Por Bruno Tardin

 

Em vindo a soberba, virá também a afronta; mas com os humildes está a sabedoria.
(Provérbios 11.2)

Marcelo Gerpe/ Freeimages.com

Marcelo Gerpe/ Freeimages.com

Santo Agostinho certa vez definiu o orgulho como “o amor pela excelência de si próprio”. Já para um controverso sábio indiano, o orgulho seria “o sentimento específico pelo qual o egoísmo se manifesta”. A palavra possui uma raiz latina, que nos deixou como legado os vocábulos “valoroso”, “útil”. Contudo, o orgulho está intimamente ligado, em nossa vivência cotidiana, a concepções negativas de soberba, presunção.

A causa desta singular multiplicidade de sentidos é uma questão de perspectiva: a moderação e a humildade ao se sentir orgulho (curioso paradoxo!) produzem frutos saudáveis e oportunos, mas a ausência destas virtudes pode transformar o orgulho no mais tirano dos vícios. O aspecto mais tenebroso do orgulho é a “vaidade”.

A vaidade — cujas raízes podem ser seguramente apontadas na rebelde figura que desafia o próprio Deus e corrompe toda a criação por meio do “pecado original” — é o umbral que dá passagem a todas as outras perversões as quais o gênero humano vem refinando desde seus primeiros passos na terra. Em vários episódios históricos, inclusive nos retratados no Livro Sagrado, o homem demonstra o impulso de se igualar àquele que o criou, vaidoso que é de suas próprias capacidades e cego frente ao poderio e à majestade reais daquele de onde tudo provém.

A questão não é tanto a satisfação obtida pela consumação de nossos próprios atos, mas sim a quem devemos essa satisfação. Na maioria das vezes, julgamos ser nós mesmos a causa do prazer alcançado. O pai da psicanálise moderna, Sigmund Freud, confirma o texto bíblico ao demonstrar, em nossa constituição psíquica, as forças que impulsionam nossas ações em busca do prazer próprio, egoísta, em detrimento do outro (às vezes em detrimento de nós mesmos, em longo prazo). Tais impulsos possuem uma verve tão imperiosa que somente um forte senso de comedimento e humildade perante nosso Pai celeste e diante dos nossos irmãos pode mantê-los sob rédeas curtas.

Uma vez satisfeitos os impulsos egoístas que nos regem, perdemos a maior razão que explica nossa existência nesta terra, dissertada nas singelas, porém profundas palavras do grande mandamento: amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a nós mesmos.

Se a falha em observar tal mandamento, que alimenta em nós a vaidade, abre portas para uma série de vícios e libertinagens, a sua observância produz um profundo senso de domínio próprio e gratidão perene, a partir dos quais as demais virtudes, certamente, irão aflorar. Devemos, portanto, lutar contra a semente que está em nós envenenando o espírito e que coopera para a satisfação da carne, e fugir da tentação de nos tornarmos fúteis diante dos olhos do Pai.

“Laus Deo”!

 

  • Bruno Tardin, 26 anos, é mestre em Letras.

 

Nota: artigo publicado originalmente na seção “Altos Papos”, da revista Ultimato 334, de janeiro-fevereiro de 2012.

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.