Na varanda com o autor | Carlos Catito

 

Felizmente o leitor não precisa descobrir como pronunciar o seu sobrenome. E não é preciso ter dislalia para tropeçar em “Grzybowski”. Aliás, talvez por isso ele acabou se tornando psicólogo, doutor em linguística aplicada e, finalmente, Carlos “Catito” Grzybowski, para facilitar também a nossa vida.

Catito é velho conhecido dos leitores da Ultimato e nosso amigo de longa data, desde os tempos da fundação do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos e também Associação Brasileira de Assessoramento e Pastoral da Família -Eirene do Brasil, do qual é coordenador. É autor de, entre outros, Acontece nas Melhores Famílias e Pais Santos, Filhos Nem Tanto e, pasmem, é o criador do personagem Smilingüido.

Catito é marido da também psicóloga Dagmar Grzybowski e conversou com o Na Varanda com o Autor essa semana.

 

Alguma pessoa ou livro, em especial, influenciou sua aproximação da leitura e da escrita?

Sim, eu poderia destacar que um professor de português do ensino fundamental, (naquela época ginásio) chamado José Leonardo Salata, incentivava muito a redação e me ajudou a ter um gosto pela mesma. Sobre a leitura, meu pai era um leitor e eu o via todos os dias com um pequeno livro na mão – em geral ele gostava de estilo policial – e lembro que muito jovem ainda (lá pelos 11 anos) eu já lia contos de aventura e policiais/aventura (Hardy Boys Detetives – livros que tenho até hoje). Na parte final da adolescência, descobri os contos de C.S. Lewis, que me encantaram, especialmente As Crônicas de Nárnia – que li mais de uma vez e, posteriormente, li para meus filhos e esses para meus netos. Foram os escritos de Lewis que me inspiraram a escrever as primeiras histórias do Smilingüido.

Quando a inspiração para escrever não vem…

Esse sempre é um momento difícil e a forma que encontrei para contornar essa dificuldade é conversar com minha esposa, Dagmar, e trocar opiniões sobre o tema. Isso acaba me dando insights. De alguma forma eu posso dizer que ela é minha “musa inspiradora”! (risos).

O que os adultos devem ler para as crianças? 

Creio que para crianças com até 6 anos, devem ser lidas histórias da Bíblia. Eu sempre lia para meus filhos e hoje leio para os netos quando vêm dormir em minha casa. Para os mais velhos, acho As Crônicas de Nárnia encantadoras.

Que conselho você gostaria de ter recebido na sua juventude?   

Deus me agraciou muito na minha juventude. Tive um pai, que embora não convertido na época, sempre conversava e dava bons conselhos. Posteriormente, quando me converti, passei a conviver com um grupo de jovens cujo líder era o pastor Hans Udo Fuchs (naquela época, ele ainda não era pastor, nem estudante de teologia) que foi meu primeiro discipulador e, até hoje, um grande amigo – de quem também recebi bons conselhos. Depois, quando o Hans foi estudar em São Paulo, a igreja foi agraciada com um pastor que muito me apoiou e incentivou – inclusive encorajando a fazer psicologia, quando muitos crentes achavam que era coisa do diabo – e foi meu segundo discipulador, o pastor Fred Bornschein, também grande amigo até hoje. Por fim, meu querido amigo e terceiro discipulador, o pastor. Angus Leroy Plummer que, mais que um discipulador, foi mentor e o melhor tradutor que conheci do amor de Deus na prática, em seu ministério de acolhimento a mulheres marginalizadas, do qual tive o privilégio de ser cooperador por mais de dez anos. Assim, minha juventude foi plena de bons conselheiros e não consigo pensar agora em algum conselho que gostaria de ter recebido que não o tive por meio destas pessoas maravilhosas que Deus colocou em meu caminho.

Como o senhor lida com o envelhecer?

