Por Ariane Gomes

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Andrew Smith/Freeimages.com

Há alguns dias, participando de um encontro sobre intergeracionalidade numa pequena cidade do interior de São Paulo, fiquei admirada com a presença tão marcante do efêmero na vida da gente. Que condição é essa que tão sorrateira se instala nos espaços, entre as pessoas e suas relações? Condição que não tem tempo, não se interessa nem se envolve, não para nem ouve, tampouco dialoga. Acontece e vai embora. É passageira, não faz história.

Dei de cara com esse desconforto quando, aproveitando um tempo livre da programação, saí à procura de cartões postais da cidade – a propósito, uma cidade muito agradável, com passeios largos, ruas limpas e arborizadas, ar fresco e céu azulzinho de inverno. Queria os cartões para contar a alguns amigos sobre o lugar, falar do encontro, do hotel e das comidas gostosas, de pessoas e dos dias passados por lá.

Fui ao quiosque de informações turísticas, à banca de jornal, a lojas de artesanato e nada dos cartões. Subi e desci ruas, virei esquinas e perguntei a um e a outro até que, ao chegar a uma loja de souvenirs, um senhor de meia idade disse-me francamente: “Não se usa mais cartão postal. Hoje em dia todo mundo tem câmera no celular e envia fotos por ele”. Ele foi sincero e disse a verdade – desconfortável verdade! Confesso que fiquei sem graça. Guardei os selos e o papel de rascunho onde havia anotado os endereços dos amigos e voltei para o hotel. Fim de planos.

O homem tinha razão, o serviço de smartphones é muito eficiente e rápido, em menos de cinco segundos uma pessoa (amiga ou não) no outro lado do mundo pode saber que você está numa cidadezinha do interior e ver fotos suas porque os recursos para isso são fabulosos. Mas naquele momento eu não queria fotos instantâneas nem tinha pressa de que as notícias chegassem aos amigos. Sabia do tempo que os cartões levariam para ir de uma cidade a outra, e isso não importava. Queria escrever com caneta e letra vacilante e não com um teclado. Queria que, ao verificar aquela papelada de propaganda que costuma abarrotar a caixa de correio da casa da gente, os amigos fossem surpreendidos por um cartão com mensagem escrita a mão, selado e carimbado, vindo de longe, com cheiro de outro lugar e com saudações da amiga viajante.

É claro que me beneficio todos os dias da tecnologia, mas naquela ocasião fiquei aborrecida com a rapidez com que ela nos serve, mas também invade a vida da gente e nos coloca contra a parede (ou a foto instantânea ou nada…). Tive receio de que deixássemos de aproveitar oportunidades de contar histórias e de guardar lembranças de outras maneiras que não apenas nos servindo de uma câmera e um celular.

Depois do esbarrão com o efêmero e porque não queria dormir com esse assunto remoendo o pensamento, fiz uma oração pedindo a Deus que nos ajude a aproveitar o antigo e o novo, a equilibrar a tradição e a inovação, a valorizar a sabedoria e experiência dos velhos e o vigor e a capacidade de manusear os recursos tecnológicos dos jovens. Pedi que ambos tenham chance de sentir, experimentar e servir de maneira plena e profunda; que a troca entre eles seja verdadeira e alegre; que uns e outros sejam mais do que flor que brota de manhã e murcha à tarde sem deixar rastros de beleza e vida.

 

• Ariane Gomes é assistente de redação na Editora Ultimato.

 

  1. Nos grandes centros parece-me, que ainda encontramos. Eu tenho saudades deles e vou tentar encontrar algum por aqui.
    Nos anos 60 era uma festa encontrar na caixa dos correios os envelopes com as lembranças de amigos que nos mandavam.

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