderam como uma avalanche, foi a de, pela primeira vez, questionar Deus. “Se realmente existe um Deus, então, com toda a certeza do mundo, ele é um Deus mal. Por que um Deus que dizia me amar, permitiria que eu sofresse tanto?”

Eu era apenas um adolescente que não sabia nada da vida e estava fazendo as vezes de Jó, questionando e quase culpando a Deus pelo desastre que era minha vida – que nem estava tão desastrosa assim. Hoje em dia, pensando em tudo isso, sei que havia uma boa dose de drama juvenil lá, mas não adianta pensar no que poderíamos ter feito em situações que já aconteceram. As possibilidades em nossa mente nunca vão alterar a realidade.

Todos esses acontecimentos acabaram me aproximando mais de Deus. Minhas dúvidas e questionamentos fizeram despertar em mim uma fé outrora adormecida. De 2010 em diante, passei a tomar gosto pelos estudos, o que fez minha mãe ficar levemente brava comigo. Lembro-me de, certa vez, ouvi-la dizer: “Quando era criança, viviam me chamando na escola porque você não estudava e era ruim nas matérias. Chegou até a esconder as lições de casa embaixo do sofá! E agora, fica gastando dinheiro em livro e estudando sozinho. Por que não fazia isso antes? Ia ter ajudado um pouco!” É, certas coisas são imprevisíveis. Mas, continuemos com o texto, pois ainda não cheguei ao ponto importante.

Essa paixão pelos estudos levou-me a ingressar na faculdade de teologia, onde dediquei meu tempo à pesquisa da teodiceia, ou seja, o problema do mal. Aquela clássica questão: se Deus é perfeitamente bom, totalmente poderoso e totalmente justo, por que o mal existe? Acabou que, no meio das pesquisas, me apaixonanei por literatura e passei a buscar na literatura a resposta do problema do mal que a teologia fornecia. Aquilo me deixou apaixonado! Havia um novo mundo a ser explorado e cada vez ele crescia mais um pouco.

Ao terminar a faculdade, não muito tempo depois, arrumei um emprego na editora em que hoje trabalho e que, por sinal, é onde estou escrevendo este texto. Devo confessar que, embora eu seja apaixonado por livros e pelo conhecimento, trabalhar em uma livraria não era exatamente o meu trabalho dos sonhos, mas foi o que consegui. Glória a Deus por isso. Sabe, no fundo, não é um trabalho ruim, existem momentos que fazem ele valer a pena. Um desse momentos, no entanto, acabou me abalando bastante.

Teve um dia específico em que tudo estava muito calmo na livraria. Todos estavam tranquilos e não havia muito trabalho a ser feito. Tínhamos acabado de voltar de um feriado prolongado, então tudo ainda estava em clima de feriadão. De repente, na parte da tarde, uma mulher chega na livraria com um homem que provavelmente era seu marido. Eles entraram, ambos com um olhar cabisbaixo, e perguntaram se poderiam olhar os livros. Obviamente, disse que podiam. Mais do que depressa, me levantei e tentei puxar conversa. Num primeiro momento, eles não conversaram comigo, simplesmente respondiam minhas perguntas e voltavam a olhar os livros. Entretanto, havia algo neles que tinha me deixado preocupado. Talvez fosse o semblante triste, talvez não. Juro que não sei dizer o porquê, mas eles me deixaram inquieto.

Finalmente, eles resolveram conversar e as coisas começaram a fluir. Perguntei qual era o tipo de livro de que eles gostavam, para saber se eu conseguiria ajudá-los. Me disseram que tinham muito interesse em filosofia e temas religiosos, o que para mim, foi um prato cheio. Peguei alguns livros e começamos a conversar sobre eles quando, de repente, sem contexto algum, a mulher me fez uma pergunta que soou mais como um soco em meu estômago. Parecia que minha capacidade de falar havia sumido.

“Moço, eu não consigo mais acreditar que Deus é bom. Você acha que eu vou para o inferno?”