Entendo que o envelhecer é parte natural do ciclo vital – e uma boa parte! Quando meu filho mais novo se casou e saiu definitivamente de casa indo morar na Alemanha, ao nos despedirmos dele no aeroporto eu olhei para minha esposa e disse: “enfim sós”! Creio que essa é uma das melhores partes do envelhecer, ou seja, ter o sentimento de “tarefa cumprida” no processo de cuidado e educação dos filhos e poder desfrutar a vida por um bom tempo ainda como casal – acho que não tem algo melhor que isso! Também saber que ao longo da caminhada foram feitas amizades preciosas. Costumo dizer que uma pessoa deve, ao aproximar-se do final da vida, ter feito pelo menos seis bons amigos. Por que seis? Porque um caixão de defunto tem pelo menos seis alças (risos). Mas, brincadeiras à parte, creio que o legado que uma pessoa deixa está relacionado diretamente aos relacionamentos significativos que ela teve ao longo da vida (não seus bens materiais ou obras) e espero continuar desfrutando de velhice cercado de bons amigos também.

O que mais a anima e o que mais a incomoda no meio evangélico?

Fico animado quando vejo uma nova geração de pastores preocupados com a integridade de vida pessoal e dos membros de suas comunidades – mais do que com as estatísticas. Gente séria que procura viver o Evangelho de forma integral e não tem receio de mostrar sua face mais humana. O que me incomoda são os discursos ufanistas de bênçãos ilimitadas, prosperidade garantida, de ausência total de sofrimento e de que os “de dentro” são protegidos e os “de fora” são amaldiçoados por Deus – isso para mim não é Evangelho, antes se trata de enganação – e há muitos discursos, ditos evangélicos, que levam centenas de pessoas a essas buscas (naturalmente, sempre em troca de algum benefício para os que proferem estes discursos – nem que o benefício seja ter um exército de subservientes que jamais questionam os líderes e dão a esses a fantasia de poder e sucesso).

Para mim professar a fé em Cristo não é ter o selo de garantia de felicidade total aqui na Terra, antes é a certeza de que “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38,39).

No artigo O vírus do egoísmo é pior que o da Covid-19, publicado na Ultimato de julho/agosto, o senhor mencionou o que a igreja pode fazer para ajudar as famílias nestes dias difíceis. E quanto ao contrário: o que as famílias podem fazer para ajudar a igreja que também está enfrentando muitos desafios nesta pandemia?

Igreja para mim é a comum-unidade daqueles que professam a fé cristã. Essa unidade comum envolve a fidelidade recíproca, ou seja, as famílias precisam ter a consciência que a igreja não é sinônimo de templo e sim de organismo. Esse organismo funcional tem também necessidades estruturais que precisam ser mantidas pelos seus componentes (as famílias), tais como a provisão dos salários daqueles que trabalham na instituição, apoio aos diversos projetos sociais e missionários mantidos pela instituição e manutenção básica das instalações. Assim, como diz Paulo aos coríntios: “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama quem dá com alegria” (2Co 9.7).

Também as famílias devem cuidar umas das outras em apoio emocional, ligando, orando uns pelos outros e pelos líderes – que tenham dose extra de sabedoria na condução do rebanho que Deus colocou aos seus cuidados.

Leia mais:
» Família, valores, influências e o evangelho

  1. Alessandra Cristina Correa

    Que beleza de entrevista! A coluna do Carlos “Catito” e Dagmar é uma das minhas preferidas da Ultimato, a qual tenho lido fielmente há mais de 6 anos. E fiquei sim pasmada – como assim criador do Smilingüido? Não sabia! A admiração que tinha cresceu alguns níveis. Tenho 34 anos e cresci com as histórias do Smilingüido, memorizando versículos das figurinhas, assistindo desenho. Um instrumento que foi utilizado para evangelizar e edificar muitas crianças, como eu! Deus o abençoe “Catito”, que sua jornada continue sendo de Luz e Vida!

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