Por Júlio Andrade Ferreira

A mestra vivia impressionada pela carga tão forte de comércio e do folclore, que predominam na época do Natal. Quem sabe teria ela lido algures, que o dia 25 de dezembro, dia do sol no paganismo, só fora consagrado ao nascimento de Cristo tardiamente, Sabe-se lá!

O fato é que solicitara dos alunos um trabalho literário sobre o natal, pedindo que focalizassem os aspectos interiores, de preferência os convencionais. Seria, esse exercício escolar, o último do ano letivo, pois se avizinhava a semana dos exames, e os primeiros sinais das festividades natalinas surgiam nas lojas e nas ruas, a começar por arvorezinhas expostas, à venda, em lugares estratégicos. E a mestra, querendo estimular os alunos, dera orientações e transformara o mero exercício escolar em um concurso, providenciando prêmios aos três primeiros colocados, uma espécie de gradação em bronze, prata e ouro.

Curioso é que, na apuração, quase todas as composições literárias mostraram-se boas e os primeiros alunos colocados (alunas, por sinal!) tinham efetivamente a mesma estrutura, seguindo a sugestão feita. Focalizaram o problema interior da vitória sobre a tentação. Uma das alunas, que já antecipara trabalho adicional de férias em uma loja, confessava-se culpada de querer desviar valores; outra, envolvida com namoro não do gosto dos pais, pretendera encobrir o caso mentirosamente; uma terceira confessava-se mesquinha, e relutava em repartir algo com a vizinha pobre…

Escrevendo sobre o Natal, a partir dessas confissões, cada uma das autoras fazia contraste dessa situação interior com o ambiente exterior do Natal: presentes, Papai Noel, pinheiros, luzes, ceias e bebidas.

Afinal, diziam, a história de Belém não contém nada disso. É, pelo contrário, a peregrinação de uma gestante pobre; o livramento de um infante inocente; as homenagens inesperadas de uma figura incógnita. Em tudo que aparece na Bíblia como se está dizendo: “Ele se fez pobre, para que pela sua pobreza enriquecêssemos…”

Curiosamente, nesses três contos premiados, as autoras ressaltavam que se sentiam enriquecidas interiormente, ao compreenderem, a tempo, o quanto importava resistir a tentação, para se ter um Natal feliz. Mais que as festividades exteriores, contava a alegria interior. Era a chegada de Deus ao coração.

Pareciam dizer: “Jesus veio a mim…”

Para isso, qualquer data serve. Todas, sem uma soubesse o que a outra fez, usaram o mesmo título: Natal sem data…

Coincidência? Talvez. A verdade é que Natal sem data é imaginável; o que não é possível é Natal sem coração! Absolutamente impossível.

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Júlio Andrade Ferreira, pastor emérito da Igreja Presbiteriana do Jardim Guanabara, em Capinas, SP. Faleceu em Campinas no dia 11 de outubro de 2001, aos 89 anos de idade.

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