Na Varanda com o Autor  |  Jeverton Ledo ‘Magrão’

Ele não tira a juventude da cabeça ou à sua volta. No Brasil ou na Bélgica, o missionário Jeverton Ledo, mais conhecido como “Magrão”, tem caminhado por décadas ao lado de adolescentes e jovens tanto cá como lá. Claro, embora caminhe com eles, não é exatamente um deles e até admite seu lado Darth Vader, com o passar dos dias.

Magrão, nosso colunista do Blog Ultimato Jovem, é missionário e conselheiro no Movimento Estudantil Ichtus e tem o seu ministério em um Colégio Protestante em Gent, na Bélgica. É com ele o nosso primeiro encontro de 2021, “Na Varanda com o Autor”.

 

Alguma pessoa ou livro em especial influenciou sua aproximação da leitura ou da escrita?

Muitos aspectos da vida são apaixonantes, e, muitas vezes, a paixão começa cedo, e certamente pessoas estão envolvidas em todo esse processo. No caso da escrita me recordo de um professor de história quando eu ainda estava no colégio. As aulas de história eram cativantes, e o professor sempre solicitava resumos e trabalhos que exigiam o exercício do escrever. Isso me permitia expor meus pontos de vista, argumentar e debater. Me foi aguçada a curiosidade por fatos e acontecimentos históricos. Meu professor logo percebeu que eu tinha prazer em escrever e me motivou a seguir escrevendo. Já com relação à leitura de uma maneira mais intensa, a influência veio através dos quadrinhos. As HQs e o universo dos super-heróis são fascinantes. Essa paixão começou ainda criança, e segue até os dias de hoje. Mantenho minha coleção de quadrinhos e continuo mergulhado nesse universo. Nos quadrinhos encontro muitas vezes inspiração para escrever.

 

Quando a inspiração para escrever não vem…

Geralmente me perguntam de onde a inspiração vem. Quando ela não vem, eu busco a solitude, o exercício de estar comigo mesmo. Ganho tempo em silêncio, saio para caminhar e observar, ou apenas contemplar. Uma outra coisa que faço é escutar boa música.

 

O que os adultos devem ler para as crianças?

Fácil, muito fácil: leiam HQs rsrsrsrs! Conselho de um colecionador e apaixonado. As crianças são fascinantes, criativas, curiosas. Extrovertidas ou introvertidas, todas elas devem ser apresentadas ao mundo da leitura. Leiam livros que permitam que as crianças exercitem a curiosidade que lhes é tão peculiar. “Ok, seja mais específico”. Leiam livros sobre natureza, animais, viaje pelo mundo das grandes descobertas, navegue pelos oceanos. E quando atingirem uma idade adequada, que lhes seja apresentado o mundo de As Crônicas de Nárnia. E claro, reflitam com elas sobre o Criador. Existe, no mercado literário, Bíblias em quadrinhos, que, por sinal, são bem interessantes.

 

Que conselho você gostaria de ter recebido na sua juventude?

Com certeza, posso dizer que tive o privilégio de ter bons conselheiros ao longo da minha caminhada, pessoas com vivência e experiências que muito me ajudaram em diferentes momentos da minha vida. Papai está no topo da lista. Mesmo que no momento não conseguisse entender, papai, sempre com muita paciência, esteve ao meu lado e me ensinou uma das grandes lições: “Um dia você vai entender o porque estou lhe dizendo isso”. Hoje, me aproximando de completar 52 anos, me permita deixar um conselho: é importante ter alguém com quem você possa compartilhar, rir e chorar, e acima de tudo aprender. Alguém que já caminhou algumas milhas a mais que você.

 

Como você lida com o envelhecer?

Em primeiro lugar, eu não tenho nenhum problema em deixar as pessoas saberem quantas primaveras eu já completei. Envelhecer é um presente, uma vida bem vivida não tem preço. E viver bem a vida é ter poucos, mas bons e sinceros amigos. Amigos com os quais você pode ser quem você é, que você pode ligar mesmo na alta madrugada. Amigos que vão enxergar o melhor em você, amigos que vão conhecer suas fraquezas, limitações, e seu lado Darth Vader, mas sempre estarão presentes. O envelhecer lhe permite ter uma visão melhor do mundo, de você mesmo, ele lança por terra os “pré” conceitos. O envelhecer te faz ser mais cauteloso. À medida que uma nova primavera se completa, você se enxerga um pouco mais preparado para enfrentar os dias em que realmente as coisas podem ficar difíceis.

 

O que mais o anima e o que mais o incomoda no meio evangélico?

Ah! O tal meio evangélico, e suas muitas facetas… anima o fato de pessoas seguirem no caminho, perseverantes, não arrogantes, conhecedores de sua natureza caída, e dependentes. Anima ver jovens espalhando as sementes que encontrarão terreno fértil e frutificarão. Incômodos poderia aqui listar, listar e listar, e isso falo com tristeza. Divisões, busca por prosperidade, incoerência no discurso. O mundo avança, a tecnologia se faz cada vez mais presente de forma impressionante, em contrapartida o ser humano parece caminhar para trás. Pessoas que deveriam escutar e enxergar as reais necessidades estão fechadas em seus próprios nichos, buscando seus próprios interesses. Mas nossa missão não é nos lançarmos no mundo na busca por aqueles que seguem como cegos em uma jornada que pode ser encerrada amanhã?

 

Eu realmente desejo

 

Desejo mais flores nos jardins
Desejo mais sorrisos
Desejo mais cabelos ao vento
Desejo abraços mais apertados
Desejo menos intolerância
Desejo menos arrogância
Desejo menos de mim mesmo
Desejo dias com aroma de jasmim
Que completemos a Jornada
Até que se decrete o Fim…

 

Por Jeverton Ledo

 

Conte um pouco da fé e da Igreja Cristã na Bélgica.

A Bélgica é uma país fascinante, cheio de peculiaridades, de uma rica e ao mesmo tempo trágica trajetória. Guerras, invasões, destruição e a perda de muitas vidas. A fé sempre esteve presente através do catolicismo, que ao longo dos anos vem se enfraquecendo. Temos igrejas enormes, uma arquitetura que impressiona, mas vazias e visitadas em datas especiais por pessoas de idade avançada. Os jovens seguem suas vidas. O exercício da fé e a relação com Deus não são prioridades.

Comunidades cristãs pequenas estão presentes por todo o país. Minha família e eu congregamos em uma Igreja Reformada. Somos uma comunidade pequena, mas comprometida e que busca cumprir o chamado do servir. O movimento estudantil está presente em diferentes campus universitários. É uma alegria poder ver estudantes belgas comprometidos com a missão, mas é um desafio.

 

Como têm enfrentado estes dias desafiadores da pandemia?

Um ano que ficará marcado, como escrevi em dos meus últimos artigos, até que chegue o fim da nossa existência. Enfrento de maneira consciente, seguindo todas as resoluções adotadas pelo nosso governo, mas acima de tudo, com esperança. Esperança que tudo segue nas mãos do Cristo Vivo.

O momento é de aprendizado, uma oportunidade da humanidade rever conceitos, prioridades e se voltar para o que realmente importa. Enxergue ao seu redor, entenda que há um propósito maior, e que o joystick não está com você.

 

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