Por Mateus Octávio

Há alguns dias, retornando de férias, conheci uma jovem alemã muito simpática e inteligente. Conversamos sobre diversos temas. Revelei meu fascínio pela história de seu povo, por alguns teólogos de sua pátria, e, por meio disso, o assunto rumou para religião. Falamos sobre tudo que críamos e sobre a maneira que enxergávamos a crença.

Falei sobre a situação atual do Brasil e sobre os “defensores da família” que usam a religião para atacar, denegrir, condenar e repudiar pessoas de credos religiosos e sexualidades diferentes. Também esclareci que minha crença não deve me impedir de ler, ter contato ou de dialogar com um ateu, por exemplo. Na metade da minha fala, a jovem interferiu sorrindo: “eu sou ateísta”. Ambos sorrimos.

Procurei saber o que a fez crer assim, aliás, o que a fez não crer assim. Perguntei se ela era ateísta por questões da razão ou por algo vindo de família. Era de família. No desenrolar da prosa percebi um pouco de acanhamento de sua parte. Foi nesse momento que joguei a “carta da manga”: “se não estou enganado, foi de Nietzsche a afirmação que ele seria um cristão se os cristãos parecessem um pouco mais com Cristo. Você não se vê cristã também por isso?”, – acrescentei ainda – “o que mais te impede de crer: a ideia mal explicada de Deus, um ser superior, ou a religião propriamente dita?”. Após impressionar-se por eu ler Nietzsche, confirmou: “a religião”.

Neste instante não pude deixar de lembrar das cruzadas, do aparthaid, das almas inocentes que queimaram nas fogueiras da inquisição. Lembrei-me de nossa situação atual brasileira. Os evangélicos crescem absurdamente, tão absurdamente que o evangelho que requer paciência e doação não é capaz de acompanhá-los. Nossos líderes estão na boca do povo, mas não mais caindo na graça. A igreja tem medo da perseguição e busca leis que os protejam. Esquecem de protestar a pobreza, a miséria e anunciar o reino que se manifestará aqui e agora. Reduziram Deus a um prestador de favores. Um ídolo. Deste deus eu também sou ateu.

Guardei de Franziska um sorriso, que me revigorou da minha última lembrança na ocasião, o lamento.

“Até onde vai tudo isso?”, você pode se perguntar. Confesso que não sei, mas nada ficará impune. O bumerangue da vida girará, nos trazendo culpa ou regozijo: o que o homem semear, isso também ceifará. Ainda há tempo de plantar o amor.

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Mateus Octávio Alcantara de Souza tem 20 anos, é Bacharel em teologia e escreve no blog Meditações*

  1. “defensores da família” que usam a religião para atacar, denegrir, condenar e repudiar pessoas de credos religiosos e sexualidades diferentes.” >> frase bem pós-moderna e politicamente correta. Como desconfio de textos desta natureza, com todo respeito. Mas, não tem como lê-lo e não ver nas entrelinhas influência de vozes como Paul Tilich e outros.

  2. Preciso concordar com o Igor e dizer um pouco mais. Sem querer defender cegamente os “defensores da família”… mas vejo pouco interesse de certos cristãos em defender nossas doutrinas, nossa história e (por que não) a família. O rumo que certos líderes cristãos tem tomado é mesmo lamentável, mas cair na armadilha de que a religião cometeu apenas atrocidades é mesmo cair no discurso pós-moderno. Caminhemos com cuidado!

  3. Para sua surpresa, embora eu faça parte e seja influenciado pelo pós-modernismo, não sou um adepto. Quando pregavam a igualdade entre etnias nos EUA por exemplo talvez chamassem eles de iniciadores do pós-modernismo também, mas vejamos como são vistos os negros hoje. E sobre o liberal Paul Tilich ou Rudolf Bultmann quem sabe, não os admiro. Este texto é mais um produto de desabafo e insatisfação, se Cristo não andasse com gente desta natureza que me referi no texto (ou de gente de nossa natureza mesmo) eu não teria motivos suficientes para escrever.

    Abraço, paz e graça

  4. Ivny, eu dizer que a religião fez apenas coisas más (algo que eu não disse) não tem a ver com discurso pós-moderno. Mas se tem alguém que pensa isso é a moça alemã (que no texto representa como muitos não-cristãos nos vêem). Eu reconheço coisas boas que a religião fez durante séculos de história, mas para mim francamente são como rios diante dum oceano, devemos continuar incansavelmente, ainda há muito a ser feito. E sobre nossa história, também acho válido conhecê-la e respeitá-la. Como diz uma canção: Quem não conhece a história está condenado a repeti-la; e não podemos ( leia devemos) repetir as coisas más que foram feitas, nem mesmo as boas, também porque não podemos, devemos responder a este tempo e ao que diz respeito a ele. Sobre defender as doutrinas, acho questão de última instância. Se é que devemos defender doutrinas, há outras coisas bem mais importantes.

    Fico feliz que deixou sua opinião, abraço.

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