David Cho, ao completar 21 anos, sentiu claramente o chamado de Deus para o ministério sagrado, em um encontro de avivamento liderado por um evangelista que havia passado sete anos numa prisão por recusar-se a se prostrar diante de um santuário xintoísta.

Em 1910, o Japão assumiu o controle total da Coreia e submeteu o país a um sofrimento enorme. Nessa época, o governo japonês desapropriou muitas terras coreanas e as vendeu a colonos japoneses. Só quando o Japão foi derrotado na Segunda Guerra Mundial, em 1945, é que o país recuperou a liberdade, embora ocupado por tropas americanas (na parte sul) e por tropas soviéticas (na parte norte). Foi nessas circunstâncias históricas que nasceu, no vale do rio Yalu, na fronteira da Coreia com a China, David Dong-Jim Cho, o primeiro dos dez filhos de um coreano que era um dos mais influentes líderes da resistência ao regime militar japonês e que havia se convertido ao cristianismo aos 10 anos de idade, graças ao trabalho do missionário presbiteriano Donald A. Swicord.

Em dezembro de 1945, quatro meses depois do lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki e três meses depois da rendição do Japão, David Cho, ao completar 21 anos, sentiu claramente o chamado de Deus para o ministério sagrado, em um encontro de avivamento liderado por um evangelista que havia passado sete anos numa prisão por recusar-se a se prostrar diante de um santuário xintoísta. Então, ele deixou a Coreia do Norte e matriculou-se no Seminário Teológico Presbiteriano da Coreia do Sul. Formou-se em junho de 1949, casou-se com uma colega de seminário e decidiu plantar uma igreja. Logo percebeu que no seminário não havia aprendido como evangelizar os não-alcançados pelo evangelho. Para suprir essa necessidade, David Cho passou quatro anos sozinho nos Estados Unidos (naquela década, o governo coreano não permitia que as pessoas que estudassem fora levassem suas famílias), onde estudou missão com John T. Seamands e evangelismo com Robert Coleman, no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, onde fez mestrado em missiologia em 1960.

Ao regressar à Coreia do Sul, pastoreou por dezoito anos a Igreja Presbiteriana de Hoo-Am, em Seul. Ao mesmo tempo, começou a incentivar os seminários coreanos a incluir em seus currículos cursos de missiologia. Ele mesmo tornou-se professor de missão e evangelismo em seminários de três diferentes denominações (presbiteriana, metodista e holiness). Em 1963, fundou a Escola Internacional de Missão. Dez anos mais tarde, David Cho promoveu uma consulta missionária com a presença de 26 líderes cristãos provenientes de treze países asiáticos. Os participantes se comprometeram a enviar pelo menos duzentos missionários asiáticos até o final de 1974, encorajar a formação das associações missionárias nacionais em cada país da Ásia e estabelecer o Centro Leste-Oeste de Pesquisa e Desenvolvimento de Missões em Seul. Tudo isso foi realizado, inclusive o envio de duzentos novos missionários para duas áreas não alcançadas: a ilha de Kalimantan, na Indonésia, e o nordeste da Tailândia. O sucesso desse empreendimento resultou na organização da Associação de Missões da Ásia (AMA), a primeira associação missionária regional do mundo (setembro de 1975). Catorze anos depois, Cho organizou a Associação de Missões do Terceiro Mundo (TWMA), uma rede intercontinental de missões na Ásia, África e América Latina.

Cho presidiu o terceiro encontro da consulta preparatória do Primeiro Congresso sobre Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, na Suíça, em 1974, e foi o preletor de uma de suas plenárias, quando enfatizou que tanto o Ocidente como o Oriente deveriam se unir para pesquisar e analisar a disponibilidade de recursos nas áreas de necessidade e, dessa forma, gerar novas forças para a missão nas duas metades do mundo.

Em 1993, Cho concluiu o seu doutorado na William Carey International University, em Pasadena, na Califórnia. A esposa morreu de câncer em 1992, deixando-lhe um filho e quatro filhas, todos envolvidos com o seu ministério. Uma das filhas, Helen, é diretora executiva do Instituto Missiológico David Cho, ligado à Sociedade Missionária Global, da Igreja Presbiteriana da Coreia, a maior agência missionária coreana, com mais de 2 mil missionários ao redor do mundo.

Cho acaba de completar 85 anos. Além de ser um instrumento nas mãos de Deus para gerar profunda consciência missionária em seu próprio país e em toda a Ásia, ele foi também um diplomata e reconciliador.

Entre 1989 e 2000, Cho visitou a Coreia do Norte mais de vinte vezes em missões de reconciliação, esperando abrir a porta para os ministérios cristãos naquele país, um dos mais fechados do mundo. Várias vezes se encontrou pessoalmente com Kim II Sung, doze anos mais velho, chefe do governo desde a separação definitiva das duas Coreias. Em nome da Universidade Internacional William Carey, Cho doou, de forma pública e oficial, 2.700 livros cristãos de teologia, estudos bíblicos e história da igreja para a biblioteca da Universidade Kim II Sung. Como reconhecimento, Kim Sung assinou cada volume e a Universidade abriu um departamento de religião para ensinar o cristianismo e outras religiões. David Cho foi nomeado professor visitante tanto dessa universidade quanto do Seminário Pyongyang. Todas as vezes que ele vai à Coreia do Norte, prega em duas igrejas recém-abertas na capital.

Em junho de 1991, David Cho acompanhou Han Shi Hae, o embaixador norte-coreano da ONU, à casa do ex-presidente Jimmy Carter, na Geórgia, com o propósito de estender o convite de Kim II Sung para Carter ir a Pyongyang. Foi David Cho quem fez os arranjos que possibilitaram a visita de Billy Graham (1992) e a de Carter (dois anos depois) à Coreia do Norte.

Já beirando os 80 anos, Cho morou na Rússia como missionário por quase quatro anos (2000–2003), onde organizou o Sínodo Moscovita da Igreja de Cristo e o Instituto Russo de Desenvolvimento de Liderança Cristã. Em setembro de 2003, ele hospedou em Moscou a convenção trienal da AMA.

Em 2004, trinta e seis jovens missiólogos, discípulos e admiradores de Cho, organizaram o Instituto Missiológico David Cho e o Museu de História de Missão Mundial.

Texto originalmente publicado na edição 323 de Ultimato.

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