Por Vinicius Vargas

Ao apóstolo João são atribuídas três cartas. Uma bem grande e duas bem pequenas. Comparadas com a primeira carta, as duas seguintes mais parecem bilhetes. E elas nascem em um contexto parecido: ambas falam de pregadores que iam de cidade em cidade pregando o evangelho. Numa época em que as hospedagens eram poucas, ruins e perigosas, era um costume dos crentes das igrejas receberem esses pregadores nas casas deles.

A questão é que estavam tendo um problema sério: nem todas as pessoas que apareciam nas igrejas se apresentando como pregadores estavam pregando o Evangelho de verdade. Tinha muito pregador enganado e enganando os outros. Mesmo que nem sempre os que eram recebidos fizessem jus à acolhida, os crentes agiam com amor e recebiam esses pregadores.

Então João escreve uma carta, que a gente conhece como 2 João, pra dizer que não dava pra ficar recebendo qualquer um, afinal em nome do amor não dava pra sacrificar a verdade. Aí a solução encontrada por algumas pessoas foi radical: já que não dava pra ficar recebendo qualquer um, e como não dava pra saber quem era quem, a saída mais fácil era não receber ninguém! Aí João escreve outra carta, que conhecemos como 3 João, pra dizer que o intuito não era proibir a acolhida, mas que era pra ter critérios. Em nome da verdade, não podiam sacrificar o amor.

O equilíbrio entre amor e verdade me parece um assunto importante nessas duas cartas. Na segunda carta, João alerta para o perigo dos falsos mestres que apelam para o amor, mas negam a verdade; e mostra um aspecto negativo da hospitalidade: o risco de hospedar falsos mestres. Já na terceira carta, João fala do perigo dos falsos líderes, aqueles que apelam para a verdade, mas negam o amor; e ressalta o lado positivo da hospitalidade: a necessidade de receber pregadores fiéis.

Um dilema se apresentava. O que era mais importante: o amor ou a verdade? Na terceira carta, João diz que ambos são importantes. Mas tinha gente que queria ser mais justo do que devia. Queria fazer com que a vida tivesse um rigor que ia além do necessário. E tinha gente do bem. Os dois são colocados como exemplos opostos. Na igreja na qual a carta devia ser lida, João identifica dois grupos: o grupo dos que recebiam os pregadores, e dos que negavam hospedagem. Ambos os grupos eram formados por membros da mesma igreja, mas tinham posturas bem diferentes. Eram duas formas antagônicas de viver o cristianismo.

Em vez de sacrificar o amor em nome da verdade ou sacrificar a verdade em nome do amor, era importante que houvesse equilíbrio. Era necessário receber os pregadores itinerantes, mas certificando-se de sua procedência.

Ainda hoje muita coisa chega até nós e até nossas igrejas. Muitas novidades e ideias, que devem ser recebidas ou rejeitadas. Não podemos perder de vista o conselho do apóstolo. Nem o amor pode matar o que é a Verdade, nem o zelo pela Verdade nos impedir de agir com amor. É preciso equilibrar as coisas, comprovar a procedência e acolher com alegria. Ou recusar prudentemente aquilo que se apresenta a nós.

  • Vinicius Vargas é pastor de jovens da IB Fonte Carioca e vice-presidente da Juventude Batista Meritiense. É marido da Izabela e pai do Eduardo e da Eliza.
  1. MARCEL DIOGENES DE OLIVEIRA

    Muito bom texto. Equilíbrio é fundamental em todas as áreas, e olhando por esta perspectiva colocada por João fica mais fácil entender que não devemos ser radicais no trato com nosso próximo e até mesmo em nossos afazeres tanto na igreja quanto em outras áreas.
    Parabéns!

  2. Muito boa a colocação do autor quanto ao equilíbrio,a medida certa das coisas é essencial porém difícil de dosar tanto naquela época quanto nos dias de hoje,onde vivemos rodeados de falsos pastores e profetas.

  3. Uau! Hoje, esse é um dos quesitos que a igreja ainda precisa ter. Esse equilíbrio é essencial!
    Principalmente porque muitas vezes esquecemos que a Verdade é o próprio amor, logo, não temos como viver um sem o outro. Estão inseridos. Ressaltando que até as correções devem ser em amor e por amor.

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