Por Clara BontempoUlt_Jovem_28_09_15

Hoje o céu amanheceu aos gritos.

Agora, a janela do quarto emoldura uma noite azul escura, lisa. O acústico do bar é melancólico e entra pela minha janela. É o mesmo repertório de sempre, mas as músicas estão mais lentas e o volume mais baixo. O burburinho quase não se nota.

O vento frio que há pouco carregou risadas de velhos amigos, amigos emprestados, agora acaricia meu rosto e arranca dos meus lábios um sorriso fácil que condiz com a lembrança desse empréstimo.

Esses, os emprestados, tornaram-se meus.

O barulho do dia se afasta ao encontrar seus olhos: um, sempre espremido pelo sorriso digno de criança; outro, sempre irônico e debochado; o menor deles, sempre aconchegante e cheio de sono.

Meu corpo descansou enquanto me emprestavam sua alegria, sua sinceridade e sua inocência.

Enquanto as três silhuetas conhecidas me faziam rir, meu corpo fez silêncio.

Finalmente silencio.

Mas agora o cantor do bar se despede e promete mais para o fim de semana seguinte.

A última música rima com o vento macio que ainda entra pela janela.

A alegria, a sinceridade e a inocência começam a se afastar.

E a leveza que veio com os três amigos emprestados começa a pesar.

Penso em quem me emprestou.

Além dos amigos, peguei tanto emprestado.

Me recuso devolver. Tudo se tornou meu, por não imaginar que seria preciso devolver.

Por não querer devolver.

Queria que não fosse emprestado. Queria que tudo me fosse dado.

O silêncio começa a ir embora junto com o cantor do bar. Meus lábios se contraem ao prever o barulho, o peso e o cansaço que parecem perto.

A memória trabalha e mais um sorriso se faz no meu rosto: “Eu estou no silêncio”.

Começa a fazer frio e meus músculos se tencionam.

Então eu me lembro de que este silêncio não é emprestado. Nada que vem junto com este silêncio é emprestado. Tudo me foi dado. E eu não preciso devolver. É graça.

É,

Hoje o céu anoiteceu em silêncio.

 

Nota: Texto publicado originalmente no blogsempauta, da Cria UFMG.

Foto: Freeimages

• Clara Lenz César Bontempo é estudante de Publicidade e Propaganda na UFMG e conhece Ultimato desde criancinha.

 

 

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