Por Elisângela Oliveira

Reflexão sobre as feridas que os 4 anos de campo missionário (povo indígena – Guarani-Mbyá), abriram em minha alma. Elas [as feridas] são reais, e não há mais como fingir que não existem, e que por estar fazendo a vontade de Deus, não há dor. Não somos super-heróis. Somos falhos, muitas vezes fracos e machucados. E, como ovelhas feridas necessitam do seu pastor, nós somos totalmente dependentes daquele que detém o bálsamo de Gileade para cicatrizá-las.

Porque os missionários ficam mais feridos do que se tem ideia nos campos.

Eles se ferem com a saudade de casa, da sua cidade, dos seus familiares, muitas vezes do seu estado e do seu povo. A saudade fere…

Eles se ferem por causa da nova cidade, do novo povo, tão diferente! Nem sempre tão receptivos, uma cidade nem sempre tão acolhedora. A indiferença e a solidão ferem…

Eles se ferem com uma liderança preocupada com o campo, com o povo, mas pouco com os sentimentos e o emocional do missionário. A liderança sem empatia fere…

Eles se ferem com o silêncio da igreja enviadora, que, por manter a sua fidelidade com a oferta, se esquece que o missionário precisa de uma voz amiga, de uma oração, de um conselho, de um sorriso. O missionário se fere porque sente que a igreja que deveria estar segurando a outra ponta da corda soltou-a, e ele se sente abandonado. O abandono fere…

Eles se ferem porque suas necessidades são inúmeras, e, embora creiam que Deus as suprirá, gostariam de ver uma mão que se estenda antes de perderem mais uma noite de sono atribulados por não saber como será o dia de amanhã. A ansiedade fere…

Eles se ferem com seu conflito interno, pois creem naquele que os enviou, mas sua humanidade luta constantemente para prevalecer, os fazem fraquejar e falhar na sua fé. A fraqueza fere…

Eles se ferem porque os conflitos internos e externos têm sons tão altos dentro de suas almas que já não ouvem mais a voz de Deus. A surdez espiritual fere…

Eles se ferem por que percebem que o seu chamado feriu familiares, filhos e amigos que não compreenderam o seu “ir”. E agora, a quem retornar?  A incerteza também fere…

Eles se ferem porque os conflitos familiares são inevitáveis devido ao medo, ansiedade, necessidades, saudades, e tudo isso fere. Porque a falta de paz fere…

E a minha oração diária como missionária no campo continua sendo: “Pai, olha para mim. Veja a minha dor e se compadeça de mim! Usa-me, apesar disso. Ajuda-me a manter os olhos no Senhor, a ouvir a sua voz dizendo que essa é a sua vontade e a servir esse povo, porque o Senhor o ama. Pai! São muitas as feridas, mas vem com o balsamo de Gileade e cura-as, pois somente o Senhor conhece a origem, o tempo e a cura de cada uma delas”.

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