Um dos amigos de Jó refere-se à morte como o “rei dos terrores” (Jó 18.14), uma espécie de deus cujo lábio inferior toca a terra e o superior toca o céu, de modo a engolir tudo que está à sua frente. A morte é o pior desmancha-prazer do ser humano e o último inimigo a ser destruído no organograma de Deus (1Co 15.26). Ela é a mais temível de todos os maiores flagelos.

Portanto, é muito estranho o que os líderes políticos de Jerusalém diziam presunçosamente: “Fizemos um acordo com a morte, já combinamos tudo com o mundo dos mortos” (Is 28.15). Em outras versões, diz-se que eles fizeram um pacto ou uma aliança com o além, a sepultura, o abismo, a terra do silêncio, o mundo dos mortos (sheol, em hebraico, ou “hades”, em grego). A paráfrase de Peterson sugere que os judeus fizeram um “seguro de vida” com a morte.

No pensamento deles, esse acordo com a morte obrigava-a a poupar o povo da “terrível desgraça” que estava por vir, por determinação divina. As autoridades estavam convictas de que a inundação passaria sem os atingir. Dominados pela falsa esperança, eles diziam com toda segurança que “quando passar o dilúvio do açoite, não chegará a nós” (Is 28.15, ARA) ou “quando o flagelo do extermínio chegar, não nos atingirá” (KJ).

Na verdade, esse pacto com a morte não seria de fato com a morte, mas com “alguma espécie de aliança com forças ocultas, sem dúvida ligada à idolatria”, como supõe o exegeta africano Edouard Kitoko-Nsiku (Comentário Bíblico Africano, p. 857). A confiança nessas práticas ocultistas, com as quais especialmente os africanos estão familiarizados, é altamente arrogante e mentirosa. É por isso que Isaías declara logo em seguida: “Os abrigos em que vocês confiam não são seguros [e] serão destruídos por chuvas de pedra e por trombas d’água” (Is 28.17). Mais ainda: “O acordo que vocês fizeram com a morte será anulado, o que vocês combinaram com o mundo dos mortos será desfeito e, quando chegar a “terrível desgraça”, ela os arrastará como se fosse uma enchente” (Is 28.18).

Uma segurança desfeita, uma esperança desfeita, um alicerce desfeito, não são experiências de menor importância. O desmoronamento de algo que nós construímos ao longo do tempo e no qual nos dependurávamos é uma sensação terrível. Somos avisados várias vezes pela Palavra, pelo Espírito e pela voz interior a respeito dessa loucura e não mudamos de atitude. O último tema abordado por Jesus no Sermão da Montanha é sobre isso: “Se vocês usarem minhas palavras apenas para fazer estudo bíblico, e sem nunca aplicá-la à própria vida, não passarão de pedreiros tolos, que constroem sua casa sobre a areia da praia [e] quando for atingida pela tempestade e pelas ondas, ela irá desmoronar como um castelo de areia” (Mt 7.26-27, AM).

Publicada originalmente na matéria de capa da edição 359 (Março-Abril 2016) de Ultimato.

 

A edição de Setembro/Outubro é uma conversa sobre a morte e quem somos nós diante dela. Como disse Salomão, há mais sabedoria na casa onde há luto do que na casa onde há festa. No final das contas, falar sobre a morte é ensino para a vida, sobre si, sobre Deus.

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