1.

A bênção de Deus existe. Faz diferença. É precioso e estranho acréscimo. Funciona. Enriquece o trabalho de qualquer pessoa que a busque. Prolonga a inteligência e o esforço. Dá mais brilho e mais produtividade à labuta e diminui o desgaste. Mas não substitui o dinamismo nem dispensa o suor e a lágrima. A verdadeira bênção de Deus não se confunde com a superstição, não paralisa a iniciativa, não se associa com posses de mágica. É preciso crer na bênção de Deus. É preciso também buscá-la. Com fervorosa oração, precedida de verdadeiro senso de necessidade.

 

2.

O nosso Deus não é apenas o Deus que cria e faz todas as coisas a contento. Ele também abençoa. Ele gosta de abençoar. O primeiro livro da Bíblia insiste neste fato: Deus abençoa os seres vivos (Gn 1.22), o homem e a mulher (1.28, 5.2), o dia sétimo (2.3), Noé e seus filhos (9.1), Abraão e seus descendentes (12.2), e sara, para que ela dê à luz a um filho (17.16). Deus abençoa a semente, o campo, o labor humano, o pão e a água. Ele abençoou Abraão em tudo (Gn 24.1). E abençoou Ana, outrora estéril, “e ela concebeu, e teve três filhos e duas filhas” (1Sm 2.21).

 

3.

A bênção de Deus se realiza a partir de um princípio muito simples: “O inferior é abençoado pelo superior” (Hb 7.7). Há nesta declaração bíblica duas ideias muito pertinentes: de um lado a ideia de carência, do outro a ideia de abundância. O que tem abençoa o que não tem. Para se obter a bênção de Deus é necessário crer tanto na miséria própria como na fartura dos céus. O que não se considera limitado, jamais busca a bênção de Deus. É o caso do fariseu da parábola de Jesus (Lc 18.9-14).

 

4.

Jacó teve uma experiência extraordinária com a bênção de Deus. Quando, esgotadas todas as estratégias para apaziguar seu irmão Esaú, ele apelou para Deus e lhe declarou: “Não te deixarei ir, se não me abençoares” (Gn 32.26). A bênção de Deus alterou profundamente o quadro todo. O que aconteceu é quase inacreditável. Sem mais nem menos, Esaú correu ao encontro de Jacó e o abraçou, arrojou-se-lhe ao pescoço e o beijou. Atrás de Esaú estavam os 400 homens armados que não vieram aquele sítio para ver o seu senhor chorar no ombro do irmão suplantador.

 

5.

As bênçãos de Deus estão canalizadas. Ao alcance das mãos. É preciso abrir as torneiras. São bênçãos decorrentes de atitudes corretas. Se você perdoa, se você ama, se você obedece, se você faz a vontade de Deus, se você se alimenta da Palavra, se você ora, se você se retrata quando faz o que é mal perante o Senhor, se busca primeiro o seu reino – então as bênçãos são certas. Deus não pode abençoar quem está fora da normalidade, quem erra o alvo. Seria desastroso para a ordem geral e para o próprio homem. Não foi à-toa que o Senhor estava sempre com José e o abençoava (Gn 39.2,21).

 

6.

Nem toda bênção está ligada exclusivamente à prosperidade material. São preciosas bênçãos de Deus a alegria, o entusiasmo, a resistência ao pecado, o espírito de luta, a calma em meio a adversidade, a saciedade espiritual. Paulo escreveu aos romanos que iria visitá-los “na plenitude da bênção de Cristo” (Rm 15.29), o que de fato aconteceu, não obstante todos os imprevistos da viagem, inclusive o naufrágio do navio (At 27). O último gesto de jesus Cristo é muito rico de significado: Ele ergueu as mãos e abençoou os discípulos (Lc 24.50). Então desapareceu nas alturas. Esta imagem deve ser mantida!

 

Texto originalmente publicado na edição de setembro de 1985 de Ultimato, na seção "Quadro de avisos'.

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