Por Maurício Avoletta Júnior

O ano era 2005, eu tinha entre onze e doze anos e estava conversando com um amigo da escola sobre “O Senhor dos Anéis”. A trilogia dos filmes já estava completa e fiquei fascinado com aquele universo. No meio da nossa conversa, ele se lembrou de algo que o animou bastante: “Minha mãe falou que vai sair no cinema a adaptação de ‘As Crônicas de Nárnia!’” disse ele.

Eu não tinha a mínima ideia de quais eram as crônicas às quais ele se referia. Ele, então, me explicou que “As Crônicas de Nárnia” nada mais eram do que uma coletânea de histórias escritas pelo melhor amigo do autor de “O Senhor dos Anéis”, o até então desconhecido – para mim, pelo menos – C.S. Lewis. “Se o Tolkien gostava de Lewis, então eu também vou gostar!”, pensei. Ledo engano.

Na época, minha tia me levou ao cinema para assistir “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa”. Não vou dizer que foi ruim, até porque não foi. Gostei do filme, mas confesso que não me animou muito. Quando começaram a sair os filmes de Nárnia, eu estava terminando de ler “A Sociedade do Anel” e sabia de cor todas as falas dos três filmes.

Em paralelo à paixão por “O Senhor dos Anéis”, que por sua vez estava me levando a conhecer a vasta obra do Tolkien, meu tempo era dividido com o famoso bruxinho britânico, Harry Potter, que acabou crescendo junto comigo. Eu estava bastante ocupado conhecendo Hogwarts e a Terra-média, não havia espaço para um mundo maluco que se escondia dentro de um armário. Acabei por deixar o velho Lewis de lado.

Alguns anos depois, em 2012, para ser mais exato, acabei comprando aquele volume único de “As Crônicas de Nárnia” que todo mundo tem. A leitura me agradou mais que os filmes, mas, ainda assim, achava algo muito bobinho. Todavia, minha opinião mudou drasticamente ao chegar em “O Cavalo e seu Menino”, o terceiro livro das crônicas na ordem cronológica, mas o quinto a ser lançado. Quando acabei essa crônica, em vez de continuar a leitura das outras quatro histórias, optei por relê-la.

A experiência de acompanhar a história de Shasta foi, para mim, algo maravilhoso. Em “O Cavalo e seu Menino”, não li uma simples história de criança. Lá, li a aventura de um garoto que queria descobrir sua identidade e, assim como Jó, Santo Agostinho e Dietrich Bonhoeffer, a descobriu no Criador de todas as coisas. Nessa pequenina história, percebi que havia um C.S. Lewis que eu ainda não conhecia. Havia algo maior na obra dele, que ainda estava oculto para mim. A curiosidade para desbravar o pensamento do autor começou a me corroer…

Pronto, isso foi o suficiente. Daí em diante, nunca mais parei de ler os escritos de Lewis ou o que escreviam sobre ele, mas, principalmente, busquei ler o que o próprio C.S. Lewis lia. Creio que esta minha última atitude diante de Lewis – ler o que ele lia – é o mais importante a se fazer quando se gosta de algum autor, seja ele quem for.

Esse é um modo – o melhor modo, acredito eu – de aproximar-se de qualquer autor para compreendê-lo melhor. Ler C.S. Lewis, por exemplo, me fez ler Tolkien com mais afinco, assim como me fez ler John Milton, conhecer Dorothy L. Sayers, me apaixonar por G.K. Chesterton e ficar maravilhado com Dante.

Na introdução do livro “De Incarnatione” de Santo Atanásio, chamada “On the Reading of Old Books”, C.S. Lewis diz que todo leitor deve ler os livros modernos e contemporâneos, mas, em hipótese alguma, deve abandonar a leitura dos clássicos. Toda a literatura moderna e contemporânea, conscientemente ou não, contém em si todos os clássicos. Ler o presente é, ao mesmo tempo, ler o passado.

Ler Lewis me fez conhecer um passado que eu ignorava. E isso me fez ir atrás da minha história, o que, por sua vez, me fez perceber que a história não era minha. Eu descobri que, na verdade, sempre fiz parte de uma história muito maior do que eu imaginava. A leitura de livros antigos, fez com que eu, aos poucos, me colocasse em uma posição de humilhação perante o Senhor de todo o conhecimento. Como Chesterton, eu quis descobrir o mundo, mas o que descobri – a duras penas – é que ele nunca esteve coberto.

Deveríamos ler mais C.S. Lewis. Porém, não devemos lê-lo com um fim nele mesmo, devemos ir além dele. Façamos com Lewis, e com todos os outros autores no geral, a mesma coisa que deveríamos fazer com os Santos: não olhem diretamente para eles, olhem para onde eles estão olhando. Ler o que Lewis leu, o que Chesterton leu, o que Tolkien leu e o que diversos outros autores leram, me fez perceber uma verdade quase constrangedora: todos, sem exceções, uma hora ou outra, acabam apontando para uma mesma direção.

A leitura de C.S. Lewis, me fez ler Chesterton, que me fez ler Charles Dickens, que me fez ler Victor Hugo, que me fez ler John Milton, que me encaminhou para a leitura de Dante. Ler Dante me levou à patrística, que me fez ler Santo Agostinho, que me levou para São Paulo. Me aproximar de Lewis fez com que eu me aproximasse de muitos outros autores. E todas essas leituras me levaram para um lugar específico. Na verdade, não era bem um lugar, era uma pessoa, o autor e consumador da minha fé. Ler os antigos é ler os rastros de Cristo na história.

Por isso, por favor, leiam mais C.S. Lewis.

  • Maurício Avoletta Junior, 23 anos. Congrega na Igreja Batista Fonte de Sicar (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

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