Na Varanda com o Autor  |  Elsie Gilbert

Das Reinações de Narizinho às Crônicas de Nárnia, ela gosta de aventuras. De contá-las e de compartilhar, especialmente, de dividi-las com crianças e adolescentes mais vulneráveis.

Elsie Cunha Gilbert tem uma causa. Aliás, uma missão e uma causa. Missionária, jornalista por formação e coordenadora da Rede Mãos Dadas, Elsie, ao lado do marido, James Gilbert, tem muito mais do que a filha e os três filhos. A família tem uma longa caminhada no trabalho social cristão, na formação de educadores, ao lado de muitos projetos sociais cristãos espalhados pelo país, alcançando e alargando a tenda de acolhimento e capacitação da igreja brasileira.

Ultimato conversou com Elsie Gilbert sobre como tudo começou e sobre os desafios do ministéiro. Bem-vindo à nossa Varanda com a Autora.

 

Alguma pessoa ou livro, em especial, influenciou sua aproximação da leitura e da escrita?

É difícil escolher.  Minha primeira experiência com a escrita foi ainda na pré escola . Me empolguei com a ideia de recontar no papel a história que minha mãe tinha contado no dia anterior. A professora teve que ficar comigo uma meia hora após o sinal para eu terminar a história do ratinho Rique-Roque. Minha mãe, minha primeira contadora de histórias, e Tia Almerinda, minha primeira professora, foram as primeiras grandes influenciadoras na minha vida.

Quando a inspiração para escrever não vem…

Eu começo a escrever perguntas sobre o tema e a respondê-las. Quem? O quê? Por que? A inspiração chega logo depois, porque inspiração depende de movimento e a inércia é o seu pior inimigo.

O que os adultos devem ler para as crianças? 

Os clássicos infantis, Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato, A Volta ao Mundo em 80 dias de Júlio Verne, A Pequena Princesa  e O Jardim Secreto de Frances Hodgson Burnett, O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon, e, indispensável, as Crônicas de Nárnia! Outro dia, no Uber, um pai me contou que, como nunca desenvolveu o gosto pela leitura, obrigava o filho de 11 anos a ler. Tinha comprado para o filho um dos livros de Augusto Cury (Ansiedade: Como Vencer o Mal do Século) e o filho não estava nem um pouco feliz. A criança precisa de viver aventuras, de preferência do ladinho dos pais. Indiquei o C. S. Lewis e Max Lucado para este pai.

Que conselho você gostaria de ter recebido na sua juventude?

“Não há nada que você possa fazer para aumentar o amor de Deus por você. Não há nada que você possa fazer que diminua o amor que Deus já tem por você.”

Como você lida com o envelhecer? 

Acho que esta é a tarefa mais difícil na vida. Lidar com a minha finitude. Não vou continuar influenciando o mundo ao meu redor para sempre e não tenho nenhuma garantia de que minhas prioridades serão abraçadas pelas novas gerações. Eu lido com isso de duas formas: olhando para o legado daqueles que vieram antes de mim, e me aproximando das novas gerações em diálogo e amizade. O tempo também pertence a Deus e é no Senhor em quem eu deposito toda a minha esperança.

O que mais a anima e o que mais a incomoda no meio evangélico?

O que me anima é saber que Deus é Deus e nós não somos. Não é possível restringir a Deus colocando-o em uma de nossas caixinhas. Por isto, gosto de ouvir sobre os heróis e heroínas do passado e perceber os grandes obstáculos que precisaram enfrentar. O que me incomoda é a incrível capacidade que temos de brigar em torno de assuntos não essenciais. O que nos separa é maior do que o que nos une? Então aquilo que nos separa é mais importante. A posição política de alguns se tornou mais importante do que a morte de Jesus na cruz e a sua obra redentora.

Escrever é um talento natural ou é possível aprender a escrever?

Acho que talento é uma outra forma de dizer “nisto eu tenho prazer”. E é o prazer que nos ajuda a dedicar e a investir o tempo necessário para desenvolver as habilidades. E aquilo que me dá prazer, é uma dádiva, entregue a mim pelo meu Criador. Ele espera que eu cuide bem do presente, que abra o pacote e o use para o bem estar daqueles que me cercam. Se você não tem prazer na leitura ou na escrita, não conseguirá aprender a escrever. Sendo possível desenvolver o prazer, acredito ser também possível desenvolver a habilidade.

Você é coordenadora de uma importante rede que reúne organizações cristãs que trabalham em favor do cuidado da criança e do adolescente em situação de vulnerabilidade social. Quando você percebeu a vocação para este trabalho?

Me dedicar à causa das crianças e adolescentes mais vulneráveis se tornou o meu desejo quando eu tinha 13 anos de idade e li Capitães da Areia, de Jorge Amado (minha mãe não sabia que este autor tinha a boca suja…). Que Deus usaria as minhas habilidades na escrita para atuar na resposta cristã aos problemas vividos pelas crianças se tornou patente durante meu curso de jornalismo.  E a oportunidade de fazer isto em rede, aconteceu em 2000, quando fui recrutada pela Ultimato para trabalhar como editora da Revista Mãos Dadas. A gente anda com Deus, e no caminho ele vai revelando novos horizontes. Isto é muito legal!

Quais são, em sua opinião, os principais desafios para a igreja em relação à criança e ao adolescente na pós-pandemia?

O primeiro grande desafio é nos valer do discernimento espiritual para interpretar os sinais ao nosso redor. Vamos apontar os dedos, criando um jogo de empurra — a culpa é da igreja, a culpa é da família — ou vamos juntos perceber os desafios e também as novas oportunidades? Eu tenho visto um aumento dos distúrbios emocionais nas crianças, um aumento no estresse no domínio familiar, um aumento da decepção em relação à igreja como lugar de cura e proteção, uma diminuição do compromisso dos voluntários que se dedicam às crianças na igreja. Por outro lado, percebo um coração mais sensível por parte dos nossos líderes a repensar o lugar da criança na igreja, uma vontade de corrigir a nossa rota e de reaproximar da família como lugar principal da formação espiritual da criança.

>> Conheça mais sobre a Rede Mãos Dadas.

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