UltJovem_13_03_15_Boyhood

Por Gabriel Brisola

Há alguns anos atrás participei de um debate entre jovens cineastas acerca de seus primeiros filmes. Como estavam todos em início de carreira, puderam conversar sobre as tendências vistas em seus pares e colegas recém-formados. Lembro-me de alguns com carinho, alguns com curta-metragens ganhadores de diversos prêmios em festivais ao redor do Brasil. Quanto às suas próprias produções, a questão era: por que nossos filmes refletem uma melancolia e descrença em relação à vida, ao futuro e as pessoas? O termo cunhado por um deles em uma cômica referência à obra de Freud e Bauman, foi “o ‘all star’ na civilização/pós-modernidade”.

Alguns de nós, geração “all star” tardia, temos certo desencantamento com o mundo, com nossos próprios futuros e com as pessoas. Claro que não busco aqui dizer que exista uma geração, mas sim diversas, muitas, difíceis de categorizar. Mas vi em meus companheiros de comunicação, dentre os fotógrafos, cineastas, músicos, uma resignação característica que hoje reconheço em olhares de vinte e poucos anos, vagando por exposições, shows, bares e festivais de cinema. Olhares de classe média que me lembram os sonhadores de Bertolucci em Maio de 68.

Mas por que não fazemos filmes de outras perspectivas? Por que os filmes que conquistam as plateias são os malditos, trágicos, desesperançados? Pergunto-me a razão de Lars Von Trier ser tão venerado. É óbvio que o diretor dinamarquês é um gênio do cinema atual (que muito admiro) e talvez opor-se às suas obras, como tenho visto em alguns meios cristãos, seja um erro infantil. Mas não deixo de me perguntar a razão de seu caos destruidor ser tão apreciado por meus colegas. Deixo essa questão para os que entendem de juventude. Como alguém que está dentro disso tudo, resta-me apenas observar e viver.

“Boyhood” me fez pensar nessas coisas de uma outra perspectiva. O filme conta a infância e juventude de Mason: dos seus cinco anos até seu ingresso na universidade. O filme foi feito durante 12 anos, acompanhando o crescimento real dos personagens principais e suas mudanças com o tempo. O Mason que vemos na tela quando criança é o mesmo quando completa seus 18 anos. Estruturado em episódios que contam um período da história de Mason, vemos as transformações em sua casa: sua mãe casando-se e divorciando, seu pai que está sempre o visitando, sua irmã sempre a par das tendências da moda, suas amizades, descobertas e desenvolvimento. A película deixa escapar, por suas imagens, pequenos lapsos que dão vida à obra. No fundo, são quase três horas de nenhuma ação, de nenhum grande “plot”, de nenhuma reviravolta nem de objetivo profundo nenhum.

Espanta-me que tenha conquistado tão vasta audiência: creio que ter sido feito com os mesmos atores, acompanhando o crescimento de cada um, tenha sido um apelativo que atraiu muitos pela curiosidade. Mas a experiência diz que esse tipo de filme não sobrevive muito nas grandes audiências. Onde estão as explosões, as mortes, o grande propósito que redime a narrativa? O grande propósito simplesmente não está lá. E, sinceramente, nunca esteve.

Não sei quem criou essa história de sentido da vida. Papo chato, coisa insossa. Nossa cultura tem uma tara por sentido: qual foi o sentido dessa situação, qual foi o objetivo dessa e daquela ação? Salomão, como o homem cansado e melancólico que era, tem uma resposta muita boa pra isso: “é tudo correr atrás do vento”. Diria que essa história toda é bobagem, besteira ficar querendo fechamento, moral da história. É tudo vaidade. Coisa boa mesmo é olhar os lírios, é saber que há tempo pra tudo, e que tudo precisa ser desfrutado, o bem e o mal. Desfrutado, vivido, experienciado. Não adianta fugir, encontrar subterfúgios, a vida não é facultativa. Mas, acima de tudo, é preciso olhar os lírios.

Assim disse Jesus, no auge de seu ministério. O mesmo Jesus do qual não sabemos nada antes de seu ministério, que desfrutou quase trinta anos como um anônimo na região da Galileia. Esse Jesus que era carpinteiro, que acordava todo dia cedo para fazer suas orações, tomar café da manhã, trabalhar, passear pela cidade, ir à sinagoga aos sábados. É desse Jesus que não sabemos, mas que precisamos tanto ter em mente. O cotidiano é tão sagrado quanto o milagre, o cotidiano é ressureição, assim como a Páscoa. A questão que nos fica é: o que fazer com esses trinta anos de Jesus, com nossos tantos anos de enfado e cansaço?

Importa que olhemos os lírios, lembra Salomão, Jesus e Mason. Os lírios não se importam com seu propósito de vida, eles reluzem ao sol e envergam com o vento, mas amanhã são jogados na fornalha. Importa que nos lembremos da simplicidade das pombas e da astúcia das serpentes, pois os tempos são maus. Importa olhar os olhos de quem te vê, tocar as mãos que lhe são estendidas, abraçar aqueles que nos pedem abraço. Pois eles, como nós, morrem e matam.

A vida carrega essas pequenas mortes que cometemos, assim como as vidas que reerguemos. O ciclo natural de vida e morte se reproduz em cada microcosmo em que habitamos. O movimento da ressureição interrompe o ciclo e nos ensina a interrompê-lo; mas é inevitável, carregamos o peso da morte em nossas costas, como já dizia Paulo em uma passagem de profundo realismo e sinceridade em Romanos 7. Mas graças a Deus por Cristo Jesus, que nos deu o dom da ressureição e nos ensina, com misericórdia e amor, a sermos ressureição.

As fissuras são parte da vida, são parte de nós, as que ocasionamos e das quais somos feitos. Pura fragilidade. Nos resta a comunidade dos homens e mulheres igualmente frágeis, procurando os lírios, perdoando e sendo perdoados, amando e sendo amados. Jesus, aquele que nos ajuda a limpar as feridas mostrando as suas, é quem nos ensina o caminho dos lírios.

“Talvez eu tenha quebrado alguma promessa que eu nunca quis guardar, talvez eu dissera algumas coisas que eu não devia ter dito. Mas essa não será a última vez…”, já dizia uma canção permeada pelas memórias do vício, violência e dor.

Lembro-me de um amigo que, após uma reunião regada por egos, no trabalho, acerca de um aumento proporcional à formação acadêmica, sentou no sofá com desinteresse. Um de seus colegas de trabalho, um pastor evangélico, abalado pela tumultuada reunião, perguntou: “Você vai entregar a documentação para conseguir o aumento?”. Meu amigo olhou para os olhos do colega e disse: “Meu caro, meu reino não é desse mundo. Eu prefiro a simplicidade dos lírios”. E que assim seja.

• Gabriel Brisola tem 24 anos, é formado em jornalismo e fotógrafo.

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