“Que raios de pergunta é essa?”, pensei. Sabe, a academia e a Igreja não nos preparam para encarar pessoas reais com sofrimentos reais. Diante de mim, havia uma mulher real e com problemas reais. Antes de tentar respondê-la, perguntei o porquê de ela não achar que Deus era bom. Eu queria entender o que havia acontecido e deixei-a falando por mais ou menos 15 minutos. Foi aí que fiquei sabendo dos problemas que ela tinha com os pais por causa da sua filha que nasceu fora do casamento, dos problemas na paróquia que frequentava, onde todos se afastaram dela e da tentativa de abuso que ela sofreu da parte de um religioso.

Cada palavra daquela mulher soava como uma chicotada em meu rosto. Quando ela finalmente parou de falar, no exato momento em que seus olhos foram dominados pelas lágrimas, o homem que estava com ela e que, a cada palavra, aparentava ficar mais triste, pediu licença e saiu da livraria para fumar.

O que eu deveria fazer? Passei mais ou menos 5 anos da minha vida estudando o problema do mal. Eu tinha achado a resposta que eu precisava na teologia cristã, mais especificamente, no agostinianismo. Poderia, sem modéstia nenhuma, dar uma aula para ela de teologia filosófica e explicar de trás para frente toda a resposta cristã para esse problema. Porém, eu me vi diante de uma pessoa de verdade, um ser humano de carne e osso que não estava interessado em nenhuma resposta intelectual. Pela primeira vez, eu entendi, a duras penas, o que muitos teólogos querem dizer quando afirmam existir duas respostas para o problema do mal, uma intelectual e outra emocional.

Ela não se importava com a teologia ou a antropologia agostiniana, nem com a filosofia medieval ou alta literatura. Ela queria apenas acreditar no que eu acreditava, sem ter que ouvir uma aula de duas horas. Naqueles poucos minutos, vi tudo o que eu estudava já há algum tempo escorrendo ralo abaixo e mostrando-se inútil.

Aos trancos e barrancos, consegui responder àquela mulher e acredito que, na medida do possível, consegui ajudá-la, muito embora eu nunca mais a tenha visto. Toda essa situação me fez perceber o quão deficiente se tornou a nossa abordagem. Nós temos na ponta da língua as respostas que os acadêmicos nos fornecem, mas não temos a menor noção de como responder pessoas normais. Se nossa produção acadêmica não é clara e relevante para os não acadêmicos, então nossa produção é inútil. Se nosso labor teológico não gera vida, ele irá gerar morte.

Há muito eu ouço pessoas dizendo que a Igreja está morrendo. Discordo. A Igreja não está morrendo, ela está se matando. Não há, necessariamente, um algo externo matando-a aos poucos. Na verdade, nós é que estamos nos autodestruindo. É urgente uma auto avaliação da Igreja. Precisamos, diante da sociedade, bater no peito e declarar mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Há uma urgência em retomarmos à nossa história e aprendermos com os santos do passado. Os ricos exemplos que a Igreja do Nosso Senhor produziu durante a história podem nos ajudar a olhar para a nossa própria época e para nossos próprios problemas e, com temor e tremor, buscar respostas para a sociedade, a fim de sermos a luz do mundo e o sal da terra.

Como disse no início do texto, contar minha história foi apenas uma desculpa para expor um problema latente no dia a dia da Igreja. Devemos urgentemente aprender a nos comunicar com as pessoas que precisam ouvir a mensagem do evangelho. Precisamos nos lembrar de que, embora não sejamos do mundo, nós estamos nele e, portanto, devemos nos comunicar com ele. Assim como o mundo, nós estamos doentes. Por isso, antes de sairmos por aí levando a água da vida para os que estão necessitados, devemos nós mesmos saciar nossa sede. Antes de evangelizarmos o mundo, criemos a tão falada vergonha na cara e evangelizemos a nós mesmos. Não padecemos por falta de palavra de Deus, mas por síndrome de ouvidos e coração fechados.

  • Maurício Avoletta Junior, 24 anos. Congrega na Igreja Batista Fonte de Sicar (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

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