Daniel em Potsdam, Alemanha. Foto: Mateus Viegas

Daniel em Potsdam, Alemanha. Foto: Mateus Viegas

 

Por Daniel Caldeira

Sentei na frente da Torre Eiffel e pensei como a saída mais fácil tinha sido vir pra Europa, largar toda responsabilidade que tinha pra trás, trancar a faculdade, esvaziar a poupança e fugir. Mas diz aquela música que gostei quando ouvi o Carlinhos Veiga cantar: “onde eu ia, eu tava”. E como quem foge de si, acaba se encontrando, eu vi que esse “retiro” na Europa era a “barriga de uma grande baleia”. Uma barriga com lugares lindos, por sinal. Quando fui dar conta, estava sentado ali fazia uma hora e meia, e já era mais que hora de seguir a pé até a Ópera de Paris.
Seguem nesse texto algumas dicas pra você que quer um dia fazer um turismo por aí.

Viaje
Acho que eu não tinha noção da importância de viajar – seja pra outro continente ou pra uma cidade vizinha – até chegar aqui. Renovar os ares, desacostumar o olhar é algo que nos faz perceber o nosso próprio espaço de forma diferente, reformá-lo, reforçá-lo. As coisas e pessoas são diferentes de onde você está e isso causa um estranhamento que é bom. As casas da Alemanha têm aqueles telhadinhos em “A”, as ruas de Amsterdã são uma mistura um pouco caótica de gente, bicicletas e bondinhos, as pessoas de Paris estão num parque com os filhos em plena terça-feira à tarde. Quando eu olho pra essas outras culturas, consigo traçar melhor a minha, e consigo até sonhar, por exemplo, com uma folga à tarde no trabalho pra poder ter um tempo no parque.

Viaje sozinho (a pé, quando possível)
Viajar sozinho é algo que te deixa mais sensível ao que o espaço em que você está significa. Te faz ter que falar menos e te obriga a olhar mais. Tive bonitos momentos de contemplação, conversei com Deus no silêncio de algumas igrejas e na vivacidade de alguns parques, e nessas horas passei a me olhar e me entender mais profundamente, também, dos porquês de ter saído do Brasil. Além disso, você tem a oportunidade de conhecer gente de todo lugar e entrar em contato com elas: em Paris, conheci um americano, estudante de sociologia de Harvard e um taiwanês que morava em Londres, além de uma turma de brasileiros viajando juntos. Em Bruxelas conheci no ponto de ônibus duas alemãs que estavam voltando pra casa, dois amigos argentinos – que depois coincidentemente encontrei na Oktoberfest! – em Amsterdã, dois franceses e um japonês.

Vou ser sincero: Essa coisa de viajar a pé não foi voluntária, no início. Isso começou em Paris quando eu percebi que eu não tinha muita grana pra ficar andando de metrô, muito menos pra tomar um milhão de cafés como no meu ideal de viagem. Hostel barato, almoço e janta comprados no mercado, tudo isso pra ter dinheiro pra entrar no Louvre. No primeiro dia de caminhada fui do meu hostel, do lado da Gare de Lyon até o Louvre (um Google Maps te dará uma noção melhor), mais ou menos 4 km. Eu achei muito mais bonito! Repeti a dose em Bruxelas e Brugge. Você conhece as ruas, os lugares diferentes, percebe melhor as nuances de uma cidade que não é feita só de pontos turísticos. Você descobre lojas de bugigangas, roupas usadas, discos de vinil, feirinhas, paredes grafitadas – Bruxelas tem isso aos montes! – coisas que dão um gosto a mais do que é estar naquela cidade.

Daniel com os amigos Mateus Viegas, Nailza Bizerra e Paulo Accioly, em Monique, Alemanha.

Daniel (à direita) com os amigos Mateus Viegas, Nailza Bizerra e Paulo Accioly, em Munique, Alemanha.

Viaje sozinho, mas com seus amigos também
O compartilhar toma o lugar da contemplação quando você viaja com seus amigos. Tenho como “porto” para as minhas viagens as casas de alguns amigos que estão estudando na Alemanha, e combinamos de ir juntos para alguns lugares. Às vezes, o que joga a moral de uma viagem pra cima é alguém pra jogar conversa fora e te empurrar em direção a algumas coisas loucas que você não faria em casa nem sozinho, como dar uma volta à noite em Berlim vestido de dinossauro ou cantar clássicos da TV no bondinho. Viajar com os amigos é ter história engraçada pra contar lá na frente e a certeza de estreitar os laços. (Clayton, Paulo e Viegas, sou grato pela hospedagem e pela companhia!)

Nesses dois meses e meio, sozinho, junto, a pé, de metrô, fui a vários lugares: Colônia, Kassel, Münster, Padeborn, Munique, Berlim, Potsdam, Salzburg, Hallstatt, Amsterdã, Bruxelas, Brugge, Paris, Roma e Barcelona. Vi algumas coisas que não tem como descrever, como por exemplo, a Kölner Dom, em Colônia e as Bodas de Caná de Veronesi no Louvre. Claro, bate sempre a saudade do Brasil. Saudade que eu aprendi a ter aqui, das praias, da gente, dos amigos. Mas ser estrangeiro no mundo, sentir saudades de onde vim não me impede de apreciar tudo de bonito que existe e que revela a graça e o amor de um Deus bonito. A baleia me cospe na praia de Itacoatiara, lá pertinho de casa em Niterói, e eu volto na certeza de que Deus me levou pra Europa pra me ensinar a fazer um turismo – pra dentro e pra fora de mim.

 

  • Daniel Caldeira é estudante de publicidade e propaganda na Universidade Federal Fluminense (UFF). Nas horas vagas (e nas não vagas), tenta olhar o mundo e transformá-lo em música e texto. Em 2013, ele gravou o EP “Azul Laranja”. Baixe as canções gratuitamente aqui. Congrega na Igreja Presbiteriana Betânia, em Niterói (RJ).

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